Partos em directo na SIC acendem polémica
Ana Gaspar no Jornal de Notícias de 17/10/2010
As manifestações contra e a favor à emissão pela SIC de dois nascimentos na estreia do programa "Boa tarde" proliferam na internet. Nos próximos dias serão pedidos esclarecimentos à reguladora, à Ordem dos Médicos e aos hospitais pela Associação Portuguesa pela Humanização do Parto.
Depois do comunicado onde condena a emissão em directo de um parto no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, e de uma cesariana no Hospital de Beja, a Associação Portuguesa pela Humanização do Parto (Humpar) conta pedir, nos próximos dias, esclarecimentos à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), Ordem dos Médicos e às unidades de saúde envolvidas nesta ao sucedido.
"Nós não nos opomos a que se veja como são os partos. Opomo-nos é a que seja feito desta forma gratuita, com desrespeito pelas pessoas envolvidas, para promover um programa de televisão", explicou Rita Correia, presidente da Direcção da Humpar.
Recorde-se que, para assinalar a estreia, o programa de Conceição Lino emitiu em directo, na última segunda-feira, dois nascimentos. Paralelamente à posição da Humpar, têm surgido nas redes sociais e na blogosfera opiniões contra e a favor da transmissão, sendo as desfavoráveis em maior número.
Além de questionarem a falta de sensibilidade e discernimento de todos os envolvidos, alguns destes comentários apontam discrepâncias na postura dos hospitais, como por exemplo no número de pessoas permitidas na sala de partos.
"Pela lei, a mulher tem direito a um acompanhante à sua escolha. Mas em muitos hospitais há situações onde isso não acontece por não haver condições na sala", lembra Rita Correia, teorizando que a partir de agora uma mulher a quem seja negado a entrada a mais do que um acompanhante em Santa Maria pode alegar que na emissão da SIC estava mais do que uma pessoa.
Pais não assistem a cesarianas
No caso das cesarianas, como a de Beja, não é sequer permitida a presença do pai. "É uma coisa impensável", prossegue , frisando ainda que no nascimento ocorrido em Beja, a apresentadora que se encontrava na sala não estava sequer equipada com máscara cirúrgica e luvas. "E nós não estávamos a ver o operador de câmara", disse ainda.
No entender desta responsável, mesmo que os médicos tenham autorizado a captação das imagens para mostrar o que de melhor o seu trabalho tem, acabaram por expor práticas que vão contra indicações fisiológicas e recomendações da Organização Mundial de Saúde e da União Europeia, como o recurso exagerado à epidural ou o facto de uma grávida no período de expulsão se encontrar "imobilizada e de costas".
E se algo correr mal?
Felisbela Lopes questiona-se "como é que os hospitais deixam fazer programas em directo?". No entender da investigadora na área dos média da Universidade do Minho, "os actores da saúde sabem que a intervenção médica, por mais simples que seja, comporta risco" e que "o directo é uma variável cuja amplitude os médicos não calculam".
Também Rita Correia se pronuncia sobre esta questão. "De acordo com o dr. Luís Graça (director do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de Santa Maria), 40% dos partos evolui para uma situação de alto risco", por isso a responsável não percebe como o hospital acedeu à emissão.
Fora das questões médicas, e cingindo-se à relevância de uma transmissão televisiva deste tipo, o crítico Eduardo Cintra Torres entende que esta poderá chocar ou não os espectadores, dependendo dos "valores morais" de cada um.
"Se os pais achavam que ia ser um momento tão histórico que o queriam partilhar, a utilização dos média para a sua vida privada torna-se um valor positivo", explica.
Contactada pelo JN, a SIC não comenta as reacções à emissão.
Notícia disponível aqui.
Em relação à notícia em causa, motivada pelo comunicado da Humpar ao programa exibido na SIC a 13 de Setembro de 2010, cumpre-nos esclarecer o seguinte:
Ao contrário do que transparece nos comentários online à notícia, não foi uma questão de puritanismo que nos levou a elaborar o comunicado. Aliás, seria com muito agrado que assistiríamos na televisão a mais imagens de partos, devidamente contextualizadas e com propósito informativo e educativo.
Infelizmente, nenhuma dessas vertentes foi observada no programa, tratando-se de sensasionalismo puro.
Prezamos a liberdade de informação e somos da opinião de que numa sociedade livre não há temas tabus. Deve, sim, existir bom senso nos responsáveis pela comunicação social, e repudiamos o estilo “big brother” que foi aplicado ao produto televisivo em questão.
A exibição de partos na televisão é bastante positiva, seja em estilo documentário ou de jornalismo de investigação, mas tratar esta temática ao estilo reallity-show em nada promove o bem estar dos intervenientes nem a informação aos espectadores.
Não questionamos a autorização supostamente dada pelos casais envolvidos, que estão no seu pleno direito de se exibirem da forma que entenderem melhor.
O que nos levou a emitir o comunicado tem a ver com os atropelos às boas práticas e contra os quais lutamos diariamente: mulheres em litotomia quando a OMS e a evidência científica aconselham liberdade de movimentos; esforços expulsivos dirigidos, quando estes estão desaconselhados, desrespeito pelas necessidades básicas das mulheres em trabalho de parto, entre tantos outros atropelos verificados na exibição em causa.
Por outro lado, não compreendemos a dualidade de critérios das unidades hospitalares envolvidas: as mulheres apenas têm direito a um acompanhante apesar de inúmeras vezes solicitarem ser acompanhadas por duas pessoas próximas de si.
Os motivos invocados pelos hospitais para tal recusa não se coadunam com a situação que pudemos ver em directo na televisão, e prendem-se na maioria das vezes em questões de logística e privacidade das restantes utentes dos serviços, bem como dos respectivos funcionários.
Não compreendemos a excepção que foi feita, até porque há sempre muitos entraves logísticos à realização de peças documentais ou jornalísticas nos hospitais.
Em relação à cesariana exibida na segunda parte do programa, pensamos que a questão se torna ainda mais grave. Uma cesariana não é a forma “natural” de nascer, mas sim uma intervenção cirúrgica utilizada em casos de risco de saúde para a mãe e/ou recém-nascido, nos quais não é possível um parto eutócico. Além do mais, parece-nos gravíssimo que a repórter não esteja a usar máscara nem luvas e deambule constantemente na sala de operações, potenciando assim o risco de infecção que deve ser minimizado.
Para terminar, cumpre-nos ainda informar que a maioria dos pais vêm negado seu pedido de assistir a cesarianas, bem como fazer imagens video ou fotográficas dos partos.
Esperamos sinceramente, que esta situação gerada à volta do programa tenha a possibilidade de fomentar um debate sério e alargado na sociedade portuguesa, onde falta ainda muita informação sobre o tema.
A Direcção da Humpar,
17 de Setembro de 2010
Infelizmente, nenhuma dessas vertentes foi observada no programa, tratando-se de sensasionalismo puro.
Prezamos a liberdade de informação e somos da opinião de que numa sociedade livre não há temas tabus. Deve, sim, existir bom senso nos responsáveis pela comunicação social, e repudiamos o estilo “big brother” que foi aplicado ao produto televisivo em questão.
A exibição de partos na televisão é bastante positiva, seja em estilo documentário ou de jornalismo de investigação, mas tratar esta temática ao estilo reallity-show em nada promove o bem estar dos intervenientes nem a informação aos espectadores.
Não questionamos a autorização supostamente dada pelos casais envolvidos, que estão no seu pleno direito de se exibirem da forma que entenderem melhor.
O que nos levou a emitir o comunicado tem a ver com os atropelos às boas práticas e contra os quais lutamos diariamente: mulheres em litotomia quando a OMS e a evidência científica aconselham liberdade de movimentos; esforços expulsivos dirigidos, quando estes estão desaconselhados, desrespeito pelas necessidades básicas das mulheres em trabalho de parto, entre tantos outros atropelos verificados na exibição em causa.
Por outro lado, não compreendemos a dualidade de critérios das unidades hospitalares envolvidas: as mulheres apenas têm direito a um acompanhante apesar de inúmeras vezes solicitarem ser acompanhadas por duas pessoas próximas de si.
Os motivos invocados pelos hospitais para tal recusa não se coadunam com a situação que pudemos ver em directo na televisão, e prendem-se na maioria das vezes em questões de logística e privacidade das restantes utentes dos serviços, bem como dos respectivos funcionários.
Não compreendemos a excepção que foi feita, até porque há sempre muitos entraves logísticos à realização de peças documentais ou jornalísticas nos hospitais.
Em relação à cesariana exibida na segunda parte do programa, pensamos que a questão se torna ainda mais grave. Uma cesariana não é a forma “natural” de nascer, mas sim uma intervenção cirúrgica utilizada em casos de risco de saúde para a mãe e/ou recém-nascido, nos quais não é possível um parto eutócico. Além do mais, parece-nos gravíssimo que a repórter não esteja a usar máscara nem luvas e deambule constantemente na sala de operações, potenciando assim o risco de infecção que deve ser minimizado.
Para terminar, cumpre-nos ainda informar que a maioria dos pais vêm negado seu pedido de assistir a cesarianas, bem como fazer imagens video ou fotográficas dos partos.
Esperamos sinceramente, que esta situação gerada à volta do programa tenha a possibilidade de fomentar um debate sério e alargado na sociedade portuguesa, onde falta ainda muita informação sobre o tema.
A Direcção da Humpar,
17 de Setembro de 2010