Parto domiciliário: Como dar à luz à moda antiga
Rita e João, Cristina e Américo, Walesca e Demitri, são três casais que têm em comum o facto de escolherem ter os filhos na própria casa, longe do sistema hospitalar. O que os move é a luta pelo direito a um parto humanizado.
Rita, 34 anos, e João, 27, deram as boas-vindas ao Rafael há três meses. No seu apartamento, na Ericeira, não se assiste, contudo, a cenas típicas de filme: casal desesperado entre fraldas e biberões. Respira-se tranquilidade. Sob um calor aconchegante, Rita segura o seu bebé nos braços para lhe dar de mamar. E embalada pelo silêncio viaja até um passado não muito distante para recordar o dia em que ela e o marido receberam a notícia de uma gravidez inesperada. “Não estava planeado para vir tão cedo, mas ficámos felizes”, começa por dizer a psicóloga.
Apesar da surpresa inicial, a evolução do estado de graça deslumbrou o jovem casal, fazendo disparar uma cumplicidade sem igual. Com ela, nasceu uma certeza: o parto do Rafael tinha de ser uma experiência a dois. “Tudo fazia mais sentido com ele do meu lado”, diz Rita. “Dentro do que a natureza me permitiu, sentia-me igualmente grávido. Não queria assistir, queria participar do nascimento do meu filho”, acrescenta o marido.
Primeiro, o casal considerou a hipótese de ter o Rafael dentro de água. No entanto, foram confrontados com a ausência de maternidades e clínicas que possibilitassem este sonho. Sem desmoralizar, seguiram rumo ao plano B: o parto domiciliar. Nos tempos seguintes, consumiram tanta informação quanto possível. “A sociedade de hoje é que faz com que nos esqueçamos dos nossos instintos. A natureza sabe aquilo que faz”, adiantam sobre aquilo que retiveram. Depois, trocaram referências com outros pais acerca de parteiras habilitadas. “Não queríamos passar pelos procedimentos hospitalares, sem privacidade, com todos a dar ordens, barulho e muita luz”, confidenciam. A partir daí nada nem ninguém os faria mudar de ideias.
No grande dia, estava tudo a postos para receber o novo membro da família. À luz de velas e sentados na cama, abraçados um ao outro, Rita e João trouxeram o Rafael ao mundo. “Tudo tinha a nossa energia. Foi um momento mágico”, diz Rita. João, por sua vez, não consegue imaginar o que seria não partilhar o nascimento do filho com a mulher. “Fui a primeira pessoa que o Rafael viu mal saiu da barriga da mãe”, acrescenta babado.
Tal como Rita e João, há em Portugal muitos casais que optam por ter os filhos em casa. Por vezes, Glória Charrua, parteira há 40 anos, não tem mãos a medir. “Actualmente, faço uma média de quatro partos por mês”, começa por dizer a especialista. O seu ponto de vista sobre o fenómeno é simples: “A mulher quando está para ter o seu filho quer, cada vez mais, privacidade. Para além disso, os médicos têm abusado das cesarianas, e elas estão a reagir.”
Alentejana de gema, esta parteira formou-se em Coimbra. Durante anos a fio trabalhou ora em clínicas, ora em hospitais. A certa altura começou a ser solicitada para dar assistência a partos domiciliares. “Trabalhava no Hospital do Barreiro, onde vivem muitos alentejanos, um povo acostumado a ter os filhos em casa”, esclarece. Tomou-lhe o gosto e a partir daí passou a conciliar o trabalho hospitalar com a prestação de serviços ao domicílio. Mas vivia com uma angustia dentro de si. “Quando trabalho com um médico tenho que cumprir as ordens dele... Tive que tomar atitudes que iam contra os meus princípios”, confidencia. “Desde dar Valium na veia e a mulher ficar atordoada a usar forceps...”, vai deixando escapar por entre os lábios cerrados. E diz mais: “Sei de médicos portugueses que fazem cesarianas apenas por razões monetárias”, conta. E indignada afirma: “Sou contra o parto induzido. Os bebés têm que nascer quando querem e não quando o médico quer.”
É por estas e por outras que Glória Charrua optou há seis anos por pedir uma licença sem vencimento. Desde então, só faz aquilo que lhe dá mais prazer: ajudar os bebés a nascer em casa. “A minha função é apenas a de transmitir calma à mãe. Nunca cortei um cordão umbilical antes deste deixar de pulsar, não pego no bebé para lhe dar a palmadinha no rabo, respeito os macrobióticos que não querem medicamentos, as minhas parturientes ficam sempre com o períneo intacto...”, conta para exemplificar o que a distingue dos procedimentos hospitalares.
HOJE, AOS 62 ANOS, confortavelmente sentada na poltrona da sala de estar daquela que será provavelmente a futura Associação Nacional de Parteiras, folheia álbuns de fotografias recheados de história. “São algumas das lembranças que os pais me enviam”, afirma. Os cabelos brancos, a contrastar com a pele demasiado morena, há muito que lhe roubaram da memória o número de crianças que as suas mãos, hoje enrugadas, mas ainda delicadas, ajudaram a nascer. Há, contudo, lembranças que o tempo nunca apagará: “Nenhum dos meus partos necessitou de cesariana”, faz questão de informar. E com os olhos a serem invadidos pela emoção, transmite: ”Agradeço a todos os pais a confiança que depositam em mim”.
Foi precisamente o que fizeram Cristina, 40 anos, e Américo Torres, 42. O casal decidiu confiar o nascimento do último de dez filhos a esta parteira depois de passarem por uma experiência hospitalar menos feliz. Tudo começou quando após o nascimento de mais um descendente, julgando já ter passado por tudo, se deparam com a necessidade de realizar uma cesariana. “Penso que se os médicos tivessem dado ouvidos talvez pudesse ter sido evitada”, revela Cristina. Com a pulga atrás da orelha, tratou de se inteirar sobre o parto e a sua fisiologia. Deparou-se com um conceito do qual nunca tinha ouvido falar: o parto humanizado. “Percebi que a gravidez não é patológica, mas os médicos comportam-se como se fosse. Padronizam os partos, ensinam as pessoas a ir por um só caminho”, afirma.
Tudo o que aprenderam acabou por se tornar bastante útil quando decidiram brindar os filhos com mais um irmãozinho. “Já fizemos uma preparação pré-parto. E apesar do bebé ter nascido no Hospital foi uma experiência diferente, em que não foram necessárias drogas”, recorda Cristina.
A experiência foi tão positiva que tempos depois o casal decidia aumentar novamente a família. Nessa altura, já Cristina tinha tratado de enriquecer os seus conhecimentos. Facto esse que a levava agora a ter uma nova certeza: “este bebé vai nascer em casa!’”. O marido, Américo, é que não foi fácil de convencer. “Por ignorância”, admite ele, hoje. “Mas, ao fim de uma hora, ela já me tinha dado a volta”, confidencia, entre gargalhadas. E a lição ficou bem estudada: “Há uma grande diferença entre o parto domiciliar e o hospitalar. É que no primeiro as pessoas têm noção do perigo, no segundo não têm noção nenhuma”, dispara.
Cristina alerta, no entanto, para a importância de haver consciência e responsabilidade por parte dos casais que tomam esta opção: “Tinha 40 anos mas tive uma gravidez vigiada, tinha o peso ideal e sentia-me física e psicologicamente preparada para o fazer. Para além disso, não me atirei para isto às cegas, sabia para o que é que ia”, faz questão de frisar. É que apesar dos familiares, em geral, terem reagido bem à opção do casal, houve muita gente que passou a olhar com desdém para Cristina e Américo. “Acharam que nós éramos uns inconscientes, uns assassinos...” Para o casal, a opinião dos outros pouco ou nada pesou. O caminho era em frente. Restava esperar que Joseph Benjamim, como lhe chamaram, escolhesse a sua hora para nascer.
CRISTINA RECORDA com um brilho especial nos olhos aquele dia quente de Julho em que o amor da sua família saiu reforçado: “Minutos depois já estávamos todos reunidos a dar-lhe o primeiro banho. Um dos meus filhos olhou para o irmão, aninhou-se a ele e deu-lhe uma lambidela na cabeça”, relata.
Desta experiência nasceu a necessidade de chamar outros casais à verdade sobre as maravilhas escondidas por detrás de um parto. Nasceu a Humpar (www.humpar.org), Associação Portuguesa pela Humanização do Parto.“Depois de ouvirmos os traumas de algumas pessoas percebemos a necessidade de relatar as nossas vivências e conhecimentos. Acreditamos que a partir desta ajuda mais ninguém poderá dizer que passou por uma experiência horrível”, assegura Américo. Cristina ressalva, no entanto, que a Associação não tem por base radicalismos “queremos seguir a linha do senso comum”. E diz mais: “Nós não somos contra o parto hospitalar, somos contra o parto hospitalar não humanizado”. “Infelizmente nos hospitais portugueses isso não existe, só em casos muito pontuais”, garante Américo.
Foi por causa do parto humanizado ainda não ser uma prática comum em Portugal, que a brasileira Walesca Nunes, 35 anos, a viver em Portugal há um ano e meio, morria de medo só de pensar no nascimento do seu segundo filho. Acabada de chegar do Brasil, grávida de sete meses, esta engenheira informática começou a acertar todos os pormenores para o grande dia. Primeiro, tentou o sistema público. “Fui a um centro de saúde onde tudo me pareceu muito impessoal”, relata. Juntamente com o marido, Demitri, 35 anos, decidiu arriscar o serviço privado. A experiência não foi mais animadora. “Foi um problema arranjar um médico que me atendesse devido ao estado avançado da gravidez. Depois, quando finalmente arranjei um, este não me respondia a nenhuma das questões relacionadas com o parto. Dizia sempre ‘depois logo se vê’”, recorda a brasileira, indignada.
Tempos depois, já em desespero, o casal encontrou uma nova esperança: “Através de um site da Internet descobrimos que existem doulas (acompanhantes de grávidas) em Portugal. Liguei para uma, expliquei a minha situação, fartei-me de chorar, e ela falou-me da possibilidade de ter um parto domiciliar”. Inicialmente, a ideia pareceu-lhes estranha. “Claro que tive algum receio até porque o meu primeiro filho nasceu de cesariana mas o meu medo maior era ter o Enzo no Hospital”, afirma Walesca. Mas decidiram avançar. Ao lado do marido, da parteira e de uma doula, Walesca trouxe Enzo ao mundo. E uma hora depois estava como nova, a tomar um chá na sala. Hoje, o casal só tem pena de não se ter informado sobre o parto humanizado há mais tempo. “Percebi que era um ignorante e rendi-me às evidências”, diz Demitri. Definitivamente o parto humanizado encheu-lhe as medidas.
MUNDO
O CASO HOLANDÊS
Em muitos países desenvolvidos tem vindo a aumentar o interesse em dar à luz em casa, é o caso dos EUA, Inglaterra, Austrália, França e Japão. Na Holanda, por exemplo, segundo dados da organização Mundial de Saúde, 40 por cento dos nascimentos ocorrem no domicílio. O parto em casa é comum e qualquer mulher que não apresente sinais de alguma anormalidade durante o período pré-natal pode ter o seu bebé no próprio lar. Curiosamente, a Holanda é também dos países da Europa com uma das menores taxas de mortalidade infantil.
PRINCIPAIS MOTIVOS
RAZÕES QUE LEVAM AO PARTO DOMICILIAR
- Evitar drogas, anestesias e intervenções.
- Fugir ao atendimento massificado e pouco personalizado das maternidades.
- Fugir ao ambiente hostil dos hospitais.
- Evitar passar por experiências hospitalares anteriores próprias ou alheias.
- Desfrutar de um ambiente tranquilo, sem luzes ofuscantes, cheiros estranhos.
- Estar apenas ao lado de pessoas com quem se tem uma ligação afectiva.
- Possibilidade de ficar com o bebé logo após o seu nascimento, senti-lo, cheirá-lo...
- Fazer questão da presença e participação do marido.
- O parto não é uma doença, um fenómeno fisiológico.
- Liberdade de expressão, de movimentos.
- Deixar acontecer.
CONSELHOS
CONDIÇÕES PARA TER UM FILHO EM CASA
- Tomar uma decisão esclarecida e responsável.
- Crescimento uterino normal (bebé nem muito grande, nem muito pequeno).
- Pressão arterial normal.
- Apresentação cefálica (bebé virado de cabeça).
- Gestação a termo (entre 37 e 41 semanas).
- Nunca ter tido uma cesariana (relativo).
Fonte: Correio da Manhã - Revista Domingo de 05 de Janeiro de 2006
Jornalista: Janete Frazão
Rita e João, Cristina e Américo, Walesca e Demitri, são três casais que têm em comum o facto de escolherem ter os filhos na própria casa, longe do sistema hospitalar. O que os move é a luta pelo direito a um parto humanizado.
Rita, 34 anos, e João, 27, deram as boas-vindas ao Rafael há três meses. No seu apartamento, na Ericeira, não se assiste, contudo, a cenas típicas de filme: casal desesperado entre fraldas e biberões. Respira-se tranquilidade. Sob um calor aconchegante, Rita segura o seu bebé nos braços para lhe dar de mamar. E embalada pelo silêncio viaja até um passado não muito distante para recordar o dia em que ela e o marido receberam a notícia de uma gravidez inesperada. “Não estava planeado para vir tão cedo, mas ficámos felizes”, começa por dizer a psicóloga.
Apesar da surpresa inicial, a evolução do estado de graça deslumbrou o jovem casal, fazendo disparar uma cumplicidade sem igual. Com ela, nasceu uma certeza: o parto do Rafael tinha de ser uma experiência a dois. “Tudo fazia mais sentido com ele do meu lado”, diz Rita. “Dentro do que a natureza me permitiu, sentia-me igualmente grávido. Não queria assistir, queria participar do nascimento do meu filho”, acrescenta o marido.
Primeiro, o casal considerou a hipótese de ter o Rafael dentro de água. No entanto, foram confrontados com a ausência de maternidades e clínicas que possibilitassem este sonho. Sem desmoralizar, seguiram rumo ao plano B: o parto domiciliar. Nos tempos seguintes, consumiram tanta informação quanto possível. “A sociedade de hoje é que faz com que nos esqueçamos dos nossos instintos. A natureza sabe aquilo que faz”, adiantam sobre aquilo que retiveram. Depois, trocaram referências com outros pais acerca de parteiras habilitadas. “Não queríamos passar pelos procedimentos hospitalares, sem privacidade, com todos a dar ordens, barulho e muita luz”, confidenciam. A partir daí nada nem ninguém os faria mudar de ideias.
No grande dia, estava tudo a postos para receber o novo membro da família. À luz de velas e sentados na cama, abraçados um ao outro, Rita e João trouxeram o Rafael ao mundo. “Tudo tinha a nossa energia. Foi um momento mágico”, diz Rita. João, por sua vez, não consegue imaginar o que seria não partilhar o nascimento do filho com a mulher. “Fui a primeira pessoa que o Rafael viu mal saiu da barriga da mãe”, acrescenta babado.
Tal como Rita e João, há em Portugal muitos casais que optam por ter os filhos em casa. Por vezes, Glória Charrua, parteira há 40 anos, não tem mãos a medir. “Actualmente, faço uma média de quatro partos por mês”, começa por dizer a especialista. O seu ponto de vista sobre o fenómeno é simples: “A mulher quando está para ter o seu filho quer, cada vez mais, privacidade. Para além disso, os médicos têm abusado das cesarianas, e elas estão a reagir.”
Alentejana de gema, esta parteira formou-se em Coimbra. Durante anos a fio trabalhou ora em clínicas, ora em hospitais. A certa altura começou a ser solicitada para dar assistência a partos domiciliares. “Trabalhava no Hospital do Barreiro, onde vivem muitos alentejanos, um povo acostumado a ter os filhos em casa”, esclarece. Tomou-lhe o gosto e a partir daí passou a conciliar o trabalho hospitalar com a prestação de serviços ao domicílio. Mas vivia com uma angustia dentro de si. “Quando trabalho com um médico tenho que cumprir as ordens dele... Tive que tomar atitudes que iam contra os meus princípios”, confidencia. “Desde dar Valium na veia e a mulher ficar atordoada a usar forceps...”, vai deixando escapar por entre os lábios cerrados. E diz mais: “Sei de médicos portugueses que fazem cesarianas apenas por razões monetárias”, conta. E indignada afirma: “Sou contra o parto induzido. Os bebés têm que nascer quando querem e não quando o médico quer.”
É por estas e por outras que Glória Charrua optou há seis anos por pedir uma licença sem vencimento. Desde então, só faz aquilo que lhe dá mais prazer: ajudar os bebés a nascer em casa. “A minha função é apenas a de transmitir calma à mãe. Nunca cortei um cordão umbilical antes deste deixar de pulsar, não pego no bebé para lhe dar a palmadinha no rabo, respeito os macrobióticos que não querem medicamentos, as minhas parturientes ficam sempre com o períneo intacto...”, conta para exemplificar o que a distingue dos procedimentos hospitalares.
HOJE, AOS 62 ANOS, confortavelmente sentada na poltrona da sala de estar daquela que será provavelmente a futura Associação Nacional de Parteiras, folheia álbuns de fotografias recheados de história. “São algumas das lembranças que os pais me enviam”, afirma. Os cabelos brancos, a contrastar com a pele demasiado morena, há muito que lhe roubaram da memória o número de crianças que as suas mãos, hoje enrugadas, mas ainda delicadas, ajudaram a nascer. Há, contudo, lembranças que o tempo nunca apagará: “Nenhum dos meus partos necessitou de cesariana”, faz questão de informar. E com os olhos a serem invadidos pela emoção, transmite: ”Agradeço a todos os pais a confiança que depositam em mim”.
Foi precisamente o que fizeram Cristina, 40 anos, e Américo Torres, 42. O casal decidiu confiar o nascimento do último de dez filhos a esta parteira depois de passarem por uma experiência hospitalar menos feliz. Tudo começou quando após o nascimento de mais um descendente, julgando já ter passado por tudo, se deparam com a necessidade de realizar uma cesariana. “Penso que se os médicos tivessem dado ouvidos talvez pudesse ter sido evitada”, revela Cristina. Com a pulga atrás da orelha, tratou de se inteirar sobre o parto e a sua fisiologia. Deparou-se com um conceito do qual nunca tinha ouvido falar: o parto humanizado. “Percebi que a gravidez não é patológica, mas os médicos comportam-se como se fosse. Padronizam os partos, ensinam as pessoas a ir por um só caminho”, afirma.
Tudo o que aprenderam acabou por se tornar bastante útil quando decidiram brindar os filhos com mais um irmãozinho. “Já fizemos uma preparação pré-parto. E apesar do bebé ter nascido no Hospital foi uma experiência diferente, em que não foram necessárias drogas”, recorda Cristina.
A experiência foi tão positiva que tempos depois o casal decidia aumentar novamente a família. Nessa altura, já Cristina tinha tratado de enriquecer os seus conhecimentos. Facto esse que a levava agora a ter uma nova certeza: “este bebé vai nascer em casa!’”. O marido, Américo, é que não foi fácil de convencer. “Por ignorância”, admite ele, hoje. “Mas, ao fim de uma hora, ela já me tinha dado a volta”, confidencia, entre gargalhadas. E a lição ficou bem estudada: “Há uma grande diferença entre o parto domiciliar e o hospitalar. É que no primeiro as pessoas têm noção do perigo, no segundo não têm noção nenhuma”, dispara.
Cristina alerta, no entanto, para a importância de haver consciência e responsabilidade por parte dos casais que tomam esta opção: “Tinha 40 anos mas tive uma gravidez vigiada, tinha o peso ideal e sentia-me física e psicologicamente preparada para o fazer. Para além disso, não me atirei para isto às cegas, sabia para o que é que ia”, faz questão de frisar. É que apesar dos familiares, em geral, terem reagido bem à opção do casal, houve muita gente que passou a olhar com desdém para Cristina e Américo. “Acharam que nós éramos uns inconscientes, uns assassinos...” Para o casal, a opinião dos outros pouco ou nada pesou. O caminho era em frente. Restava esperar que Joseph Benjamim, como lhe chamaram, escolhesse a sua hora para nascer.
CRISTINA RECORDA com um brilho especial nos olhos aquele dia quente de Julho em que o amor da sua família saiu reforçado: “Minutos depois já estávamos todos reunidos a dar-lhe o primeiro banho. Um dos meus filhos olhou para o irmão, aninhou-se a ele e deu-lhe uma lambidela na cabeça”, relata.
Desta experiência nasceu a necessidade de chamar outros casais à verdade sobre as maravilhas escondidas por detrás de um parto. Nasceu a Humpar (www.humpar.org), Associação Portuguesa pela Humanização do Parto.“Depois de ouvirmos os traumas de algumas pessoas percebemos a necessidade de relatar as nossas vivências e conhecimentos. Acreditamos que a partir desta ajuda mais ninguém poderá dizer que passou por uma experiência horrível”, assegura Américo. Cristina ressalva, no entanto, que a Associação não tem por base radicalismos “queremos seguir a linha do senso comum”. E diz mais: “Nós não somos contra o parto hospitalar, somos contra o parto hospitalar não humanizado”. “Infelizmente nos hospitais portugueses isso não existe, só em casos muito pontuais”, garante Américo.
Foi por causa do parto humanizado ainda não ser uma prática comum em Portugal, que a brasileira Walesca Nunes, 35 anos, a viver em Portugal há um ano e meio, morria de medo só de pensar no nascimento do seu segundo filho. Acabada de chegar do Brasil, grávida de sete meses, esta engenheira informática começou a acertar todos os pormenores para o grande dia. Primeiro, tentou o sistema público. “Fui a um centro de saúde onde tudo me pareceu muito impessoal”, relata. Juntamente com o marido, Demitri, 35 anos, decidiu arriscar o serviço privado. A experiência não foi mais animadora. “Foi um problema arranjar um médico que me atendesse devido ao estado avançado da gravidez. Depois, quando finalmente arranjei um, este não me respondia a nenhuma das questões relacionadas com o parto. Dizia sempre ‘depois logo se vê’”, recorda a brasileira, indignada.
Tempos depois, já em desespero, o casal encontrou uma nova esperança: “Através de um site da Internet descobrimos que existem doulas (acompanhantes de grávidas) em Portugal. Liguei para uma, expliquei a minha situação, fartei-me de chorar, e ela falou-me da possibilidade de ter um parto domiciliar”. Inicialmente, a ideia pareceu-lhes estranha. “Claro que tive algum receio até porque o meu primeiro filho nasceu de cesariana mas o meu medo maior era ter o Enzo no Hospital”, afirma Walesca. Mas decidiram avançar. Ao lado do marido, da parteira e de uma doula, Walesca trouxe Enzo ao mundo. E uma hora depois estava como nova, a tomar um chá na sala. Hoje, o casal só tem pena de não se ter informado sobre o parto humanizado há mais tempo. “Percebi que era um ignorante e rendi-me às evidências”, diz Demitri. Definitivamente o parto humanizado encheu-lhe as medidas.
MUNDO
O CASO HOLANDÊS
Em muitos países desenvolvidos tem vindo a aumentar o interesse em dar à luz em casa, é o caso dos EUA, Inglaterra, Austrália, França e Japão. Na Holanda, por exemplo, segundo dados da organização Mundial de Saúde, 40 por cento dos nascimentos ocorrem no domicílio. O parto em casa é comum e qualquer mulher que não apresente sinais de alguma anormalidade durante o período pré-natal pode ter o seu bebé no próprio lar. Curiosamente, a Holanda é também dos países da Europa com uma das menores taxas de mortalidade infantil.
PRINCIPAIS MOTIVOS
RAZÕES QUE LEVAM AO PARTO DOMICILIAR
- Evitar drogas, anestesias e intervenções.
- Fugir ao atendimento massificado e pouco personalizado das maternidades.
- Fugir ao ambiente hostil dos hospitais.
- Evitar passar por experiências hospitalares anteriores próprias ou alheias.
- Desfrutar de um ambiente tranquilo, sem luzes ofuscantes, cheiros estranhos.
- Estar apenas ao lado de pessoas com quem se tem uma ligação afectiva.
- Possibilidade de ficar com o bebé logo após o seu nascimento, senti-lo, cheirá-lo...
- Fazer questão da presença e participação do marido.
- O parto não é uma doença, um fenómeno fisiológico.
- Liberdade de expressão, de movimentos.
- Deixar acontecer.
CONSELHOS
CONDIÇÕES PARA TER UM FILHO EM CASA
- Tomar uma decisão esclarecida e responsável.
- Crescimento uterino normal (bebé nem muito grande, nem muito pequeno).
- Pressão arterial normal.
- Apresentação cefálica (bebé virado de cabeça).
- Gestação a termo (entre 37 e 41 semanas).
- Nunca ter tido uma cesariana (relativo).
Fonte: Correio da Manhã - Revista Domingo de 05 de Janeiro de 2006
Jornalista: Janete Frazão