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BIOÉTICA - Os ginecologistas espanhois «atrevem-se» a criticar
os excessos da indústria
- 06 de Maio de 2006

As suas denúncias não são uma novidade, mas pela primeira vez uma sociedade científica reconhece oficialmente a influência das companhias farmacêuticas e de tecnologia sobre os médicos

A Sociedade Espanhola de Ginecologia y Obstetrícia (SEGO) apresentou esta semana as conclusões do estudo que durante um ano realizou um grupo de peritos da sua comissão de Bioética a respeito da relação entre os seus associados (perto de 5.000 profissionais) e a indústria do medicamento e de produtos sanitários. Os resultados foram os esperados: a influência das companhias se faz sentir sobre a informação e a formação que recebe o médico que, em muitas ocasiões, responde a interesses económicos mais do que os  da ciência e o doente. «A formação médica continuada está pervertida», assinalou a SEGO no seu relatório.

Esta organização confirma factos amplamente conhecidos no sector da saúde. A indústria é a principal fonte de financiamento da investigação científica para além de ser o primeiro provedor da formação que o médico precisa para manter a sua competência profissional. O problema é que ambas actividades são usadas frequentemente como elementos de marketing para posicionar vantajosamente um fármaco ou um dispositivo.

LIMITES

Os profissionais não são sempre capazes de distinguir o 'pó da palha' e podem «assumir resultados que, na realidade, poderiam ser discutíveis do ponto de vista beneficio-risco-fracasso» e baseiam a escolha de um medicamento ou produto na informação que lhe proporcionam as empresas privadas, explica a SEGO.

Estas considerações não constituem nenhuma surpresa. De facto, a própria organização reconhece que os códigos de autocontrole que se impôs a si própria a indústria farmacêutica (Farmaindustria, em vigor há dois anos) e a de produtos sanitários (Fenin, redigido mas ainda não posto em prática) nas suas relações com os profissionais confirmam a necessidade que existia de por ordem e impor limites aos contactos nem sempre transparentes.

O verdadeiro mérito dos ginecologistas reside no facto de se tratar de um dos primeros colectivos profissionais que decidiu dizer em voz alta o que todos sabiam e reconheciam em privado mas oficialmente calavam. «É um documento polémico e em certa forma até atrevido», assinalou José Zamarriego, presidente da comissão de Bioética da SEGO, durante a apresentação.

«Não queremos fugir da realidade, há que por as coisas na mesa. A relação entre o médico e a indústria deve continuar, mas de acordo com os cânones da boa conduta de ambas partes», defendeu Luis Cabero, principal responsável do relatório.

Este relatório não visa apenas as empresas farmacêuticas e de tecnologia sanitária. Também se refere as administrações da saúde por deixar em mãos destas a formação dos seus empregados médicos. Para a SEGO, deveriam ser as sociedades científicas as responsáveis pelo desenho destas actividades formativas recebendo financiamento das instituições da saúde.

Igualmente, lamenta a escassa actividade das agentes de controlo governamentais, que em raras ocasiões assumem a responsabilidade de verificar se as conclusões que oferece a indústria estão de acordo com os resultados da investigação. E faz uma chamada de atenção aos comités que aprovam os estudos com estes produtos, aos próprios investigadores, às sociedades científicas, etc., para que «se cumpram os preceitos da transparência» na informação médica. Não esquece também o profissional, ao que lembra o dever de «medir os seus próprios limites no campo do marketing».

É viável a imprensa médica sem anúncios dos laboratórios?

Para os autores dum artigo publicado no 'PLoS Medicine', a resposta é sim. Defendem ainda que as revistas não aceitem a publicidade das empresas farmacêuticas e de productos da saúde, porque só assim estarão livres da sua influência. Doutra forma, dizem, «implicitamente participam na promoção dos produtos» e «comprometem a sua objectividade». Essa opinião deriva da análise das políticas publicitárias de nove das principais publicações médicas internacionais, entre elas o 'New England', 'JAMA', 'The Lancet'... Porquê aceitam unicamente anúncios de laboratórios e não de automóveis ou computadores, produtos também interessantes para os profissionais?, perguntam os autores. A razão não está nos anunciantes: o preço desta publicidade é muito inferior à das revistas de consumo geral. O 'segredo' radica na rentabilidade desta relação: os meios e as organizações que os editam recebem da indústria muito mais do que, por exemplo, recebem dos seus subscritores. Inclusive, boa parte destes são financiados por ela.

Isabel Perancho
El Mundo (Diário Espanhol)
artigo original


Tradução - Américo Torres - HumPar 

Nota da Direcção da HumPar (2006):

Apesar de se tratar de factos que sucederam na vizinha Espanha, a HumPar elogia a atitude da SEGO que demonstrou coragem para colocar no relatório tais conclusões.  A HumPar acredita que um estudo semelhante seria desejável também em Portugal e porque não, a ser elaborado por uma comissão de ética do Colégio de Obstetras e Ginecologistas ou pela própria Ordem dos Médicos de Portugal.