O Nascimento do Simão
9 de Dezembro de 2004
O Simão nasceu em casa. Depois de um primeiro parto num hospital particular e de um segundo num hospital público, decidí que os meus próximos filhos nasceriam em casa.
Antes da gravidez do Simão, soube pela minha irmã da existência da D. Glória, a enfermeira parteira que mais tarde me acompanhou a gravidez e me assistiu no parto do Simão. A D. Glória tinha feito o parto em casa da professora de yoga da minha irmã e tinha corrido muito bem, a família estava muito satisfeita com a sua decisão.
Fiquei felicíssima com a notícia, durante a gravidez da Carolina, a minha segunda filha, tinha tentado encontrar uma parteira que me fizesse o parto em casa, mas sem sucesso. Aliás, a ideia geral era de que o parto em casa era ilegal.
Os primeiros seis meses da gravidez da Carolina foram passados na Austrália, onde ela teria nascido num `Birth Centre', uma casa colada à maternidade do hospital de Perth, com alguns quartos acolhedores onde o casal se podia instalar desde o trabalho de parto até ao dia seguinte ao nascimento. Não havia qualquer instrumento médico (à excepção de oxigénio que estava discretamente instalado num armário ao lado da cama de casal), e os partos eram assistidos apenas por enfermeiras-parteiras, ali não haviam médicos. Caso fosse necessário um médico, a mãe era imediatamente encaminhada para a maternidade ao lado. Aos seis meses voltámos para Portugal e foi em vão que tentei encontrar uma parteira que fizesse partos em casa.
E agora a minha irmã dava-me esta notícia fabulosa, afinal os bebés sempre podem nascer em casa! O meu marido, o André, ficou igualmente entusiasmado com a ideia e fui falar com a D. Glória. Combinámos por telefone que ela me veria pela primeira vez aos cinco meses de gravidez. Depois disso viu-me mais algumas vezes, observava-me a mim e ao bebé, via as análises, as ecografias e conversávamos sobre a gravidez e o parto iminente.
Nas visitas que lhe fazia, foi-me contando histórias sobre os seus partos em casa, contava-me que tinha muitas mães macrobióticas, outras do yoga, algumas que levavam consigo umas mulheres que as apoiavam durante o parto, as doulas, contava-me como gostava do momento em que logo após o nascimento punha o bebé na banheira cheia com água morna, para atenuar o choque da transição do útero para o mundo, e tantas outras coisas. E observava-me, sempre, com muita atenção, mesmo quando eu não falava, como se procurasse sinais da minha personalidade, da minha força ou ausência dela, de como eu me iria portar no dia do parto. Talvez porque o parto é tão psicológico. Se a mãe estiver confiante e positiva, o mais provável é que tudo corra muito bem.
Aos seis meses o Simão ainda estava de pés e a D. Glória ficou ligeiramente preocupada. Disse-me que não faria um parto de pés em casa, era um risco grande. Saí um pouco triste desta consulta, achava que ainda era cedo para o bebé virar e que a preocupação da D. Glória parecia mostrar que ela ainda não confiava inteiramente em mim. Tive uma conversa com o Simão e nos dias seguintes fui-lhe explicando como era importante ele virar-se de cabecinha para baixo.
E ele foi camarada e virou!
Entretanto, a família e os amigos de nada sabiam. Para além da minha irmã mais nova, ninguém sabia que o Simão ia nascer em casa. A quem me perguntava onde o Simão ia nascer eu respondia descaradamente no Hospital S. Francisco de Xavier, como a Carolina. Custava-me mentir, mas tínhamos decidido que era melhor assim.
Sentíamos uma grande responsabilidade pelo facto de o Simão ir nascer em casa. Sentíamos que tudo tinha que correr bem, que tínhamos que estar no nosso melhor, física e emocionalmente. Sabíamos que se contássemos que o Simão ia nascer em casa iríamos ouvir uma chuva de críticas da família e dos amigos e que isso poderia abalar a nossa determinação. Não que fossemos mudar de ideias, mas não queríamos ser invadidos pelo negativismo ou pelo receio de que algo pudesse correr mal.
Mas o stress estava lá. Mais do que nos outros dois partos. Por muito que eu estivesse segura de que tudo ia correr bem (a gravidez estava a correr normalmente, eu e o Simão estávamos óptimos, o André determinado a participar e ajudar o mais que pudesse no parto), sentia a responsabilidade de ter tomado uma decisão tão invulgar e, mais que tudo, sentia a necessidade de partilhar esta decisão com as outras pessoas e não o podia fazer.
Para aliviar o fardo de guardar o segredo só para nós, a mana caçula descaiu-se… e os meus outros irmãos souberam (já não me lembro ao certo se todos os oito), mas foram impecáveis, acharam uma ideia um bocado maluca, mas como na nossa família os partos têm sido sempre rápidos e relativamente fáceis, acho que ninguém se preocupou muito.
Nesta altura também contei à Maria, a minha filha mais velha, de 17 anos, que achou muito bem e à minha mãe que achou óptima ideia, mãe de nove filhos com nove partos descomplicados, alguns dos quais (os primeiros) em casa, achou que eu fazia lindamente, que o lugar dos bebés nascerem é em casa. E fi-la prometer que não contava nada a ninguém.
Mas fora esta tensão de quem vai fazer algo de incomum, de quem vai explorar o desconhecido contra a vontade geral, tinha uma maravilhosa sensação de intimidade com o meu bebé que estava para nascer, com o meu marido, com os meus dois outros filhos. Uma sensação de bem-estar, de calma, de família. O meu bebé ia nascer na minha casa, o meu marido ia lá estar para me apoiar e partilhar este momento único e os meus filhos iam ver o seu irmãozinho ainda coberto daquela gelatina acinzentada e ouvir o seu primeiro choro. Assim, sem médicos, sem regras, sem batas, sem nada, só com a força da natureza que tudo pode e o amor e união da família que tudo conseguem.
No fim da gravidez fui ver a D. Glória pela última vez com as ecografias do terceiro trimestre que indicavam um bebé no percentil cinquenta. A D. Glória apalpou-me a barriga e disse `que estranho, só os bebés grandes é que fazem isto…' ao que eu respondi que não se preocupasse, que as ecografias mostravam um bebé médio. Como sempre, disse-me que lhe telefonasse sempre que precisasse, se sentisse muitas contracções, se me parecesse que rebentava a bolsa de águas, …
O Simão estava previsto para o dia 9 de Dezembro. Na tarde do dia 8 estava com bastantes contracções não dolorosas, com intervalos de 30 minutos, depois 20, depois 15, depois voltava a 20, 30. Durante a gravidez tenho sempre muitas contracções fortes não dolorosas (começam logo no quarto mês, embora mais suaves) e no último mês é frequente ter contracções com intervalos inferiores a 30 minutos. As contracções que sentia naquela tarde ainda não me pareciam suficientemente regulares para já ser trabalho de parto, mas algo me dizia que estava próxima a hora. Fiquei sentada na sala a ler e a anotar os intervalos das contracções durante a tarde. À noite, depois do jantar, as contracções continuavam ainda com intervalos irregulares e fui-me deitar.
Às quatro e meia da manhã acordei com uma contracção bem forte. Acordei o André e fomos telefonar à D. Glória que me disse para ir descansar um bocado e telefonar-lhe se tivesse contracções mais fortes... nunca fiquei tão desorientada na vida, eu sabia que o bebé estava para nascer e não tinha conseguido explicá-lo à minha parteira! Já não me lembro o que lhe disse ao telefone, mas acho que devo apenas ter dito que tinha tido contracções fortes durante o dia e que tinha acordado com uma contracção mais forte. Tinha a expectativa de que a D. Glória me iria acompanhar calmamente durante o trabalho de parto e agora nada disso estava acontecer. Tinha deixado o trabalho de parto avançar durante o sono, o Simão já estava a caminho, a D. Glória não estava ali e eu não sabia o que fazer!
Os meus partos foram todos assim. As contracções só são diferentes das contracções da gravidez quando entro na fase de transição, que dura entre 30 minutos a uma hora. Aí já são dolorosas embora de forma suportável e tenho que respirar de forma controlada durante a contracção para aliviar. E depois vêm as contracções da fase de expulsão, poderosas, tenho mesmo que fazer força senão dói a sério.
Tomei uma decisão e disse ao André ' temos que ir ao hospital, alguém tem que me ver ' e saímos. Entre contracções (já na fase de transição), comecei a avistar os contornos do hospital, caía uma chuva miudinha que desfocava as luzes amareladas projectadas através das janelas, comecei a imaginar as batas, as agulhas, o soro agarrado ao meu braço… peguei no telemóvel e disse ao André `vou dar mais uma oportunidade à D. Glória' e telefonei-lhe, `está?, D. Glória?, olhe que este bebé vai nascer agora!', ouvi do outro lado a respiração apressada e urgente `espere, eu vou já para aí!'. De sorriso estampado na cara e o alívio colado à minha voz disse ao André `vamos para casa, este bebé vai nascer em casa!'.
Com tudo isto, já eram quase seis horas da manhã quando chegámos e pouco depois chegou a D. Glória. Eu já estava um bocado aflita porque já tinha vontade de fazer força. Foi só o tempo da D. Glória calçar as luvas e pôr a bata e fazer mais umas coisas em que não reparei. Fiz toda a força que consegui três vezes seguidas e ouvi um `tunc' abafado, o som do corpinho do Simão a cair no colchão. O André estava ao meu lado, aliviado, orgulhoso e feliz. E o Simão ensaiou o seu primeiro choro. No quarto ao lado, a Maria e a Carolina ouviram e não tardaram, as duas cabecinhas a espreitar pela porta entreaberta. Nunca hei-de esquecer a imagem daquelas duas cabecinhas curiosas, do André e do pequeno Simão, ali todos juntos. A nossa família.
Depois de lhe pegarmos por alguns momentos, a D. Glória levou o Simão para a banheira grande que a Maria encheu e o pai filmou o seu primeiro banho, com as manas a assistirem. Esteve sempre muito calmo durante o banho, aliás, além do choro breve e forte logo após o nascimento, não chorou mais. Pusémo-lo logo ao peito e não tardou a mamar que nem um bebé profissional. Não ficámos a saber o seu peso ao certo, a balança da D. Glória estava avariada e o seu braço experimentado estimou o peso em três quilos e meio pelo menos. Era um bebé grande, nunca tinha visto um recém-nascido tão grande! Até a placenta era gigante!
A seguir vieram as malvadas dores tortas. Não sabia que podiam ser tão fortes. O André foi para a sala brincar com a Carolina e a Maria, depois de tirar algumas fotos com a máquina digital para mostrar aos amigos, foi para a escola. A D. Glória ficou comigo até as dores passarem e foi-me carregando com força no útero para que ele voltasse ao normal rapidamente. Quando já estava um pouco melhor, a D. Glória disse-me que estava impressionada, tinha visto muito poucos casos em que a mãe sofresse tanto com as dores tortas e via-se que estava preocupada. Eu tinha um frio incontrolável que não passava com nada e tremia sem parar. Quando a dor passava, o frio acalmava um pouco, para recomeçar tudo de novo daí a pouco. Estive assim pelo menos uma hora e depois acalmou, sentia alguma dor quando dava de mamar, mas mais fácil de suportar.
Finalmente chegou a hora de nos despedirmos da D. Glória. Depois de ficarmos sós, olhei em volta e apercebi-me da confusão que reinava no nosso quarto. Este parto não tinha sido como eu tinha imaginado. Foi tudo tão a correr… mas estávamos felizes e o Simão mamava tranquilamente na sua primeira manhã de vida. Suspirámos de cansaço, de alívio e de felicidade.
(relatos dos partos das minhas irmãs Carolina e Maria)
Sofía Vaz Pinto
Caxias - Portugal
(topo)
9 de Dezembro de 2004
O Simão nasceu em casa. Depois de um primeiro parto num hospital particular e de um segundo num hospital público, decidí que os meus próximos filhos nasceriam em casa.
Antes da gravidez do Simão, soube pela minha irmã da existência da D. Glória, a enfermeira parteira que mais tarde me acompanhou a gravidez e me assistiu no parto do Simão. A D. Glória tinha feito o parto em casa da professora de yoga da minha irmã e tinha corrido muito bem, a família estava muito satisfeita com a sua decisão.
Fiquei felicíssima com a notícia, durante a gravidez da Carolina, a minha segunda filha, tinha tentado encontrar uma parteira que me fizesse o parto em casa, mas sem sucesso. Aliás, a ideia geral era de que o parto em casa era ilegal.
Os primeiros seis meses da gravidez da Carolina foram passados na Austrália, onde ela teria nascido num `Birth Centre', uma casa colada à maternidade do hospital de Perth, com alguns quartos acolhedores onde o casal se podia instalar desde o trabalho de parto até ao dia seguinte ao nascimento. Não havia qualquer instrumento médico (à excepção de oxigénio que estava discretamente instalado num armário ao lado da cama de casal), e os partos eram assistidos apenas por enfermeiras-parteiras, ali não haviam médicos. Caso fosse necessário um médico, a mãe era imediatamente encaminhada para a maternidade ao lado. Aos seis meses voltámos para Portugal e foi em vão que tentei encontrar uma parteira que fizesse partos em casa.
E agora a minha irmã dava-me esta notícia fabulosa, afinal os bebés sempre podem nascer em casa! O meu marido, o André, ficou igualmente entusiasmado com a ideia e fui falar com a D. Glória. Combinámos por telefone que ela me veria pela primeira vez aos cinco meses de gravidez. Depois disso viu-me mais algumas vezes, observava-me a mim e ao bebé, via as análises, as ecografias e conversávamos sobre a gravidez e o parto iminente.
Nas visitas que lhe fazia, foi-me contando histórias sobre os seus partos em casa, contava-me que tinha muitas mães macrobióticas, outras do yoga, algumas que levavam consigo umas mulheres que as apoiavam durante o parto, as doulas, contava-me como gostava do momento em que logo após o nascimento punha o bebé na banheira cheia com água morna, para atenuar o choque da transição do útero para o mundo, e tantas outras coisas. E observava-me, sempre, com muita atenção, mesmo quando eu não falava, como se procurasse sinais da minha personalidade, da minha força ou ausência dela, de como eu me iria portar no dia do parto. Talvez porque o parto é tão psicológico. Se a mãe estiver confiante e positiva, o mais provável é que tudo corra muito bem.
Aos seis meses o Simão ainda estava de pés e a D. Glória ficou ligeiramente preocupada. Disse-me que não faria um parto de pés em casa, era um risco grande. Saí um pouco triste desta consulta, achava que ainda era cedo para o bebé virar e que a preocupação da D. Glória parecia mostrar que ela ainda não confiava inteiramente em mim. Tive uma conversa com o Simão e nos dias seguintes fui-lhe explicando como era importante ele virar-se de cabecinha para baixo.
E ele foi camarada e virou!
Entretanto, a família e os amigos de nada sabiam. Para além da minha irmã mais nova, ninguém sabia que o Simão ia nascer em casa. A quem me perguntava onde o Simão ia nascer eu respondia descaradamente no Hospital S. Francisco de Xavier, como a Carolina. Custava-me mentir, mas tínhamos decidido que era melhor assim.
Sentíamos uma grande responsabilidade pelo facto de o Simão ir nascer em casa. Sentíamos que tudo tinha que correr bem, que tínhamos que estar no nosso melhor, física e emocionalmente. Sabíamos que se contássemos que o Simão ia nascer em casa iríamos ouvir uma chuva de críticas da família e dos amigos e que isso poderia abalar a nossa determinação. Não que fossemos mudar de ideias, mas não queríamos ser invadidos pelo negativismo ou pelo receio de que algo pudesse correr mal.
Mas o stress estava lá. Mais do que nos outros dois partos. Por muito que eu estivesse segura de que tudo ia correr bem (a gravidez estava a correr normalmente, eu e o Simão estávamos óptimos, o André determinado a participar e ajudar o mais que pudesse no parto), sentia a responsabilidade de ter tomado uma decisão tão invulgar e, mais que tudo, sentia a necessidade de partilhar esta decisão com as outras pessoas e não o podia fazer.
Para aliviar o fardo de guardar o segredo só para nós, a mana caçula descaiu-se… e os meus outros irmãos souberam (já não me lembro ao certo se todos os oito), mas foram impecáveis, acharam uma ideia um bocado maluca, mas como na nossa família os partos têm sido sempre rápidos e relativamente fáceis, acho que ninguém se preocupou muito.
Nesta altura também contei à Maria, a minha filha mais velha, de 17 anos, que achou muito bem e à minha mãe que achou óptima ideia, mãe de nove filhos com nove partos descomplicados, alguns dos quais (os primeiros) em casa, achou que eu fazia lindamente, que o lugar dos bebés nascerem é em casa. E fi-la prometer que não contava nada a ninguém.
Mas fora esta tensão de quem vai fazer algo de incomum, de quem vai explorar o desconhecido contra a vontade geral, tinha uma maravilhosa sensação de intimidade com o meu bebé que estava para nascer, com o meu marido, com os meus dois outros filhos. Uma sensação de bem-estar, de calma, de família. O meu bebé ia nascer na minha casa, o meu marido ia lá estar para me apoiar e partilhar este momento único e os meus filhos iam ver o seu irmãozinho ainda coberto daquela gelatina acinzentada e ouvir o seu primeiro choro. Assim, sem médicos, sem regras, sem batas, sem nada, só com a força da natureza que tudo pode e o amor e união da família que tudo conseguem.
No fim da gravidez fui ver a D. Glória pela última vez com as ecografias do terceiro trimestre que indicavam um bebé no percentil cinquenta. A D. Glória apalpou-me a barriga e disse `que estranho, só os bebés grandes é que fazem isto…' ao que eu respondi que não se preocupasse, que as ecografias mostravam um bebé médio. Como sempre, disse-me que lhe telefonasse sempre que precisasse, se sentisse muitas contracções, se me parecesse que rebentava a bolsa de águas, …
O Simão estava previsto para o dia 9 de Dezembro. Na tarde do dia 8 estava com bastantes contracções não dolorosas, com intervalos de 30 minutos, depois 20, depois 15, depois voltava a 20, 30. Durante a gravidez tenho sempre muitas contracções fortes não dolorosas (começam logo no quarto mês, embora mais suaves) e no último mês é frequente ter contracções com intervalos inferiores a 30 minutos. As contracções que sentia naquela tarde ainda não me pareciam suficientemente regulares para já ser trabalho de parto, mas algo me dizia que estava próxima a hora. Fiquei sentada na sala a ler e a anotar os intervalos das contracções durante a tarde. À noite, depois do jantar, as contracções continuavam ainda com intervalos irregulares e fui-me deitar.
Às quatro e meia da manhã acordei com uma contracção bem forte. Acordei o André e fomos telefonar à D. Glória que me disse para ir descansar um bocado e telefonar-lhe se tivesse contracções mais fortes... nunca fiquei tão desorientada na vida, eu sabia que o bebé estava para nascer e não tinha conseguido explicá-lo à minha parteira! Já não me lembro o que lhe disse ao telefone, mas acho que devo apenas ter dito que tinha tido contracções fortes durante o dia e que tinha acordado com uma contracção mais forte. Tinha a expectativa de que a D. Glória me iria acompanhar calmamente durante o trabalho de parto e agora nada disso estava acontecer. Tinha deixado o trabalho de parto avançar durante o sono, o Simão já estava a caminho, a D. Glória não estava ali e eu não sabia o que fazer!
Os meus partos foram todos assim. As contracções só são diferentes das contracções da gravidez quando entro na fase de transição, que dura entre 30 minutos a uma hora. Aí já são dolorosas embora de forma suportável e tenho que respirar de forma controlada durante a contracção para aliviar. E depois vêm as contracções da fase de expulsão, poderosas, tenho mesmo que fazer força senão dói a sério.
Tomei uma decisão e disse ao André ' temos que ir ao hospital, alguém tem que me ver ' e saímos. Entre contracções (já na fase de transição), comecei a avistar os contornos do hospital, caía uma chuva miudinha que desfocava as luzes amareladas projectadas através das janelas, comecei a imaginar as batas, as agulhas, o soro agarrado ao meu braço… peguei no telemóvel e disse ao André `vou dar mais uma oportunidade à D. Glória' e telefonei-lhe, `está?, D. Glória?, olhe que este bebé vai nascer agora!', ouvi do outro lado a respiração apressada e urgente `espere, eu vou já para aí!'. De sorriso estampado na cara e o alívio colado à minha voz disse ao André `vamos para casa, este bebé vai nascer em casa!'.
Com tudo isto, já eram quase seis horas da manhã quando chegámos e pouco depois chegou a D. Glória. Eu já estava um bocado aflita porque já tinha vontade de fazer força. Foi só o tempo da D. Glória calçar as luvas e pôr a bata e fazer mais umas coisas em que não reparei. Fiz toda a força que consegui três vezes seguidas e ouvi um `tunc' abafado, o som do corpinho do Simão a cair no colchão. O André estava ao meu lado, aliviado, orgulhoso e feliz. E o Simão ensaiou o seu primeiro choro. No quarto ao lado, a Maria e a Carolina ouviram e não tardaram, as duas cabecinhas a espreitar pela porta entreaberta. Nunca hei-de esquecer a imagem daquelas duas cabecinhas curiosas, do André e do pequeno Simão, ali todos juntos. A nossa família.
Depois de lhe pegarmos por alguns momentos, a D. Glória levou o Simão para a banheira grande que a Maria encheu e o pai filmou o seu primeiro banho, com as manas a assistirem. Esteve sempre muito calmo durante o banho, aliás, além do choro breve e forte logo após o nascimento, não chorou mais. Pusémo-lo logo ao peito e não tardou a mamar que nem um bebé profissional. Não ficámos a saber o seu peso ao certo, a balança da D. Glória estava avariada e o seu braço experimentado estimou o peso em três quilos e meio pelo menos. Era um bebé grande, nunca tinha visto um recém-nascido tão grande! Até a placenta era gigante!
A seguir vieram as malvadas dores tortas. Não sabia que podiam ser tão fortes. O André foi para a sala brincar com a Carolina e a Maria, depois de tirar algumas fotos com a máquina digital para mostrar aos amigos, foi para a escola. A D. Glória ficou comigo até as dores passarem e foi-me carregando com força no útero para que ele voltasse ao normal rapidamente. Quando já estava um pouco melhor, a D. Glória disse-me que estava impressionada, tinha visto muito poucos casos em que a mãe sofresse tanto com as dores tortas e via-se que estava preocupada. Eu tinha um frio incontrolável que não passava com nada e tremia sem parar. Quando a dor passava, o frio acalmava um pouco, para recomeçar tudo de novo daí a pouco. Estive assim pelo menos uma hora e depois acalmou, sentia alguma dor quando dava de mamar, mas mais fácil de suportar.
Finalmente chegou a hora de nos despedirmos da D. Glória. Depois de ficarmos sós, olhei em volta e apercebi-me da confusão que reinava no nosso quarto. Este parto não tinha sido como eu tinha imaginado. Foi tudo tão a correr… mas estávamos felizes e o Simão mamava tranquilamente na sua primeira manhã de vida. Suspirámos de cansaço, de alívio e de felicidade.
(relatos dos partos das minhas irmãs Carolina e Maria)
Sofía Vaz Pinto
Caxias - Portugal
(topo)