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Nascimento do Ricardo
 15 de Junho de 2006




 Engravidei do Ricardo em Setembro de 2005. Mais uma vez um bebé desejado e planeado.

A gravidez decorreu normalmente, sem percalços. Sentia-me muito calma. No início, por vezes até me esquecia que estava grávida! Continuei a trabalhar no mesmo serviço, mas como me sentia tão calma, tudo me passava "ao lado" e muito poucas coisas me chateavam! Fiquei novamente de repouso às 30 semanas, pelo mesmo motivo: contracções!

Desta vez, o Ricardo estava cefálico! Comecei a imaginar um parto natural, como sempre desejara! Partilhei o meu desejo com a minha médica. Concordou que poderia ser possível, mas sem grande entusiasmo. Segundo ela, tinha a bacia estreita, seria difícil não acabar em cesariana, mas tentaria a indução e logo se via. Propôs-me uma data para a indução, dia 15 de Junho de 2006, com 39 semanas exactas. Perguntei-lhe se não seria melhor esperar pelas 40 semanas. Disse-me que se o colo fosse favorável, a indução em princípio resultava. E que quanto mais tempo passasse mais o ambiente intra-uterino se degradaria. Achei que era uma vantagem ser ela a fazer-me o parto, por isso concordei com a indução. Assim teria mais hipóteses de ser um parto como eu sonhava!

No dia marcado lá fui para o Hospital São Francisco Xavier, no dia de urgência da médica. Passei pelos mesmos procedimentos da praxe: soro e clister (desta vez um microlax). Levaram-me para um quarto, com o meu marido. Colocaram-me as cintas do C.T.G.. A única coisa que achei mesmo desagradável foi ter que pedir a arrastadeira de 1/2 em 1/2 hora por causa do soro! Mas se ficasse sem soro (houve uma vez que acabou e eu não chamei), sentia-me mal com a hipoglicémia!

Passado um pouco de lá estar, apareceu a minha médica com o que me pareceu, um monte de gente. Mandaram sair o meu marido. Um dos médicos, com um aspecto corpulento e tipo "homem do talho" (mais tarde vim a saber ser o chefe da minha médica), fez-me o toque com gel para a indução nos dedos. Doeu-me tanto, tanto! As lágrimas corriam-me pela cara abaixo! Ele só me dizia para abrir bem as pernas! Tive de me controlar para não lhe dar um pontapé! Sinceramente, senti-me violada! Pode parecer um pouco forte, mas foi o que senti e sinto! Aquele homem horrível, sem me dirigir uma palavra de conforto ou explicação do que estava a fazer, a magoar-me TANTO no meu interior! Junto à cabeça do meu bebé! Nos primeiros meses em que recomecei a ter intimidade com o meu marido, desatava a chorar às vezes, não conseguia deixar de me recordar daquele momento!

Foram-se todos embora! A minha médica também, sem me dirigir a palavra. Acho que nem se apercebeu de como foi perturbador para mim. O meu marido entrou e encontrou-me a chorar. Não tive coragem de lhe contar, tive medo da reacção dele. Mas queria ir-me embora! Quase fugi pela porta fora!

Ele animou-me um pouco. Entrou uma enfermeira muito querida, que me distraiu com a conversa. Fiquei melhor.

Comecei a ter contracções, sem qualquer dor. Toda a gente se admirava de não sentir dor, pois pelos vistos eram intensas. A minha médica entrou e fez-me o toque. Continuava com um dedo de dilatação. Explicou-me que ia fazer um descolamento das membranas do interior do colo do útero, para ver se estimulava o colo. Doeu-me bastante, mas não me perturbou como o toque anterior. Sem querer, rompeu-me a bolsa das águas.

Decidiu iniciar ocitocina em perfusão endovenosa. Comecei a ter contracções a sério, dolorosas, embora suportáveis.

A médica disse-me que se ia embora às 21h. Fui apanhada de surpresa! Pensei que a urgência dela era de 24h! Tinha sido uma das razões para eu aceitar a indução. Mas não perguntei antecipadamente para confirmar, nem ela me disse porque não se lembrou.

As contracções começaram a ser estranhas, com vários picos de intensidade. Chamei uma enfermeira, que realmente achou fora do normal. Fez-me o toque (muito meiga) e, para desilusão minha, continuava com 1 dedo de dilatação! Parou a ocitocina e foi chamar a minha médica.

A minha médica ficou a olhar para o C.T.G. um bocado, as contracções não paravam e eram cada vez mais intensas, de 2 em 2 minutos! Achou que era demais. Pôs-me um comprimido debaixo da língua, para parar as contracções. O ritmo cardíaco do bebé estava um pouco acelerado e comecei a ficar preocupada. Ela voltou com um colega. Conversaram à minha frente e decidiram que o melhor era cesariana, visto que eu não fazia dilatação. Fiquei sem saber o que pensar. Não queria pôr em risco o meu bebé. As membranas estavam rotas, e não podia ficar assim mais do que 12 horas (tinham passado 8h), pois o risco de infecção aumentaria. Por outro lado sentia vontade de continuar, sentia-me bem, com força para aguentar as contracções. Sentia-me tão indecisa, que aceitei a decisão da médica - cesariana!

Fui preparada. Tornaram-me a rapar os pelos (fiquei com um tufo a meio, lindo!) e algaliaram-me. Levaram-me para o bloco operatório e eu despedi-me do meu marido, com muita tristeza de ele não assistir ao nascimento do nosso filho.

Deitei-me na marquesa do bloco e comecei a sentir uma dor intensa. Primeiro pensei que fosse uma contracção, mas nunca mais passava! Depois apercebi-me que a dor irradiava para as costas, do lado esquerdo. Percebi logo o que era - uma cólica renal! Já tinha tido outras anteriormente (antes da gravidez) e foi provavelmente provocado pela algaliação. Era uma dor insuportável, muito pior que as contracções! Mal conseguia respirar, quase caí da marquesa, pois não conseguia estar quieta! Demorou cerca de 5 minutos, com a anestesista e as enfermeiras a olharem para mim, à espera que passasse.

Finalmente, deram-me a epidural. Desta vez não foi preciso tirarem-me as lentes de contacto, pois já tinha feito cirurgia à miopia!

Tive novamente uma quebra de tensão arterial e dificuldade em respirar. Deram-me um medicamento para a tensão subir e fiquei melhor. A anestesista foi uma querida, a falar sempre comigo e a fazer-me festas na cabeça. Ao meu lado estava uma enfermeira que me disse: "já saiu a cabeça!" . A seguir a minha médica disse: "baixem o pano e mostrem o bebé à mãe!". E ei-lo! Com os bracinhos muito abertos, os olhinhos fechados, a chorar muito zangado e ainda um pouco arroxeado. Achei-o LINDO, LINDO!! Levaram-no para uma marquesa a 2 metros de mim, onde podia vê-lo perfeitamente. Limparam-no, vestiram-no, etc. O pediatra veio-me dar os parabéns e dizer que ele era perfeito. A enfermeira trouxe-o para junto da minha cabeça. Desta vez, não tinha os braços presos, pude tocar-lhe, beijá-lo, sentir o cheiro dele! Reconheci-o imediatamente! Meu querido filho! Depois colocaram-no novamente na marquesa, para não arrefecer, mas pude vê-lo o tempo todo.

A cesariana acabou e levaram-me para o recobro. Dei-lhe de mamar, achei-o tão lindo, tão perfeito, senti-me plena, realizada! Não senti a mínima sensação de perda!

O meu marido entrou e emocionou-se! Achou-o tão parecido com ele próprio. E tem razão! É a cara do pai!

Quando a emoção do parto e pós-parto imediato se desvaneceu, pude reflectir na minha 2ª cesariana. Senti-me triste por não ter sido um parto vaginal. Senti-me enganada, pelo meu corpo, pelos médicos, até pelo meu filho... perdi a oportunidade de ter o parto natural que sempre quisera! De vez em quando sinto um impulso de voltar atrás, mudar as minhas opções, tentar mais um bocado... mas não posso! E sinto uma tristeza sem fim! Feliz, com o meu filho nos braços, mas triste por não ter tido a experiência de mulher, de mãe, que era minha de direito!

Sara Adegas
Oeiras - Portugal
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