Humpar

 
O Nascimento do Miguel
15 de Fevereiro de 2005




O antes

Há já algum tempo que tinha vindo a sentir umas contracções que apesar de dolorosas, eram irregulares e acabavam por desaparecer. Porém, na noite de 10 para 11 de Fevereiro não dormi nada com contracções dolorosas e de intervalos de 15 minutos. Estiveram assim até ao meio dia. Depois, desapareceram. Esse fim-de-semana foi calminho. Fui passear para a praia apanhar sol com os meus amores. As contracções vinham e iam. Na noite de 13 para 14 de Fevereiro voltei a não dormir. As contracções estavam cada vez mais fortes e com intervalo de 10 minutos. Desapareceram ao meio dia do dia 14 Fevereiro. De tarde, fui dar um passeio com a Bi e as contracções voltaram. Por volta das 17.30 tinham uma regularidade de 20 minutos. Continuei a fazer a minha vida normal, fiz o jantar, comi pouco. Depois, do jantar sentei-me no sofá a ver um filme e as contracções já estavam de 10 em 10 minutos. As contracções do parto da Bi (Beatriz) também começaram quando estava a ver um filme em DVD J Fui-me deitar, mas não adormeci. As contracções estavam muito fortes. Deixei-me estar a descansar até às duas da manhã. Depois, levantei-me.

O durante

A partir das duas da manhã andei a passear pela casa, com a luz muito fraquinha, a cantar músicas de Tom Jobim e Caetano Veloso ( as músicos favoritos do Miguel), sentei-me na cadeira de baloiço. Durante estas contracções sentia-me mais confortável de joelhos no chão e apoiada na cama. Também achei confortável o apoiar-me às paredes enquanto respirava fundo. Sentia-me tranquila e sobretudo muito feliz! O Miguel estava finalmente a nascer e já não haviam dúvidas disso! Nessas horas sentia-me unida à Terra e a todas as mulheres/mães do Mundo.


Às cinco da manhã fui fazer um chá de canela para acompanhar umas bolachas. Bebi um pouco de chá e comi uma bolacha. Passados 15 minutos vomitei o chá e a bolacha. Às seis da manhã o Jorge acorda e fica a conometrar as contracções que estão num intervalo de 7 minutos. Às seis e meia telefono à doula Luisa para saber se me podia meter na banheira e ela sempre com a sua voz tranquila e meiga deixou-me o coração quentinho. Logo de seguida, telefono à doula Cristina para ela vir assistir-me. O Jorge preparou-me o banho com uma dedicação, amor e disponibilidade que me comoveram. O banho acalmou-me imenso e as contracções abrandaram. Cheguei mesmo a dormitar entre as contracções. Quando saí da banheira, as contracções voltaram em força, seguidas e muito dolorosas. Concentrei-me no olhar do Jorge e na nossa respiração conjunta.

A Cristina chegou logo a seguir e encontrou-me cansada pela noite passada em claro e os dois um pouco ansiosos porque tinhamos passado 15 minutos de contracções seguidas e muito dolorosas. A partir daqui, as contracções forma ficando cada vez mais regulares e cada vez mais intensas. A doula Cristina fez-me durante todo o trabalho de parto umas massagens nas pernas milagrosas. E em cada contracção respirava profundamente comigo. Rapidamente, a Cristina tornou-se o pilar da calma e da serenidade da casa. Fui-me deitar na cama porque sentia-me mais calma no meu quarto e estava resguardada do resto das energias da casa. A doula deu-me confiança no processo, no meu corpo e em mim. Senti-me acompanhada e com confiança de que tudo ia correr bem.
 
Por volta das duas da tarde, soube que o António tinha possibilidade de vir assistir ao parto. O Jorge foi levar a Bi a casa de uma amiga porque se sentia que a Bi estava a ficar ansiosa com o ambiente que se vivia. Depois, desesperei, perdi a força, estava cansada e o parto estava a demorar mais do que eu esperava. Com a juda da Cristina e com força que vinha cá de dentro recuperei a confiança. Sempre acreditei que os Anjos estariam comigo neste momento. E realmente senti a presença neles durante todo o trabalho de parto. Durante algumas contracções concentrei-me na forma de uma espada que se desenhava na cortina do meu quarto. Essa espada foi sempre o simbolo que eu usei durante a gravidez para comunicar com o Miguel porque é o simbolo do Arcanjo Miguel e do guerreiro silencioso que é o nosso menino. Essa forma inspirou-me e deu-me uma confiança redobrada. As horas dessa tarde passaram, o tempo não era para ali chamado e não me apercebi da sua passagem. Sei que andei a passear pelo quarto e quando as contracções apertavam punha-me de cócaras apoiada na comoda da roupa do Miguel. A Cristina encorajava-me com palavras ditas baixinho, em tom de susurro.


O Jorge esteve sempre presente, de coração aberto e nem sequer se importava quando o expulsava do quarto ou dizia palavras mais ásperas. Foram os meus farois, os meus guias e foram nos olhos deles que eu ia buscar a confiança de que tudo ia correr bem.

Por volta das 6:30 da tarde a Cristian sugere que eu vá tomar um banho. Eu aceitei. Passados 5 minutos de estar lá dentro as contracções ficaram bastante mais fortes e começaram a ser quase seguidas. A bolsa de águas rompeu e isso deixou-me tão feliz. Tudo estava a correr bem. Passados uns minutos senti uma vontade enorme de fazer força. A doula Cristina disse que era aqui que eu devia decidir ir para o hospital ou não. Decidi que tinha passado “o pior” em casa e que era em casa que iria ter o Miguel. O Jorge foi esterilizar a tesoura e os cordões para o cordão. Mas, o Miguel não entendeu assim. Hoje, compreendo porquê! Apesar de ter muita vontade de fazer força, o Miguel não descia, eu sentia os pés dele em cima. As contracções estavam insuportáveis. Durante as contracções dizia para mim mesma “Eu sou mãe!” ou “Esta dor não é mais forte do que eu!”. Foram minutos e minutos cheios de dores e o Miguel que não descia. Perdi novamente as forças, a coragem, a confiança! A doula Luisa telefonou e sempre com a sua voz tranquila e amiga sugeriu aquilo que para mim se apresentava como inevitável: ir para o hospital. E assim fui. Chamamos o 112 e logo de seguida apareceu a ambulancia com um bombeiro muito simpático e carinhoso. Foi toda a viagem a dar-me a mão e a fazer-me festas no cabelo. Senti-me novamente mais calma. À chegada ao hospital, O Jorge já la estava. Senti-o ansioso e nervoso. Era natural. À entrada das urgências fizeram-me o toque e estava com a dilatação completa, viram o batimento cardiaco do Miguel e estava baixo, além disso, a suspeita confirmou-se: o Miguel estava muito alto e não descia.

Despi-me, fizeram uma tricotomia (porém minima) mas achei-a perfeitamente dispensável e apenas a fizeram por rotina hospitalar.
Puseram-me numa cadeira de rodas e levaram-me até à sala de partos. Aí senti que ia ser diferente do parto hospitalar que eu estava à espera. Logo que eu entrei apagaram as luzes, preparam tudo para o parto, alguem perguntou se tinham musica ao que responderam que não. Então, a enfermeira começou a cantar baixinho. Outra enfermeira aproximou-se de mim, chamando-me “Princesa” e dizendo que tudo ia correr bem enquanto me fazia festas no cabelo. A auxiliar deu-me a mão enquanto não deixaram a Cristina entrar. Viram que o Miguel estava muito alto e fizeram uma manobra fora e dentro do útero que eu não sei bem o que foi, mas resultou porque o Miguel coroou. A Cristina entrou e o senti o "anel de fogo". Entretanto tive que deixar de fazer força porque o Miguel estava com uma circular à volta do pescoço. Fizeram-me uma episitomia, mas foi a última alternativa, porque eu ouvi dizer “ Não há alternativa, temos que fazer esta porcaria!” Mais umas contracções e o Miguel nasceu!


Puseram-me em cima de mim e assim ficou durante muito tempo! Quando ouvi o choro dele, comecei a rir-me a chorar, a chorar...foi tanta a emoção depois de tanta espera que só dizia “O meu menino!! É o meu menino” “Olha, Cristina, é o meu menino!” Naquele momento não importava mais nada: o Miguel era tudo para mim!

A Placenta saiu e estiveram a mostrar-me e a explicar como funcionava. Depois coseram-me e a Cristina, doula de alma e coração, sempre de mão dada comigo, sempre do meu lado. Depois, fui para o recobro. E nem preciso de dizer como a minha alma estava renovada, apesar do meu corpo estar cansado e exausto. Nessa noite não dormi nada. Pus o Miguel na minha cama e passei a noite a olhar para ele.


O depois

Segue-se a estadia no hospital que não foi nada positiva. Desde da frieza de algumas enfermeiras até a procedimentos que me revoltaram (como lavar o bebé numa banca com água a correr, como em vez de darem confiança à mulher/mãe para prosseguirem com a amamentação, apresentam-se com um biberão dizendo que o bebé não gosta da mama da mãe, o tratar as mulheres como crianças a quem se precisa de ensinar tudo e ter muita paciência). Depois, de tudo o que apreendi com as doulas e com a humanização do nascimento; depois de ter passado a dilatação toda em casa e só ter ido para o hospital porque o Miguel não descia, todo aquele cenário me pareceu insuportável. Só queria ir para casa, retomar a minha vida com o Jorge, com o Miguel e com a Bi.


Dormirmos na mesma cama como familia que somos e descobrirmos novas formas de nos amarmos. Em vez disso, continuava no hospital. Sentia-me presa. E para piorar, não me deixavam sair. Primeiro, tinha que esperar por um resultado de exame. Chegou. Depois, desconfiaram que o Miguel tinha ictericia, fizeram o teste e deu negativo. Depois, desconfiaram que o coração dele batia muito baixinho e mandaram fazer um ECG, tive que esperar pelo resultado. Estava tudo bem (e para cumulo ainda ontem me mandaram de urgencia ao hospital a uma consulta de cardiologia só para repetir o exame e dizer que estava tudo  bem). E finalmente, desconfiaram novamente de ictericia e fizeram novamente o exame que deu negativo. Dá para compreender? Não imaginam a ansiedade com que fiquei, a revolta que senti porque eu sabia que estava tudo bem com o Miguel. Lembrei-me logo o que as nossas queridas doulas Carla e Luisa disseram sobre o procurar uma patologia. Era mesmo isso que estava a acontecer.

Eu só queria sair dali com a minha familia mas isso era algo que o sistema hospitalar estava completamente alheio. Finalmente, estou em casa sossegada, feliz, ainda a adaptar-me às mudanças e a digerir as lições que apreendi com o nascimento do Miguel.

O que ganhei com o nascimento do Miguel:

- uma maior confiança em mim como mulher e mais consciente do meu poder e das minhas capacidades ( e isso é algo que fica para a vida inteira).

- acredito que o Miguel nasceu no hospital para eu poder ter conhecimento que num hospital como o Amadora/Sintra existe uma equipa que respeita a mulher e que apesar de terem algumas retaliações por parte dos colegas, não desistem de fazer aquilo que sentem que devem fazer. Essa foi a grande surpresa do nosso parto.

- senti na pele o que é ser doula em causa própria e que isso não dispensa a presença de outra doula para nos dar confiança quando a perdemos, para nos dar mimos quando mais precisamos. A presença da doula Cristina foi fundamental para tudo ter corrido bem no parto do Miguel

- o pós-parto está a ser muito menos doloroso do que o pós parto da Bi (Beatriz) e sinto-me cada vez mais viva.

- e acima de tudo; o mais importante: nasceu o meu filho, nasceu um verdadeiro milagre e quando olho para o brilho dos seus olhos sinto bem fundo no meu coração que esse é o meu maior prémio.

Susana Pinho

Sintra - Portugal