O Nascimento do João
Tudo começou pelas 5h da manhã, quando rebentaram as águas, já ía entrar nas 42 semanas...
Liguei para a Zé (doula) e para o António (que iria fazer o parto), mas não consegui falar com eles. Como sabia que a urgência não era assim tão imediata, fiquei calma, mandei mensagem e resolvi esperar (não ía mesmo fazer nada para o hospital!), não tinha contracções regulares, nem dolorosas, embora já tivesse algumas de vez em quando, nos dias anteriores pelo menos... Claro que dormir já era missão impossivel, pois a excitação era bastante! O único receio que tinha era se o bébé estaria bem porque não o sentia mexer e tinha perdido bastante líquido.
O António passou por minha casa antes de ir para o trabalho, perto das 8h, para ver como estava a dilatação... Dois dias antes estava com 1 dedo, quando ele verificou tinha 2! Entretanto já ía tendo algumas contracções de vez em quando, mas ainda nada de especial...
Mais tarde ligou a Zé para saber como as coisas estavam. Eu estava bem disposta, e tal como o António recomendou, fiquei de repouso na cama, pois sempre que me levantava perdia mais líquido... Ia-me entretendo com os livros e a tv. A meio da manhã ligou a Rosa (doula), que estava também de prevenção, caso fosse preciso alguma coisa... Eu continuava bem disposta, as contracções ainda não eram muito regulares, mas andavam entre os 5-10min., ainda não muito fortes, mas aos poucos íam sendo mais intensas.
À hora de almoço, ligou a Zé novamente... Tinha fome, não estava satisfeita só com as bolachinhas que ía comendo entretanto, e como a coisa provavelmente ainda estava para demorar, achei melhor almoçar... Entretanto as contracções já íam sendo mais fortes, com cerca de 5m de intervalo, mas nem sempre regulares...
Por voltas das 16h as dores já começavam a apertar e as contracções já eram menos espaçadas, normalmente menos de 5m...
Depois de falar com o António e a Zé, sabendo que provavelmente ainda era cedo para nos pormos a caminho para a maternidade, aguardei mais um bocado em casa, mas as dores já apertavam e estava a ficar ansiosa, com medo de as dores se tornarem insuportáveis e custar mais fazer a viagem (cerca de 45m, indo com calma), ou de a coisa se dar de repente! Tinha esperanças de já ter alguma dilatação e que já estivesse próximo. Já dizia ao marido que se chegasse lá e me dissessem que só tinha 2 ou 3 dedos me dava um coisa má e se calhar não resistia sem pedir epidural (algo que não queria mesmo)!!!
Por volta das 17h achei que era melhor pormo-nos a caminho, as dores iam-se intensificando, os intervalos eram mais curtos, 3-4m...
Parámos pelo caminho, para fazer tempo, já que não havia grande evolução nos intervalos, embora as dores fossem aumentando sempre um pouco.
Por volta das 18h estavamos ao pé da maternidade... Como ainda estava a aguentar, embora com algum esforço, ainda ficámos no carro bastante tempo... O problema era que tinha mesmo de ir ao wc, acabei por decidir entrar na maternidade por volta das 19h, pensando que provavelmente também já não faltaria muito e não teria de ir para sala de dilatação sozinha (isso é que não queria mesmo!), e daria tempo de o António chegar, mesmo que me dessem ocitocina (eu sabia que era o mais provável, dificilmente escaparia)... Estava a entrar em stress, já calculava o que me esperava, mas não dava para aguentar mais e também não me sentia capaz de ir para outros sítios...
Já mais aliviada e com vontade de ir embora, lá fui fazer a inscrição, na esperança de, pelo menos, já ter bastante dilatação e não ter que levar com ocitocina... Mandaram-me entrar para observação... Eu já ia a medo e ao deparar-me com a pessoa que me esperava, entrei mesmo em stress e fiquei com vontade de fugir a sete pés!!! Nem sei se a mulher era enfermeira, ou auxiliar, ou o diabo! Mandou-me despir as cuecas e deitar na marquesa, fez o toque à bruta e veio de gilette na mão igualmente à bruta... Eu ainda lhe disse que já tinha feito depilação, se não chegava... Ela mal me respondeu que não e “atacou”!!! Senti-me como se tivesse sido violada (força de expressão, claro!)... Obviamente, se já não entrei bem, pior fiquei... A seguir veio outra, suponho que médica, fazer novamente o toque... 3 dedos!!! Eu realmente esperava já ir um pouco mais adiantada!!! Pensei logo que íam mandar-me para a sala de dilatação sozinha, com ocitocina, enfim, já via tudo a andar para trás... Depois de preencherem os papéis, ficarem muito espantadas e mandarem bocas por eu não querer epidural, nem ter tomado o antibiótico (eritromicina – mandaram pôr intravenosa) e ter estado tanto tempo à espera depois de rebentarem as águas (e eu disse que tinha sido por volta das 13-14h!!! “não lhe disseram que era para vir logo?!!!”, ao que respondi que não tinha contracções, por isso esperei mais um bocado!), lá me mandaram para cima... Eu estava convencida que ía para a dilatação e pedi encarecidamente para me deixarem sair e passear com o marido! Claro que não me deixaram e lá me disseram que ía para a sala de partos, diziam que já tinha boas contracções...
Chegada à sala, enquanto me despia, perguntava à médica se me iam dar ocitocina, ela disse que sim... Pedi por favor para não o fazer, que deixasse evoluir naturalmente, já que estava a andar bem, eu sabia que as dores eram muito piores... mas ela não me ligou! Só me disse que punha um bocado e depois logo se via e aproveitou para mandar a boca “você não quer epidural!...”. Depois disse que havia outras alternativas (sedativos)...
Já deitada, com intravenosa e ctg, lá fiquei sozinha, deviam ser cerca de 20h... Não tardou muito, já estava a chamar uma enfermeira porque estava com vómitos (bateu de repente!)!!! Acho que também pedi logo para pararem a ocitocina... Pouco depois chegou o marido... Não vomitei quase nada, já só tinha o sumo (que fui bebendo pelo caminho) no estômago, mas estava mal disposta mesmo... Disse ao marido para pedir novamente para pararem a ocitocina (não me lembro, mas acho que acabaram por reduzir ou parar) e pouco depois pedi também sedativo, porque já não estava a aguentar aquelas contracções, bem dolorosas, todas seguidas!!! Tinha sede e pedi um pouco de água, mas claro, não me deram! Só deram ao marido um algodão molhado para passar na boca, que ele espremeu um bocadinho e eu chupava o máximo que podia.
A partir daqui pouco me lembro... O marido diz que me “apagava” entre as contracções (e que uma vez foi tão forte que até se assustou!) e eu realmente não me lembro de grande coisa! Lembro-me de ele estar lá e me dizer para respirar e ter calma, me dar a mão, de lhe perguntar se o António já tinha chegado, porque estava a ficar com medo que ele não chegasse a tempo! Se o facto de estar ali me assustava, pensar que chegaria a hora e o António poderia não conseguir chegar a tempo, começou a deixar-me mais ansiosa... Mas claro, dali já não saía!!! Acho que já só pensava que se ele não chegasse, mais valia levarem-me logo para cesariana e poupar-nos do sofrimento (a mim e ao bébé)!
Quando finalmente vi o António, foi um alívio, pois tendo-o a meu lado, sabia que tudo correria o melhor possível... Ele viu como as coisas estavam e saiu, dizendo que quando voltasse eu já estaria pronta para “puxar”! Lembro-me de ter ido lá uma enfermeira fazer o toque e dizer que a seguir já ía poder “puxar” (não sei se foi antes de o António ter aparecido a primeira vez ou depois, fiquei um bocado baralhada das ideias! só tenho “flashes” de memória!) e fiquei assustada porque o António não estava na sala... Entretanto devo ter “apagado” de novo e a seguir só me lembro de já estar lá o António e me dizer que já ía começar a “puxar” na próxima contracção...
Comecei a “puxar” deitada de lado... Fiz toda a força que consegui e evacuei (pensava eu que tinha descarregado tudo quando rebentaram as águas!). “Puxei” várias vezes mas não resultou muito e o António mandou-me pôr na posição crítica (supina)... Estava quase (dizia o António... e mostrava ao marido a cabecita!), mas não saía e assim que eu parava de fazer força, recuava... Eu já estava cansada e sem forças... Perdi o controlo, já só gritava, não conseguia pôr-me na posição correcta e canalizar bem a força para onde ela era precisa (como eu já previa, aquela posição realmente só atrapalha!)! O António massajava o períneo, mas sem sucesso. A médica pressionava: “está à espera de quê (para cortar)?!” (eu não apanhei tudo e pensava que me queria mandar para cesariana!!! Naquele momento já não me importava, já não tinha mesmo forças, queria era acabar com aquilo duma vez e que o bébé não sofresse.)... O António “ameaçou-me” que se não fosse na próxima tinha que cortar... E assim foi! Teve mesmo de ser, para não rasgar demais e ter consequências mais graves... Para mim foi o mais traumatizante, aquela dor lancinante ainda me persegue... Eu pensava que no meio de tudo o resto era capaz de passar mais despercebida (até me tinham dito que nem se sentia nada!!! Pois, se calhar quem me disse tinha sido anestesiada...), mas foi mesmo horrivel! Tanto que eu gritei e me retraí na primeira tentativa e teve que ser em duas vezes!!! Mas pronto, finalmente o bébé nasceu e tudo passou...
O António colocou-o no meu colo, fiquei admirada por não ter muito aspecto de recém-nascido!!! Não podia entusiasmar-me com beijos porque estava com herpes, só lhe peguei como pude e olhei para ele, naqueles breves momentos antes de o levarem para os primeiros cuidados...
Entretanto saiu a placenta, lá me apertaram com toda a força para sairem os restos... Enquanto o António dava os pontos eu senti várias vezes a agulha, o que também não foi lá muito agradável, mas claro, o pior já tinha passado (pensavamos nós!) e a felicidade de ver o meu filho cá fora e bem, era o mais importante naquele momento. Tenho que mencionar o cuidado que o António teve em me dar pontos que não precisaram de ser tirados e por os ter dado de tal forma que a cicatriz mal se nota (nunca vi nenhuma, mas pelo que tenho lido, parece que costumam ser horriveis e levam muito mais tempo a sarar...).
Já despachados dos primeiros cuidados pós-parto, o António pegou no bébé e pôs no meu peito... Agarrou-se logo a mamar!!! Despedimo-nos do pai e do António e lá nos levaram para o quarto...
Escusado será dizer que dormir era missão impossível, com tanta emoção... Mas o pior ainda estava para vir!!!
Deram-me analgésico para tomar, mas passei a noite cheia de dores (que pensava serem normais depois de um parto!)... Sendo a primeira vez, não podia ter noção do que se estava a passar, nem nunca ninguém pôs essa hipótese! De manhã bem cedo (acho que na mudança de turno), voltaram a dar-me analgésicos, mas as dores não passaram, pelo contrário, eram cada vez mais fortes... Passado um bocado, voltei a pedir que me dessem mais, porque as dores eram muito fortes! A enfermeira perguntou o que me doía (eu disse que era dos pontos, pois era o que fazia mais sentido!) mas ela disse que não podia dar-me mais, tinha tomado há muito pouco tempo... e lá fiquei eu em sofrimento! As dores eram cada vez mais fortes, parecia que ía rebentar!!! Gemia e transpirava, comecei a sentir-me mesmo mal, tremia toda com suores frios, já estava branca, aquelas dores eram mesmo horriveis (bem piores que as de parto!)... A minha colega de quarto viu que eu estava mesmo aflita e insistiu que devia chamar alguém novamente, eu concordei e ela chamou...
Felizmente, a enfermeira que veio atender a chamada, teve a “brilhante” ideia de querer ver (os pontos... de que eu me queixava!), por achar estranho eu queixar-me tanto... E foi aí que se descobriu que tinha um hematoma enorme, devido a uma veia que rebentou internamente, e afinal tinha razões para me queixar assim! Por ser tão raro acontecer, ninguém se lembrou de tal coisa...
Foi um alvoroço, toda a gente foi ver com ar incrédulo e eu ali a morrer com dores!!! Ainda estive para aí uma hora à espera, até que me levassem para o bloco operatório! Entretanto o António estava a entrar ao serviço e ía ver como estavamos, deparou-se com esta situação e acompanhou-me até ao bloco operatório e lá tentou apressar as coisas... Para mim foi uma eternidade! A sala estava ocupada, ou estavam a prepara-la, e ainda fizeram uma cesariana antes! Eu já gritava, pedia por favor para me ajudarem, ao menos que me dessem logo anestesia... Parecia que ía rebentar a qualquer momento e não via ninguém a fazer nada, a não ser o António que tentava apressar as coisas!!!
Quando finalmente entrei na sala, a médica que ía operar ainda começou a reclamar com o pessoal porque eu ainda estava com a minha camisa: “Tanta pressa e ainda está assim?!”... Eu não sei onde fui buscar forças e, num acesso de raiva, despi-me eu mesma!!! Queria mais era que me dessem a anestesia para não sentir mais nada!!! Lá me espetaram e não sei que mais, perguntaram como me chamava, eu ainda respondi e depois “apaguei”...
Assim que acordei levaram-me de volta para o quarto, com soro e analgésico (acho eu!) atrás. Já estava com outra disposição, claro, nem parecia a mesma! Pudera, aquelas dores foram bem piores que o parto!!! Nunca na vida tive dores assim, cheguei a pensar que “apagava” de vez e ía para o outro lado...
Depois disseram-me que iria fazer transfusão se sangue! Quando a enfermeira veio com o sangue eu, a princípio, não queria, mas depois de falar com a médica e por me sentir muito fraca, acabei por concordar e lá fiquei o dia todo agarrada aos tubos, era uma confusão para me conseguir mexer e cuidar do bébé! Enfim... fiquei toda espetada, foi um dia horrível por causa de toda esta situação!
E depois deste contratempo, que acabou por se resolver bem, dentro do possível, acho que tudo correu dentro do que é normal... Penso que a recuperação poderia ter sido bem mais rápida, se não tivesse acontecido isto, a juntar às malditas hemorróidas, mas pronto... apesar de tudo, embora as 6 semanas de recuperação tenham sido bastante más (fisica e psicologicamente), depois disso, dentro do possível, recuperei melhor e mais rapidamente...
E pronto, é assim que recordo o parto do meu anjo. Digamos que foi aquilo que eu esperava, dentro das minhas limitações, embora sonhasse conseguir escapar da ocitocina e episiotomia também, e até de sedativos... mas pronto, ter conseguido ultrapassar tudo sem epidural, nem cesariana, já foi uma grande vitória (eu que nunca gostei de sofrer e tomava comprimidos por tudo e por nada!)! Por ironia do destino, não escapei da anestesia geral e operação!!! Cheguei a pensar para mim mesma, no rescaldo da situação, que se calhar mais valia ter pedido epidural, se a minha sina era ter de levar anestesia... Mas agora penso que, isso não impediria o que aconteceu e, se o tivesse feito, teria de levar não uma, mas duas anestesias seguidas e isso podia ter tido consequências bem mais graves! Isso para mim é a prova de que o destino está traçado e há coisas de que, por muito que se corra, não se pode fugir! Tinha de ser e pronto, não penso mais nisso...
Concluindo, apesar de concordar que o meio hospitalar realmente não ajuda nada ao parto natural, e de achar que eventualmente o teria conseguido em casa, não me arrependo de ter decidido assim... não estava preparada para que fosse doutra forma! O desfecho faz com que sinta que realmente foi a melhor opção, pois numa situação semelhante, se estivesse em casa, poderia ter sido muito grave a falta de assistência médica pronta a actuar...
Agradeço ao António e a toda a equipa de enfermagem que me acompanhou após o parto, pela paciência, carinho e atenção que tiveram comigo. Agradeço também à Zé, à Luísa, à Rosa e todas as doulas que, de uma ou outra forma, acompanharam e me ajudaram durante a gravidez e no pós-parto. Bem hajam!
Para finalizar, quero apenas dizer que algumas das situações que relato talvez pareçam exageradas, do ponto de vista de outras pessoas, mas é assim que as recordo/sinto e, naturalmente, a sensibilidade/fragilidade de uma mulher em trabalho de parto/acabada de parir é muito maior que em qualquer outra situação.
Rosário Santos
Aveiro - Portugal
Tudo começou pelas 5h da manhã, quando rebentaram as águas, já ía entrar nas 42 semanas...
Liguei para a Zé (doula) e para o António (que iria fazer o parto), mas não consegui falar com eles. Como sabia que a urgência não era assim tão imediata, fiquei calma, mandei mensagem e resolvi esperar (não ía mesmo fazer nada para o hospital!), não tinha contracções regulares, nem dolorosas, embora já tivesse algumas de vez em quando, nos dias anteriores pelo menos... Claro que dormir já era missão impossivel, pois a excitação era bastante! O único receio que tinha era se o bébé estaria bem porque não o sentia mexer e tinha perdido bastante líquido.
O António passou por minha casa antes de ir para o trabalho, perto das 8h, para ver como estava a dilatação... Dois dias antes estava com 1 dedo, quando ele verificou tinha 2! Entretanto já ía tendo algumas contracções de vez em quando, mas ainda nada de especial...
Mais tarde ligou a Zé para saber como as coisas estavam. Eu estava bem disposta, e tal como o António recomendou, fiquei de repouso na cama, pois sempre que me levantava perdia mais líquido... Ia-me entretendo com os livros e a tv. A meio da manhã ligou a Rosa (doula), que estava também de prevenção, caso fosse preciso alguma coisa... Eu continuava bem disposta, as contracções ainda não eram muito regulares, mas andavam entre os 5-10min., ainda não muito fortes, mas aos poucos íam sendo mais intensas.
À hora de almoço, ligou a Zé novamente... Tinha fome, não estava satisfeita só com as bolachinhas que ía comendo entretanto, e como a coisa provavelmente ainda estava para demorar, achei melhor almoçar... Entretanto as contracções já íam sendo mais fortes, com cerca de 5m de intervalo, mas nem sempre regulares...
Por voltas das 16h as dores já começavam a apertar e as contracções já eram menos espaçadas, normalmente menos de 5m...
Depois de falar com o António e a Zé, sabendo que provavelmente ainda era cedo para nos pormos a caminho para a maternidade, aguardei mais um bocado em casa, mas as dores já apertavam e estava a ficar ansiosa, com medo de as dores se tornarem insuportáveis e custar mais fazer a viagem (cerca de 45m, indo com calma), ou de a coisa se dar de repente! Tinha esperanças de já ter alguma dilatação e que já estivesse próximo. Já dizia ao marido que se chegasse lá e me dissessem que só tinha 2 ou 3 dedos me dava um coisa má e se calhar não resistia sem pedir epidural (algo que não queria mesmo)!!!
Por volta das 17h achei que era melhor pormo-nos a caminho, as dores iam-se intensificando, os intervalos eram mais curtos, 3-4m...
Parámos pelo caminho, para fazer tempo, já que não havia grande evolução nos intervalos, embora as dores fossem aumentando sempre um pouco.
Por volta das 18h estavamos ao pé da maternidade... Como ainda estava a aguentar, embora com algum esforço, ainda ficámos no carro bastante tempo... O problema era que tinha mesmo de ir ao wc, acabei por decidir entrar na maternidade por volta das 19h, pensando que provavelmente também já não faltaria muito e não teria de ir para sala de dilatação sozinha (isso é que não queria mesmo!), e daria tempo de o António chegar, mesmo que me dessem ocitocina (eu sabia que era o mais provável, dificilmente escaparia)... Estava a entrar em stress, já calculava o que me esperava, mas não dava para aguentar mais e também não me sentia capaz de ir para outros sítios...
Já mais aliviada e com vontade de ir embora, lá fui fazer a inscrição, na esperança de, pelo menos, já ter bastante dilatação e não ter que levar com ocitocina... Mandaram-me entrar para observação... Eu já ia a medo e ao deparar-me com a pessoa que me esperava, entrei mesmo em stress e fiquei com vontade de fugir a sete pés!!! Nem sei se a mulher era enfermeira, ou auxiliar, ou o diabo! Mandou-me despir as cuecas e deitar na marquesa, fez o toque à bruta e veio de gilette na mão igualmente à bruta... Eu ainda lhe disse que já tinha feito depilação, se não chegava... Ela mal me respondeu que não e “atacou”!!! Senti-me como se tivesse sido violada (força de expressão, claro!)... Obviamente, se já não entrei bem, pior fiquei... A seguir veio outra, suponho que médica, fazer novamente o toque... 3 dedos!!! Eu realmente esperava já ir um pouco mais adiantada!!! Pensei logo que íam mandar-me para a sala de dilatação sozinha, com ocitocina, enfim, já via tudo a andar para trás... Depois de preencherem os papéis, ficarem muito espantadas e mandarem bocas por eu não querer epidural, nem ter tomado o antibiótico (eritromicina – mandaram pôr intravenosa) e ter estado tanto tempo à espera depois de rebentarem as águas (e eu disse que tinha sido por volta das 13-14h!!! “não lhe disseram que era para vir logo?!!!”, ao que respondi que não tinha contracções, por isso esperei mais um bocado!), lá me mandaram para cima... Eu estava convencida que ía para a dilatação e pedi encarecidamente para me deixarem sair e passear com o marido! Claro que não me deixaram e lá me disseram que ía para a sala de partos, diziam que já tinha boas contracções...
Chegada à sala, enquanto me despia, perguntava à médica se me iam dar ocitocina, ela disse que sim... Pedi por favor para não o fazer, que deixasse evoluir naturalmente, já que estava a andar bem, eu sabia que as dores eram muito piores... mas ela não me ligou! Só me disse que punha um bocado e depois logo se via e aproveitou para mandar a boca “você não quer epidural!...”. Depois disse que havia outras alternativas (sedativos)...
Já deitada, com intravenosa e ctg, lá fiquei sozinha, deviam ser cerca de 20h... Não tardou muito, já estava a chamar uma enfermeira porque estava com vómitos (bateu de repente!)!!! Acho que também pedi logo para pararem a ocitocina... Pouco depois chegou o marido... Não vomitei quase nada, já só tinha o sumo (que fui bebendo pelo caminho) no estômago, mas estava mal disposta mesmo... Disse ao marido para pedir novamente para pararem a ocitocina (não me lembro, mas acho que acabaram por reduzir ou parar) e pouco depois pedi também sedativo, porque já não estava a aguentar aquelas contracções, bem dolorosas, todas seguidas!!! Tinha sede e pedi um pouco de água, mas claro, não me deram! Só deram ao marido um algodão molhado para passar na boca, que ele espremeu um bocadinho e eu chupava o máximo que podia.
A partir daqui pouco me lembro... O marido diz que me “apagava” entre as contracções (e que uma vez foi tão forte que até se assustou!) e eu realmente não me lembro de grande coisa! Lembro-me de ele estar lá e me dizer para respirar e ter calma, me dar a mão, de lhe perguntar se o António já tinha chegado, porque estava a ficar com medo que ele não chegasse a tempo! Se o facto de estar ali me assustava, pensar que chegaria a hora e o António poderia não conseguir chegar a tempo, começou a deixar-me mais ansiosa... Mas claro, dali já não saía!!! Acho que já só pensava que se ele não chegasse, mais valia levarem-me logo para cesariana e poupar-nos do sofrimento (a mim e ao bébé)!
Quando finalmente vi o António, foi um alívio, pois tendo-o a meu lado, sabia que tudo correria o melhor possível... Ele viu como as coisas estavam e saiu, dizendo que quando voltasse eu já estaria pronta para “puxar”! Lembro-me de ter ido lá uma enfermeira fazer o toque e dizer que a seguir já ía poder “puxar” (não sei se foi antes de o António ter aparecido a primeira vez ou depois, fiquei um bocado baralhada das ideias! só tenho “flashes” de memória!) e fiquei assustada porque o António não estava na sala... Entretanto devo ter “apagado” de novo e a seguir só me lembro de já estar lá o António e me dizer que já ía começar a “puxar” na próxima contracção...
Comecei a “puxar” deitada de lado... Fiz toda a força que consegui e evacuei (pensava eu que tinha descarregado tudo quando rebentaram as águas!). “Puxei” várias vezes mas não resultou muito e o António mandou-me pôr na posição crítica (supina)... Estava quase (dizia o António... e mostrava ao marido a cabecita!), mas não saía e assim que eu parava de fazer força, recuava... Eu já estava cansada e sem forças... Perdi o controlo, já só gritava, não conseguia pôr-me na posição correcta e canalizar bem a força para onde ela era precisa (como eu já previa, aquela posição realmente só atrapalha!)! O António massajava o períneo, mas sem sucesso. A médica pressionava: “está à espera de quê (para cortar)?!” (eu não apanhei tudo e pensava que me queria mandar para cesariana!!! Naquele momento já não me importava, já não tinha mesmo forças, queria era acabar com aquilo duma vez e que o bébé não sofresse.)... O António “ameaçou-me” que se não fosse na próxima tinha que cortar... E assim foi! Teve mesmo de ser, para não rasgar demais e ter consequências mais graves... Para mim foi o mais traumatizante, aquela dor lancinante ainda me persegue... Eu pensava que no meio de tudo o resto era capaz de passar mais despercebida (até me tinham dito que nem se sentia nada!!! Pois, se calhar quem me disse tinha sido anestesiada...), mas foi mesmo horrivel! Tanto que eu gritei e me retraí na primeira tentativa e teve que ser em duas vezes!!! Mas pronto, finalmente o bébé nasceu e tudo passou...
O António colocou-o no meu colo, fiquei admirada por não ter muito aspecto de recém-nascido!!! Não podia entusiasmar-me com beijos porque estava com herpes, só lhe peguei como pude e olhei para ele, naqueles breves momentos antes de o levarem para os primeiros cuidados...
Entretanto saiu a placenta, lá me apertaram com toda a força para sairem os restos... Enquanto o António dava os pontos eu senti várias vezes a agulha, o que também não foi lá muito agradável, mas claro, o pior já tinha passado (pensavamos nós!) e a felicidade de ver o meu filho cá fora e bem, era o mais importante naquele momento. Tenho que mencionar o cuidado que o António teve em me dar pontos que não precisaram de ser tirados e por os ter dado de tal forma que a cicatriz mal se nota (nunca vi nenhuma, mas pelo que tenho lido, parece que costumam ser horriveis e levam muito mais tempo a sarar...).
Já despachados dos primeiros cuidados pós-parto, o António pegou no bébé e pôs no meu peito... Agarrou-se logo a mamar!!! Despedimo-nos do pai e do António e lá nos levaram para o quarto...
Escusado será dizer que dormir era missão impossível, com tanta emoção... Mas o pior ainda estava para vir!!!
Deram-me analgésico para tomar, mas passei a noite cheia de dores (que pensava serem normais depois de um parto!)... Sendo a primeira vez, não podia ter noção do que se estava a passar, nem nunca ninguém pôs essa hipótese! De manhã bem cedo (acho que na mudança de turno), voltaram a dar-me analgésicos, mas as dores não passaram, pelo contrário, eram cada vez mais fortes... Passado um bocado, voltei a pedir que me dessem mais, porque as dores eram muito fortes! A enfermeira perguntou o que me doía (eu disse que era dos pontos, pois era o que fazia mais sentido!) mas ela disse que não podia dar-me mais, tinha tomado há muito pouco tempo... e lá fiquei eu em sofrimento! As dores eram cada vez mais fortes, parecia que ía rebentar!!! Gemia e transpirava, comecei a sentir-me mesmo mal, tremia toda com suores frios, já estava branca, aquelas dores eram mesmo horriveis (bem piores que as de parto!)... A minha colega de quarto viu que eu estava mesmo aflita e insistiu que devia chamar alguém novamente, eu concordei e ela chamou...
Felizmente, a enfermeira que veio atender a chamada, teve a “brilhante” ideia de querer ver (os pontos... de que eu me queixava!), por achar estranho eu queixar-me tanto... E foi aí que se descobriu que tinha um hematoma enorme, devido a uma veia que rebentou internamente, e afinal tinha razões para me queixar assim! Por ser tão raro acontecer, ninguém se lembrou de tal coisa...
Foi um alvoroço, toda a gente foi ver com ar incrédulo e eu ali a morrer com dores!!! Ainda estive para aí uma hora à espera, até que me levassem para o bloco operatório! Entretanto o António estava a entrar ao serviço e ía ver como estavamos, deparou-se com esta situação e acompanhou-me até ao bloco operatório e lá tentou apressar as coisas... Para mim foi uma eternidade! A sala estava ocupada, ou estavam a prepara-la, e ainda fizeram uma cesariana antes! Eu já gritava, pedia por favor para me ajudarem, ao menos que me dessem logo anestesia... Parecia que ía rebentar a qualquer momento e não via ninguém a fazer nada, a não ser o António que tentava apressar as coisas!!!
Quando finalmente entrei na sala, a médica que ía operar ainda começou a reclamar com o pessoal porque eu ainda estava com a minha camisa: “Tanta pressa e ainda está assim?!”... Eu não sei onde fui buscar forças e, num acesso de raiva, despi-me eu mesma!!! Queria mais era que me dessem a anestesia para não sentir mais nada!!! Lá me espetaram e não sei que mais, perguntaram como me chamava, eu ainda respondi e depois “apaguei”...
Assim que acordei levaram-me de volta para o quarto, com soro e analgésico (acho eu!) atrás. Já estava com outra disposição, claro, nem parecia a mesma! Pudera, aquelas dores foram bem piores que o parto!!! Nunca na vida tive dores assim, cheguei a pensar que “apagava” de vez e ía para o outro lado...
Depois disseram-me que iria fazer transfusão se sangue! Quando a enfermeira veio com o sangue eu, a princípio, não queria, mas depois de falar com a médica e por me sentir muito fraca, acabei por concordar e lá fiquei o dia todo agarrada aos tubos, era uma confusão para me conseguir mexer e cuidar do bébé! Enfim... fiquei toda espetada, foi um dia horrível por causa de toda esta situação!
E depois deste contratempo, que acabou por se resolver bem, dentro do possível, acho que tudo correu dentro do que é normal... Penso que a recuperação poderia ter sido bem mais rápida, se não tivesse acontecido isto, a juntar às malditas hemorróidas, mas pronto... apesar de tudo, embora as 6 semanas de recuperação tenham sido bastante más (fisica e psicologicamente), depois disso, dentro do possível, recuperei melhor e mais rapidamente...
E pronto, é assim que recordo o parto do meu anjo. Digamos que foi aquilo que eu esperava, dentro das minhas limitações, embora sonhasse conseguir escapar da ocitocina e episiotomia também, e até de sedativos... mas pronto, ter conseguido ultrapassar tudo sem epidural, nem cesariana, já foi uma grande vitória (eu que nunca gostei de sofrer e tomava comprimidos por tudo e por nada!)! Por ironia do destino, não escapei da anestesia geral e operação!!! Cheguei a pensar para mim mesma, no rescaldo da situação, que se calhar mais valia ter pedido epidural, se a minha sina era ter de levar anestesia... Mas agora penso que, isso não impediria o que aconteceu e, se o tivesse feito, teria de levar não uma, mas duas anestesias seguidas e isso podia ter tido consequências bem mais graves! Isso para mim é a prova de que o destino está traçado e há coisas de que, por muito que se corra, não se pode fugir! Tinha de ser e pronto, não penso mais nisso...
Concluindo, apesar de concordar que o meio hospitalar realmente não ajuda nada ao parto natural, e de achar que eventualmente o teria conseguido em casa, não me arrependo de ter decidido assim... não estava preparada para que fosse doutra forma! O desfecho faz com que sinta que realmente foi a melhor opção, pois numa situação semelhante, se estivesse em casa, poderia ter sido muito grave a falta de assistência médica pronta a actuar...
Agradeço ao António e a toda a equipa de enfermagem que me acompanhou após o parto, pela paciência, carinho e atenção que tiveram comigo. Agradeço também à Zé, à Luísa, à Rosa e todas as doulas que, de uma ou outra forma, acompanharam e me ajudaram durante a gravidez e no pós-parto. Bem hajam!
Para finalizar, quero apenas dizer que algumas das situações que relato talvez pareçam exageradas, do ponto de vista de outras pessoas, mas é assim que as recordo/sinto e, naturalmente, a sensibilidade/fragilidade de uma mulher em trabalho de parto/acabada de parir é muito maior que em qualquer outra situação.
Rosário Santos
Aveiro - Portugal