Humpar

 
O Nascimento do João Miguel
30 de Outubro de 2005




Hospital São Sebastião - Santa Maria da Feira

Começo o meu relato por dizer que gostei muito do meu trabalho de parto. Apesar de não ter corrido bem como eu tinha imaginado e interiorizado, acho que correu muito bem e sinto-me muito feliz! : )

O parto deu-se no hospital de Santa Maria da Feira, dei entrada às 6:27 e às 8:32 já podia ver os pésitos do meu João Miguel! Durante o trabalho de parto e o parto pude sempre contar com a companhia, o apoio e o carinho do pai, o João André.

Gravidez planeada?

A minha gravidez não foi planeada, mas era esperada. Deixei de tomar a pílula em Outubro de 2004. Se acontecesse ficar grávida seria óptimo, mas se não acontecesse não haveria crise, pois eu e o João não tinhamos pressa. Não reuníamos as condições ideiais para ter um filho, mas já tinhamos alguma estabilidade (quem está à espera das condições ideiais para ter um filho, bem tem que esperar, porque nunca se está na altura ideal...).

Contavamos com um prazo de 2 anos para ter o primeiro filhote e a gravidez anunciou-se logo em finais de Fevereiro de 2005!

Devo confessar que, ao contrário do que é prudente, não fiz nenhuma análise ao meu estado de saúde antes de engravidar... não me sentia adoentada, mas é importante consultar um médico antes de engravidar!

A descoberta da gravidez

Foi o João André (JA) o primeiro a desconfiar da minha gravidez, pois eu andava há uns 15 dias a queixar-me de ter o peito dorido e entretanto o período começou a atrasar. Não era usual estar tantos dias com o peito dorido e ao fim de uma semana de atraso fomos comprar um teste de gravidez ao hipermercado.

Só pude fazer o teste no dia seguinte, pois nas instruções aconselhava que se estivesse de jejum. Como não queriamos estragar o resultado do teste, tivemos mesmo de esperar... que noite de anseios!!!

Foi no dia 27 de Fevereiro que fiz o teste! Nas instruções do teste dizia que o resultado poderia demorar dois minutos a “revelar-se”, mas qual quê, mal pus a gotinha de urina lá apareceram as duas risquinhas: a linha azul e a bem fadada linha vermelha! Foi uma alegria!!

Mesmo assim, no dia seguinte fiz um exame num laboratório clínico, para garantir o resultado! ;) (Nota: fiquei surpreendida com o facto do preço do teste de gravidez do hipermercado ser três vezes superior ao teste de gravidez do laboratório)

A escolha do hospital

Toda a gravidez foi partilhada com o JA, desde a sua presença em todas as consultas de obstetrícia, até às compras das roupinhas e primeiras fraldas do piolhito que aí vinha! Como tal, o dia do parto também tinha de ser vivido a dois, pelo que escolhemos um hospital onde fosse possível a parturiente ter um acompanhante.

No hospitral Infante D. Pedro, de Aveiro, não há essa possibilidade, pelo que optámos pelo hospital São Sebastião de Santa Maria da Feira.

O primeiro sinal

As 40 semanas de gravidez terminavam no dia 30 de Outubro e foi um dia antes que tive o primeiro sinal do início de trabalho de parto. Na altura fiquei na dúvida se seria mesmo o primeiro indício... aqui fica um excerto do e-mail que enviei às 11:22 para a lista “doulasdeportugal” com o meu desabafo:

Estou grávida de 39 semanas e 6 dias (amanhã completo as 40 semanitas!!).

Às 10h da manhã senti-me molhada e verifiquei que a cadeira tinha uma mancha (com cerca de 10cm de diâmetro). Deve-se ter dado a ruptura de membranas...

Para além do líquido que vi na cadeira (e na roupa), tinha um pouco de uma substância espessa, gelatinosa, mas branca (pelo que suponho que não pode ser o rolhão mucoso).

Entretanto, já passa das 11h da manhã e não tenho quaisquer contracções nem me saiu mais líquido nenhum...

Será que se trata do início do meu trabalho de parto??

Já estive aqui a falar com o meu João Miguel, a perguntar se ía ser mesmo hoje que ele me vinha fazer companhia, mas ele ainda não me respondeu! ;)

Vamos lá a ver...

Fiquei a aguardar e não tive mais nenhum sinal de trabalho de parto.

Ao início da tarde decidi telefonar à minha médica obstetra para saber qual a sua opinião sobre esta perda de líquido, se seria insignificante ou não, dado que aos sete meses de gravidez me tinha sido diagnosticada uma ligeira diminuição de líquido amniótico. Ela aconselhou-me a passar pelo hospital para ver se estava tudo bem com o bebé.

Fiquei renitente, mas.... primeira gravidez, inseguranças acrescidas, e a meio da tarde lá fui eu ao hospital para ver se o bebé poderia estar em sofrimento ou se estava tudo bem.

A primeira ida ao hospital

Por volta das 16:30 lá fui com o JA para o hospital. Passei pela triagem e encaminharam-me para a maternidade.

Uma enfermeira fez-me várias perguntas (última mestruação, doenças,...), pediu-me para urinar para um recipiente e depois colocou uma tira de papel para analisar algo (esta parte não cheguei a perceber), e entretanto encaminhou-me para a sala dos CTG.

Durante a gravidez nunca tinha feito um CTG e não gostei muito da experiência. Deitei-me numa marquesa, com dois elásticos amarraram à minha barriga duas sondas e pediram para que carregasse num botão sempre que sentisse o bebé a mexer. A enfermeira saiu e lá ficamos três grávidas nestas condições. Devo ter estado assim pelo menos meia hora. Não gostei porque senti-me só e, apesar de ver a chuva a bater na janela, o ambiente não era nada acolhedor...

Entretanto o JA estava na sala de espera sem saber nada do que se passava... Teve quase duas horas de espera, cheio de ansiedade.

Depois do exame do CTG fui analisada por uma médica que me disse que o que eu tinha tido era perda do rolhão mucosso e não ruptura de mebranas. Estava ainda com apenas 1 dedo de dilatação (a mesma dilatação que tinha às 38 semanas).

Voltei para casa com a instrução de voltar ao hospital se, até ao final das 41 semanas, o bebé não nascesse, e com algum desconforto na barriga devido ao exame ginecológico.

(Nota: Pensava que o rolhão mucoso era necessariamente rosado, mas, segundo a explicação dada pela médica, o rolhão só toma essa coloração se houver, por exemplo, um exame ginecológico ou relações sexuais nos dias anteriores).

As contracções

A primeira contracção foi muito clara para mim!!! Foi por volta das 22h30, estava eu sentada no sofá a ver televisão quando senti uma dor transversal no baixo abdómen e uma “moeirinha” na zona lombar. Disse ao JA que estava com uma contracção e entretanto tive outa, e outra, e outra,... pelo que decidi ir para a cama esticar-me a ler, sempre ficava mais confortável!

As dores das contracções apenas se intensificaram por volta da 1h da manhã. As contracções estiveram mais ou menos certinhas (primeiro com intervalos de 5 minutos, depois com intervalos de 3 minutos), mas entretanto tornaram-se irregulares: ora com intervalos de 5 minutos, ora com intervalos inferiores, ou lá vinha uma ou outra que demorava os seus 10 minutitos. Foi nessa altura que optei por terminar as leituras, fazer uma ceiazinha e concentrar-me apenas as contracções...

Deitei-me novamente... mas estive pouco tempo deitada, pois nessa posição sentia muito as contracções, comecei então a andar pela casa e de vez em quando, entre as contracções, sentava-me um pouco para descansar. Quando vinha uma contracção cantava baixinho a música da “loja do mestre André” para me concentrar noutra coisa que não a sensação da contracção - e ajudava! ; )

Por volta das 3h da manhã liguei-me à net e vim à lista de discussão “desabafar” um pouquinho!!

Depois fui tomar um banho na esperança de conseguir relaxar, mas tal foi impossível, aliás, não gostei nada de estar deitada na banheira, a posição não me ajudava...

Conforme me disseram nas aulas de preparação do parto, eu estava à espera de ter 3 a 4 contracções em cada 10 minutos para ir para o hospital, mas nunca cheguei a ter as 4 contracções... de um modo geral tinha 2 ou 3 contracções em cada 10 min, e já estava há tantas horas nisso...

Comecei a inspeccionar os livros que tenho sobre gravidez, e na maior parte deles dizia que se deveria ir para o hospital quando tivesse uma contracção a cada 10 min. Foi aí que decidi que não deveria esperar muito mais tempo. Combinei com o JA que o acordaria por volta das 5h da manhã para irmos para o hospital.

Voltei à cozinha para uma segunda ceia e comecei a arranjar-me lenta e calmamente.

A derradeira ida para o hospital

Acabámos por sair às 6h de casa, que na realidade eram ainda 5h (a hora tinha mudado). A viagem para o hospital foi longa. Dei entrada no hospital apenas às 6h32. Demorámos uma hora e meia para fazer uma viagem de 40 km, pois a cada contracção eu fazia sinal ao JA para ele para o carro. Tivemos de parar sempre que eu tinha uma contracção devido ao desconforto provocado pela posição sentada e pelas vibracções do carro.

Já no hospital fui ao serviço de triagem, depois dei os dados para preencherem a minha ficha e entetanto ainda esperei uns minutos pelo JA, pois ele tinha ido estacionar o carro e eu não queria subir sem ele (não fosse haver um desencontro e eu ter o bebé sem ele!!!).

O parto

No piso dos partos toquei à campaínha. Quando chegou uma enfermeira para me atender, abriume

a porta e enquanto me virava as costas perguntou num tom muito frio e desagradável “porquê que está aqui?”. Chateadíssima com a recepção pensei para comigo ”é um bocado óbvio, não??”, mas lá lhe expliquei, no tom o mais cordial possível que consegui, que tinha contracções a cada 5 minutos.

Ligou-me ao CTG. Nesse momento comecei a stressar... por um lado porque ía estar deitada, com uns elásticos a apertar a minha barriga (o que me iria custar bastante) e por outro lado, a experiência da tarde anterior dizia-me que ía ficar ali sozinha pelo menos uma boa meia hora...

Mas sorte das sortes, nem cinco minutos lá fiquei. Logo na primeira contracção, não sei se pelo facto de estar amarrada ou se por coincidência, rebentaram as membranas!!!!

Chamei a enfermeira e ela encaminhou-me para outra sala onde troquei a minha roupa por uma bata e me fizeram o toque (estava já com 5 dedos de dilatação), uma ecografia e montes de

perguntas, tal como na tarde anterior (profissão da mãe, profissão do pai, se é fumador, etc, etc, etc).

Depois do exame chamaram o pai e ainda tive que assinar um documento antes de passar para a sala de parto. Na altura não li o documento (sentia-me a tremer de tal maneira que mal conseguia escrever, quanto mais estar a ler!!), mas segundo a médica era um documento a autorizar que me fizessem o parto. (Acho muito estranho e pouco conveniente que numa situação como a de trabalho de parto, em que não se lê nada, ter de assinar tal documento...)

Já na sala de parto a enfermeira perguntou se eu queria epidural. No primeiro instante estranhei pois pensava que com 5 dedos de dilatação já não se poderia levar epidural. A enfermeira disseme que tinha de decidir primeiro se queria a epidural e só depois é que o anestesista iria ver se ainda a podia administrar ou não.

Fiquei muito indecisa, pois a minha ideia era dar à luz sem a epidural. Eu olhava para o JA à procura de uma resposta e ele dizia-me que eu é que sabia se queria ou não, que ele não me conseguia ajudar... Vendo a minha indecisão, a enfermeira perguntou qual era a minha indecisão. Respondi que tinha medo de, com a anestesia, não conseguir fazer a força necessária na hora de puxar. Ela respondeu que a epidural só tirava a dor, que não fazia mal nenhum e que, pelo contrário, muitas parturientes que não levam epidural enervam-se com as dores e acabam por complicar o parto.

Sem grande convicção, acabei por optar pela epidural...

Colocaram-me o catéter para o soro. Foi só à segunda picadela que conseguiram colocar a agulha e foi para mim das coisas mais dolorosas de todo o parto. Não me disseram se me administraram oxitocina ou não, mas suponho que sim pois haviam dois sacos pendurados no suporte.

Raparam-me.

Entretanto lá chegou o anestesista. A administração da anestesia também não foi muito fácil...

Teve de ser feita em duas ou três partes pois as contracções já eram mais frequentes, e eu pedia para interromperem sempre que sentia uma contracção.

Depois da epidural ser administrada, deitei-me de lado e fiquei só com o João André. Ainda senti mais umas quantas contracções bem fortes, até que elas se tornaram indolores. Nas primeiras, tinha de coordenar muito bem a respiração e o aperto da mão do JA na minha operava milagres, sentia-me tão segura com esse toque!!!

Quando as contracções ficaram indolores era o JA que me dizia quando eu estava a ter uma contracção, pois ele via os gráficos no monitor.

Pouco tempo depois comecei a sentir uma vontade enorme de apertar os músculos das nádegas sempre que o JA “via” a chegada de uma contracção. A sensação que tinha era que tinha de apertar bem, senão iria sair algo... O intervalo de tempo entre estas sensações era de cada vez mais pequeno, até que pedi ao João André que chamasse alguém, pois poderia ser o bebé a querer sair.


A partir do momento em que chegou a parteira foi tudo muito rápido. Primeiro ela tentou um parto de lado, mas depois lá optou por me pôr os pés nos estribos e mandou-me fazer força, muita força.... Foi quando me senti mais impotente, pois apesar de eu fazer o máximo de força que conseguia, ela não era suficiente... Ou eu não estava a fazer a força suficiente, ou não estava a conseguir localizar bem o “ponto” sobre o qual deveria fazer a força (julgo que se tratou da segunda hipótese). Entretanto saiu a cabecita, mas os ombros não queriam sair. Nessa altura pensei que o meu pequenino poderia estrar a sofrer, pois nem estava dentro da barriga nem estava cá fora, dei o meu máximo, ainda maior que o anterior, fui procurar energia a todos os pontos do meu corpo, e mesmo assim, uma enfermeira teve de “estancar” bem os cotovelos na minha barriga para pressionar o bebé a sair.

E ele apareceu!!! Foi uma sensação de alívio e de esvaziamento.... não dá para descrever!!!!...

A primeira coisa que vi foram os pésitos do meu João Miguel! E perante o silêncio da sala perguntei assustada “Ele não chora?”, “Calma!” responderam-me com carinho!

Às 8:32 ele chorou! Senti-me como que prestes a desmaiar com a alegria, o alívio e o cansaço, afinal de contas já era o segundo dia consecutivo que não dormia...

O João Miguel foi pesado, foi limpo e vestido (a roupinha escolhida mal lhe servia...). Enquanto uns tratavam do João Miguel, outros tratavam de mim e foi nessa altura que me apercebi que me tinham feito uma episiotomia, pois senti que me estavam a coser.

Puseram o meu pequenino em cima de mim, mas foi o pai o primeiro a dar-lhe carinho, pois eu estava extenuada. Quando fiquei “pronta” e a sós com o JA é que olhei terna e longamente para o meu piolhinho....

... um bebé lindo, com 3720 gramas, 52 cm, com índices de Apgar de 9 e 10, e que começou logo ali a mamar no meu peito!

      

Fim

 

Ana Helena Tavares e João André Marques

Outubro de 2005 – Aveiro - Portugal
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