O Nascimento do Guilherme
01 de Janeiro de 2006
O teu parto, Guilherme, foi algo muito longo e muito intenso também... estávamos com 38 semanas e 5 dias, no último dia do ano. Acordei devagarinho, como é meu costume (ou era) e senti-me molhada. Molhada mesmo, apesar de não muito. Não era suada, não era algo que eu conhecia. Levantei-me e senti algo escorrer pela perna... olhei para os lençois e lá estava ela, uma pequena mancha, húmida e sem cheiro. Será? O pai sorriu e disse que nascerias mesmo no primeiro dia do ano. Não sei explicar o que senti... não senti excitação, não senti receio, não senti o nervoso miudinho que pensei que ia sentir. Eram 7h30 da manhã.
O primeiro passo seria ligar para o Brigham and Women’s Hospital e assim fiz. Como o rastreio ao Estreptococos B (B-strep) tinha resultado positivo, sabia que não faríamos o pré-parto em casa, como estava previsto. Era preciso o antibiótico que garantiria que a bactéria não chegaria até ti. Falámos com a Dra K. G. (a única que eu não gostei muito nas consultas) e ela confirmou... banho, pequeno-almoço, sem pressas, mas que o passo seguinte era mesmo o hospital para ser vista. O meu passo seguinte foi ligar à Carla Guiomar, minha doula e amiga sempre disponível para receber o apoio que estava a precisar, a segurança que falta num momento desses.
No entretanto e, ao abrir a porta do quarto, vi as nossas manas (tuas tias, Mariana e Adriana) a dormir. Mal sabiam a notícia que as acordaria neste dia tão especial. E andámos nós a pensar na passagem de ano... acordei-as com um “bem, parece que é mesmo amanhã... vamos para o hospital depois do pequeno-almoço e este bebé vai nascer. Tiveram sorte, vão mesmo conhecê-lo.... As caras delas são indiscritíveis, um misto de excitação e incredibilidade. Nem imagino o que pensaram, talvez que estava a brincar com elas...
Ainda falei com a Orit antes de sair, tínhamos combinado assistir à circuncisão do pequeno Andy durante a manhã... ela ficou no mesmo estado de excitação que eu tinha sentido exactamente 7 dias antes.
Fomos de taxi para o hospital, íamos animados e na risota, eu e o pai. O taxista era mesmo muito simpático, olhou para nós enquanto esperava saber o destino e eu disse logo: “Guess where...". A primeira tentativa dele foi o aeroporto, dado que estávamos no Winter Break e todos viajam. “Nop! Hospital!”. Ele reagiu muito calmamente, tal como nós gostaríamos que fosse. Perguntou se iríamos ter um bebé e olhou para a barriguita, incrédulo. Eu bem que fiz festas na barriga o caminho todo, sabia que iria ficar sem ela, era uma questão de horas...
Chegámos ao hospital às 10 da manhã, calmos e bem dispostos. Fomos encaminhados ao Center for labor and birth, no 5º andar e recebidos pela enfermeira L. N., que nos pediu para te monotorizar um bocadinho (na sala de observação CWN 585.02), só para ver como estavas. Estavas muito activo, a dar chutos, a preparar-te para a nossa viagem... Eram 12h25 e a Dra K. J. veio ver como estávamos. Sem dilatação e a primeira dose de penicilina administrada (continuaria a receber o anitibiótico todas as 4h), descreveu-nos o cenário. Podemos acelerar o parto ou esperar, a escolha seria nossa. Com o rebentamento das águas e com o rastreio positivo, não gostariam de esperar mais que as 24h aconselhadas, mas sabiam do meu desejo em ter um parto normal. Aconselhou-nos, após termos pedido opinião, a esperar até às 19h e, no caso de não haver nenhuma evolução, administrariam primeiro um gel (a menor intervenção possível) e, no caso de não resultar, a famosa oxitocina numa dose muito baixa. Nesta altura as contracções eram muito irregulares, quase sem dor. Aconselhou a andar o mais possível a pé, a almoçar e a descansar. Avisou-nos que teríamos um longo dia pela frente. Tirando os pequenos momentos em que recebi o antibiótico, nunca estive monotorizada, tive uma completa liberdade de movimentos. Estava tudo a correr bem...
As 24h não constituíam uma pressão constante mas estavam lá. Na verdade, nem sequer me lembravam delas mas eu própria não me conseguia abstrair-me desse facto. A tua segurança era a nossa prioridade e foi bom sentir que médicos conseguiam respeitar as nossas opções de parto tendo as mesmas prioridades que nós. Tu! Nem por um momento corremos algum risco...
Às 18h15 resolvemos começar a ajudar este trabalho de parto que não queria avançar. Fomos para o nosso quarto (CWN 514) e monotorizaram-nos por alguns momentos. Concluíram que as contracções estavam a ser regulares, de 5 em 5 minutos e optámos por esperar. Eu estava esfomeada... por volta das 20h trouxeram o meu jantar e eu ainda reclamei com o pai, em tom de brincadeira, que não tinha sal. Ele lembrou-me que em Portugal estaria ligada a uma maquineta a toda a hora, a soro e sem comida desde o momento em que tínhamos chegado ao hospital. Aquele franguinho grelhado com arroz e cenoura tiveram logo outro sabor.
Estranhei que não me fizessem o famoso toque e, mais uma vez, fiquei surpreendida. “As águas rebentaram, não há necessidade de mexer dado que, ao fazê-lo, aumentamos o risco de infecções. Estarmos quietos é, sem dúvida, a melhor opção. A partir do momento em que estejas em “active labor” veremos como estás”.
Às 20h30, a 3ª dode de penicilina e às 22h verificámos que o ritmo das contracções e a sua intensidade não eram os mesmos. Diminuiram. Examinaram-me e já estava com um pouco de dilatação (embora quase nada) e o colo do útero já estava mais mole. Colocou-me um tablet para tentar ajudar o cervix a dilatar mas concluímos que por volta das 3h30 da manhã teríamos de começar a oxitocina caso não houvesse um desenvolvimento mais real do trabalho de parto. Assim foi.
Por volta das 4h senti a primeira contracção. Muito mais forte que todas as outras, não era uma dor natural, que fluía devagar. Era uma dor intensa, falsa. Era um forçar o útero a contrair quando ele não estaria ainda preparado. Uma hora depois as contracções eram de 2 a 3 minutos de intervalo, muito dolorosas e já duravam há cerca de meia hora... ia mudando de posições e também de sítio, passando da cama à casa de banho e à cadeira de baloiço com a ajuda do pai. Às 5h20 da manhã tentei a birthing ball e, dada a proximidade das 24h, pediram-me para te monotorizar (remote monotoring, continuava a ter liberdade de movimentos).
Às 6h da manhã, com imensas dores, pedi para me dizerem como estava. A minha decisão quanto à epidural iria resultar deste pedido. Se me dissessem que estaria com mais de 5 ou 6 dedos de dilatação, teria provavelmente aguentado mas quando a resposta de 1 dedo de dilatação chegou... nem consigo descrever bem o que senti. Um misto de desilusão, tristeza e um sentimento estranho, de que não era capaz. A Dra K.J. disse que poderia ficar assim mais 10h e não dilatar, nunca saberíamos como o corpo iria reagir. Infelizmente, não tínhamos essas 10h para esperar em total segurança. 15 minutos depois, a epidural. Estava tão triste, senti-me tão impotente e incapaz. O pai disse-me logo que o meu problema não era com a dor mas com a duração desta. Não era humano aguentar mais meio dia assim, que eu tinha tentado e que não me devia sentir triste com isso, pelo contrário. O pai, Guilherme, como sempre nestes 10 anos juntos, não me deixou por um só momento, esteve sempre comigo, apoiou-me, mimou-me. O que eu mais pensava não era nas dores... era no facto de, em Portugal, as mulheres passarem por tudo isto sem o marido, sem o seu apoio. Era na sorte que eu tinha em tê-lo comigo, ali, naquela hora, como em todas as outras...
Após a administração da epidural, as dores passaram. Alívio? Sim... mas o que aí vinha eu não sabia. As pernas dormentes, muitos vómitos e o cateter na bexiga pois já não tinha a liberdade de movimentos que tive até então. Às 9 da manhã estava apenas com 2 cm de dilatação. O meu corpo não tinha reagido como eu gostaria. Tal como a médica disse, se ao menos eu não tivesse a bactéria, se as águas não tivessem rebentado, poderia ter feito o pré-parto em casa, calmamente, como eu gostaria. Mas elogiou a minha “open mind”, o facto de não estar limitada às minhas expectativas e de aceitar ouvir as opções que existiam. Penso que numa altura como esta, a única coisa em que pensamos é na tua segurança. Nunca me tentaram impor nada, sempre respeitaram a nossa vontade sem sugestões desnecessárias. Às 10h20 as contracções duravam cerca de 90 segundos e o intervalo era pequeno. Mesmo com a epidural, sentia dores. A Dra G.G., quem assistiria ao teu nascimento, examinou-me e concluiu que estava com 3 cm de dilatção, tinha dilatado 1 cm na última hora. O corpo começara a reagir e, dado que estavas bem, sugeriu esperarmos até às 12h30. Por esta altura, tinha dilatado mais 1 cm e às 13 estava já com 8 cm de dilatação. Ela mesmo disse que o seu objectivo, naquele momento, para além da nossa segurança, era evitar a cesariana e respeitar a minha vontade de parto natural... as long as possible and safe. Por isto, muito lhe agradeço.
Até às 14h30 tive imensos enjoos e algumas dores. Eu não queria aumentar a dose de anestesia, já me custava imenso pensar que te tinha sujeito a esta. Passados 5 minutos, verificaram que estava completamente dilatada e como ainda faltavam alguns sinais de que estaria pronta para o pushing, sugeriu-me descansar durante uma hora. Ainda estavas subido e havia que esperar um pouco mais. Nessa hora, o meu corpo tomou conta de mim... começei a tremer mesmo sem sentir frio, algo completamente incontrolável e nunca visto por nós. Em determinadas alturas, o pai agarrava-me, abraçava-me para me confortar e que bem me senti por tê-lo ali comigo. 20 minutos depois, a pressão e a vontade de puxar... estava na altura.
Começamos aquela que pensámos ser a última parte desta viagem. Puxei com convicção durante a primeira hora e, com os sinais de cansaço, alguns momentos para descansar. Foram buscar um espelho para me mostrarem o que estava a acontecer e me mostrarem que seria capaz. Já com poucas forças, no momento em que vi a tua cabecinha e o teu cabelo negro, as energias voltaram. Não sei de onde, não sei como, sei apenas que pensava estar tão perto de te ter connosco. Puxei até às 17h30 mas sem grandes avanços para minha desilusão. Sempre que puxava, víamos a tua cabecinha mas nos intervalos das contracções, subias de novo. Segundo a Dra G. G., não estavas de frente para o canal de parto, estarias ligeiramente na diagonal e com a tua carinha virada para cima, coisa que dificultava o teu encaixe. Disse-me que eu já tinha feito o que era possível e que, embora a decisão continuasse a ser minha, sentia-se na obrigação de sugerir a cesariana. O trabalho de parto tinha começado há 34h e a tua segurança continuava a ser a nossa prioridade. Assenti, um pouco triste mas conformada. Mesmo tendo tomado esta decisão juntamente com o pai, não me arrependo de ter tentado e ter passado pelo longo trabalho de parto... senti o poder que o nosso corpo tem, o quanto não é possível controlá-lo. Aprendi muito sobre mim e sobre nós. E sim, passaria por tudo de novo, mesmo sabendo que resultaria na cesariana. Penso que a evolução do parto também foi importante para ti e te preparou para estares aqui connosco.
Às 18h14 começou a cirurgia e nasceste às 18h29 do dia 1 de Janeiro com 2.825 Kg (6 lb e 3.6 oz) e com 51 cm (20 inches). Pouco depois de nasceres, uma enfermeira perguntou-me o que tinha tido... respondi “não sei” e ficou, incrédula, a olhar para mim. Ouvir “your baby is fine" foi suficiente e confesso que nem me lembrei, até então, de perguntar se eras um menino ou uma menina. A Dra G. G. perguntou, também ela incrédula, se eu não sabia já o que tinha tido... “you have a boy!” deixou-nos surpreendidos e felizes. A cara do pai quando ouviu que eras um rapaz é algo de que nunca me esquecerei. Incrédulo, pois pensava que serias uma menina, mas tão feliz... pouco depois trouxe-te para eu te ver e dar o primeiro dos muitos beijos que te dou diariamente. Deves mesmo pensar que sou uma chata, não te largo essas bochechas. Mas não resisto aos beijos e ao teu cheiro. Incontrolável.
Às 19h05 já estava tudo terminado e às 19h30 já estávamos no quarto, momento em que liguei aos teus avós em Portugal e às tias que estavam em nossa casa, à espera de notícias.
O teu parto não foi como eu esperava que fosse, como eu o idealizei. Mas foi seguro, a nossa vontade foi sempre respeitada e fomos sempre nós a decidir o próximo passo. Nunca nos foi imposto nada, sugerido algo que fosse contra a nossa vontade de parto natural e a nossa segurança foi sempre a prioridade.
Após 35h de trabalho de parto, chegaste!
Acho que nunca teremos outra passagem de ano tão intensa e feliz quanto esta. A partir deste dia, passámos a ser 3, a nossa família está mais completa e mais feliz. Neste exacto momento, completas 2 semanas de vida e cada vez te amo mais. Pensava que te amava muito, impossível amar-te mais quando nasceste. Não era verdade... este amor cresce todos os dias, contigo, connosco.
Amo-te tanto que chega a doer...
Mãe
Ana Rangel
Massachussets - U.S.A.
01 de Janeiro de 2006
O teu parto, Guilherme, foi algo muito longo e muito intenso também... estávamos com 38 semanas e 5 dias, no último dia do ano. Acordei devagarinho, como é meu costume (ou era) e senti-me molhada. Molhada mesmo, apesar de não muito. Não era suada, não era algo que eu conhecia. Levantei-me e senti algo escorrer pela perna... olhei para os lençois e lá estava ela, uma pequena mancha, húmida e sem cheiro. Será? O pai sorriu e disse que nascerias mesmo no primeiro dia do ano. Não sei explicar o que senti... não senti excitação, não senti receio, não senti o nervoso miudinho que pensei que ia sentir. Eram 7h30 da manhã.
O primeiro passo seria ligar para o Brigham and Women’s Hospital e assim fiz. Como o rastreio ao Estreptococos B (B-strep) tinha resultado positivo, sabia que não faríamos o pré-parto em casa, como estava previsto. Era preciso o antibiótico que garantiria que a bactéria não chegaria até ti. Falámos com a Dra K. G. (a única que eu não gostei muito nas consultas) e ela confirmou... banho, pequeno-almoço, sem pressas, mas que o passo seguinte era mesmo o hospital para ser vista. O meu passo seguinte foi ligar à Carla Guiomar, minha doula e amiga sempre disponível para receber o apoio que estava a precisar, a segurança que falta num momento desses.
No entretanto e, ao abrir a porta do quarto, vi as nossas manas (tuas tias, Mariana e Adriana) a dormir. Mal sabiam a notícia que as acordaria neste dia tão especial. E andámos nós a pensar na passagem de ano... acordei-as com um “bem, parece que é mesmo amanhã... vamos para o hospital depois do pequeno-almoço e este bebé vai nascer. Tiveram sorte, vão mesmo conhecê-lo.... As caras delas são indiscritíveis, um misto de excitação e incredibilidade. Nem imagino o que pensaram, talvez que estava a brincar com elas...
Ainda falei com a Orit antes de sair, tínhamos combinado assistir à circuncisão do pequeno Andy durante a manhã... ela ficou no mesmo estado de excitação que eu tinha sentido exactamente 7 dias antes.
Fomos de taxi para o hospital, íamos animados e na risota, eu e o pai. O taxista era mesmo muito simpático, olhou para nós enquanto esperava saber o destino e eu disse logo: “Guess where...". A primeira tentativa dele foi o aeroporto, dado que estávamos no Winter Break e todos viajam. “Nop! Hospital!”. Ele reagiu muito calmamente, tal como nós gostaríamos que fosse. Perguntou se iríamos ter um bebé e olhou para a barriguita, incrédulo. Eu bem que fiz festas na barriga o caminho todo, sabia que iria ficar sem ela, era uma questão de horas...
Chegámos ao hospital às 10 da manhã, calmos e bem dispostos. Fomos encaminhados ao Center for labor and birth, no 5º andar e recebidos pela enfermeira L. N., que nos pediu para te monotorizar um bocadinho (na sala de observação CWN 585.02), só para ver como estavas. Estavas muito activo, a dar chutos, a preparar-te para a nossa viagem... Eram 12h25 e a Dra K. J. veio ver como estávamos. Sem dilatação e a primeira dose de penicilina administrada (continuaria a receber o anitibiótico todas as 4h), descreveu-nos o cenário. Podemos acelerar o parto ou esperar, a escolha seria nossa. Com o rebentamento das águas e com o rastreio positivo, não gostariam de esperar mais que as 24h aconselhadas, mas sabiam do meu desejo em ter um parto normal. Aconselhou-nos, após termos pedido opinião, a esperar até às 19h e, no caso de não haver nenhuma evolução, administrariam primeiro um gel (a menor intervenção possível) e, no caso de não resultar, a famosa oxitocina numa dose muito baixa. Nesta altura as contracções eram muito irregulares, quase sem dor. Aconselhou a andar o mais possível a pé, a almoçar e a descansar. Avisou-nos que teríamos um longo dia pela frente. Tirando os pequenos momentos em que recebi o antibiótico, nunca estive monotorizada, tive uma completa liberdade de movimentos. Estava tudo a correr bem...
As 24h não constituíam uma pressão constante mas estavam lá. Na verdade, nem sequer me lembravam delas mas eu própria não me conseguia abstrair-me desse facto. A tua segurança era a nossa prioridade e foi bom sentir que médicos conseguiam respeitar as nossas opções de parto tendo as mesmas prioridades que nós. Tu! Nem por um momento corremos algum risco...
Às 18h15 resolvemos começar a ajudar este trabalho de parto que não queria avançar. Fomos para o nosso quarto (CWN 514) e monotorizaram-nos por alguns momentos. Concluíram que as contracções estavam a ser regulares, de 5 em 5 minutos e optámos por esperar. Eu estava esfomeada... por volta das 20h trouxeram o meu jantar e eu ainda reclamei com o pai, em tom de brincadeira, que não tinha sal. Ele lembrou-me que em Portugal estaria ligada a uma maquineta a toda a hora, a soro e sem comida desde o momento em que tínhamos chegado ao hospital. Aquele franguinho grelhado com arroz e cenoura tiveram logo outro sabor.
Estranhei que não me fizessem o famoso toque e, mais uma vez, fiquei surpreendida. “As águas rebentaram, não há necessidade de mexer dado que, ao fazê-lo, aumentamos o risco de infecções. Estarmos quietos é, sem dúvida, a melhor opção. A partir do momento em que estejas em “active labor” veremos como estás”.
Às 20h30, a 3ª dode de penicilina e às 22h verificámos que o ritmo das contracções e a sua intensidade não eram os mesmos. Diminuiram. Examinaram-me e já estava com um pouco de dilatação (embora quase nada) e o colo do útero já estava mais mole. Colocou-me um tablet para tentar ajudar o cervix a dilatar mas concluímos que por volta das 3h30 da manhã teríamos de começar a oxitocina caso não houvesse um desenvolvimento mais real do trabalho de parto. Assim foi.
Por volta das 4h senti a primeira contracção. Muito mais forte que todas as outras, não era uma dor natural, que fluía devagar. Era uma dor intensa, falsa. Era um forçar o útero a contrair quando ele não estaria ainda preparado. Uma hora depois as contracções eram de 2 a 3 minutos de intervalo, muito dolorosas e já duravam há cerca de meia hora... ia mudando de posições e também de sítio, passando da cama à casa de banho e à cadeira de baloiço com a ajuda do pai. Às 5h20 da manhã tentei a birthing ball e, dada a proximidade das 24h, pediram-me para te monotorizar (remote monotoring, continuava a ter liberdade de movimentos).
Às 6h da manhã, com imensas dores, pedi para me dizerem como estava. A minha decisão quanto à epidural iria resultar deste pedido. Se me dissessem que estaria com mais de 5 ou 6 dedos de dilatação, teria provavelmente aguentado mas quando a resposta de 1 dedo de dilatação chegou... nem consigo descrever bem o que senti. Um misto de desilusão, tristeza e um sentimento estranho, de que não era capaz. A Dra K.J. disse que poderia ficar assim mais 10h e não dilatar, nunca saberíamos como o corpo iria reagir. Infelizmente, não tínhamos essas 10h para esperar em total segurança. 15 minutos depois, a epidural. Estava tão triste, senti-me tão impotente e incapaz. O pai disse-me logo que o meu problema não era com a dor mas com a duração desta. Não era humano aguentar mais meio dia assim, que eu tinha tentado e que não me devia sentir triste com isso, pelo contrário. O pai, Guilherme, como sempre nestes 10 anos juntos, não me deixou por um só momento, esteve sempre comigo, apoiou-me, mimou-me. O que eu mais pensava não era nas dores... era no facto de, em Portugal, as mulheres passarem por tudo isto sem o marido, sem o seu apoio. Era na sorte que eu tinha em tê-lo comigo, ali, naquela hora, como em todas as outras...
Após a administração da epidural, as dores passaram. Alívio? Sim... mas o que aí vinha eu não sabia. As pernas dormentes, muitos vómitos e o cateter na bexiga pois já não tinha a liberdade de movimentos que tive até então. Às 9 da manhã estava apenas com 2 cm de dilatação. O meu corpo não tinha reagido como eu gostaria. Tal como a médica disse, se ao menos eu não tivesse a bactéria, se as águas não tivessem rebentado, poderia ter feito o pré-parto em casa, calmamente, como eu gostaria. Mas elogiou a minha “open mind”, o facto de não estar limitada às minhas expectativas e de aceitar ouvir as opções que existiam. Penso que numa altura como esta, a única coisa em que pensamos é na tua segurança. Nunca me tentaram impor nada, sempre respeitaram a nossa vontade sem sugestões desnecessárias. Às 10h20 as contracções duravam cerca de 90 segundos e o intervalo era pequeno. Mesmo com a epidural, sentia dores. A Dra G.G., quem assistiria ao teu nascimento, examinou-me e concluiu que estava com 3 cm de dilatção, tinha dilatado 1 cm na última hora. O corpo começara a reagir e, dado que estavas bem, sugeriu esperarmos até às 12h30. Por esta altura, tinha dilatado mais 1 cm e às 13 estava já com 8 cm de dilatação. Ela mesmo disse que o seu objectivo, naquele momento, para além da nossa segurança, era evitar a cesariana e respeitar a minha vontade de parto natural... as long as possible and safe. Por isto, muito lhe agradeço.
Até às 14h30 tive imensos enjoos e algumas dores. Eu não queria aumentar a dose de anestesia, já me custava imenso pensar que te tinha sujeito a esta. Passados 5 minutos, verificaram que estava completamente dilatada e como ainda faltavam alguns sinais de que estaria pronta para o pushing, sugeriu-me descansar durante uma hora. Ainda estavas subido e havia que esperar um pouco mais. Nessa hora, o meu corpo tomou conta de mim... começei a tremer mesmo sem sentir frio, algo completamente incontrolável e nunca visto por nós. Em determinadas alturas, o pai agarrava-me, abraçava-me para me confortar e que bem me senti por tê-lo ali comigo. 20 minutos depois, a pressão e a vontade de puxar... estava na altura.
Começamos aquela que pensámos ser a última parte desta viagem. Puxei com convicção durante a primeira hora e, com os sinais de cansaço, alguns momentos para descansar. Foram buscar um espelho para me mostrarem o que estava a acontecer e me mostrarem que seria capaz. Já com poucas forças, no momento em que vi a tua cabecinha e o teu cabelo negro, as energias voltaram. Não sei de onde, não sei como, sei apenas que pensava estar tão perto de te ter connosco. Puxei até às 17h30 mas sem grandes avanços para minha desilusão. Sempre que puxava, víamos a tua cabecinha mas nos intervalos das contracções, subias de novo. Segundo a Dra G. G., não estavas de frente para o canal de parto, estarias ligeiramente na diagonal e com a tua carinha virada para cima, coisa que dificultava o teu encaixe. Disse-me que eu já tinha feito o que era possível e que, embora a decisão continuasse a ser minha, sentia-se na obrigação de sugerir a cesariana. O trabalho de parto tinha começado há 34h e a tua segurança continuava a ser a nossa prioridade. Assenti, um pouco triste mas conformada. Mesmo tendo tomado esta decisão juntamente com o pai, não me arrependo de ter tentado e ter passado pelo longo trabalho de parto... senti o poder que o nosso corpo tem, o quanto não é possível controlá-lo. Aprendi muito sobre mim e sobre nós. E sim, passaria por tudo de novo, mesmo sabendo que resultaria na cesariana. Penso que a evolução do parto também foi importante para ti e te preparou para estares aqui connosco.
Às 18h14 começou a cirurgia e nasceste às 18h29 do dia 1 de Janeiro com 2.825 Kg (6 lb e 3.6 oz) e com 51 cm (20 inches). Pouco depois de nasceres, uma enfermeira perguntou-me o que tinha tido... respondi “não sei” e ficou, incrédula, a olhar para mim. Ouvir “your baby is fine" foi suficiente e confesso que nem me lembrei, até então, de perguntar se eras um menino ou uma menina. A Dra G. G. perguntou, também ela incrédula, se eu não sabia já o que tinha tido... “you have a boy!” deixou-nos surpreendidos e felizes. A cara do pai quando ouviu que eras um rapaz é algo de que nunca me esquecerei. Incrédulo, pois pensava que serias uma menina, mas tão feliz... pouco depois trouxe-te para eu te ver e dar o primeiro dos muitos beijos que te dou diariamente. Deves mesmo pensar que sou uma chata, não te largo essas bochechas. Mas não resisto aos beijos e ao teu cheiro. Incontrolável.
Às 19h05 já estava tudo terminado e às 19h30 já estávamos no quarto, momento em que liguei aos teus avós em Portugal e às tias que estavam em nossa casa, à espera de notícias.
O teu parto não foi como eu esperava que fosse, como eu o idealizei. Mas foi seguro, a nossa vontade foi sempre respeitada e fomos sempre nós a decidir o próximo passo. Nunca nos foi imposto nada, sugerido algo que fosse contra a nossa vontade de parto natural e a nossa segurança foi sempre a prioridade.
Após 35h de trabalho de parto, chegaste!
Acho que nunca teremos outra passagem de ano tão intensa e feliz quanto esta. A partir deste dia, passámos a ser 3, a nossa família está mais completa e mais feliz. Neste exacto momento, completas 2 semanas de vida e cada vez te amo mais. Pensava que te amava muito, impossível amar-te mais quando nasceste. Não era verdade... este amor cresce todos os dias, contigo, connosco.
Amo-te tanto que chega a doer...
Mãe
Ana Rangel
Massachussets - U.S.A.
