O Nascimento do Benjamim
Na 1ª sexta-feira depois da DPP (6 dias depois) aproveitámos a manhã para ficar na cama na preguiça saborosa, adivinhando que era a nossa última manhã antes do Benjamim nascer. Tinhamos decidido ir dar um passeio a Sintra, mas como a parteira queria auscultar mais uma vez o bater do coração do bébé, fomos ao seu encontro acabando por fazer-se tarde. Disse-lhe que estava com dores como as do periodo no pior dia, mas não lhe disse que achava que estava para tão breve. Para não arriscarmos ficar presos na estrada à hora de ponta, fomos antes passear para o pé do rio e mesmo assim quase não chegavamos a tempo do pôr-do-Sol. Ainda na cama, ao meio-dia, tinha sentido uma contração bem forte e agora elas seguiam-se bastante regulares não muito dolorosas, mas certeiras. Percorremos a avenida ao longo do rio em direcção ao Pôr-do-Sol e lembrei-me de cantar uma canção doce* sobre uma menina que nasceu quando a lua estava em caranguejo, como estava quando eu nasci e como estava nesta noite em que também o meu filho ia nascer e tornar-se distinto do grande oceano. Algumas lágrimas foram enchendo os meus olhos enquanto serenamente eu aceitava voltar por uma noite ao antigo estado líquido. Quando chegámos parecia que o Sol, já quase vermelho, se derretia por cima da água. Experimentámos fazer respirações com sons, que tinhamos aprendido no fim-de-semana de yoga para grávidas. O Chico abraçado a mim de modo a que os nossos dois pares de mãos ficavam sobre a barriga a vibrar, enquanto ensaiavamos o movimento do infinito no eixo de equilibrio comum. Depois de ter visto o sol pelo que achei ser a última vez antes de ser mãe, a noite encheu-se de promessa vibrante plena de qualidades novas…caminhámos um bocadinho em direcção a um quiosque e experimentei baixar-me de cócoras durante uma contracção que se tinha tornado forte, olhando a superfície da água. Gostei de ver que as pessoas estavam a ficar com frio e a recolher. Nós bebemos chocolate quente e fomos os últimos a sair da esplanada. Tudo corria bem, mas comecei a duvidar se o próximo passo do plano – o jantar hot no indiano – ainda seria boa ideia. Por fim desistimos e seguimos para casa. Quando cheguei ainda telefonei para o restaurante para encomendar take-away, mas não fui capaz de pensar em comida, estava muito mal disposta e o Chico também. Entre contracções, forrei gavetas da cómoda do Benjamim, vomitei duas vezes, evacuei os intestinos e depois fui tentar dormir. O Chico arranjou mais espaço nuns degraus da sala e decorou-os com uns desenhos tradicionais de animais africanos, mas com a preocupação crescente de estarmos com uma intoxicação alimentar as dores foram aparecendo e quando tentei dormir num puff, cada contracção me surpreendia de tal forma que me fazia torcer e espernear. Achei que o mal estar deviam ser nervos e pedi ao Chico para me ajudar a baixar a adrenalina – tinha-lhe contado a história das parteiras que tricotavam ao canto da sala para não transmitirem a sua adrenalina às parturientes– e ele pôs-se a desenhar uma vila ou cidade imaginada com infinitos telhadinhos que ia fazendo calmamente sentado num degrau da sala. Enquanto isto cronometrávamos as contracções. Já eram muito fortes durante 45 seg. com minuto e meio de intervalo e eu lutava para as suportar. Aos poucos fui tomando coragem, relaxando e encontrando-me na natureza entre cada contracção – foi um grande passo activo no nascimento deste indiozinho – repeitar a natureza, humildemente aceitar o seu poder e deixar-me fluir vivendo o presente. Acendi umas velinhas, pus um CD com mantras indianos e acompanhei o canto. Não lutei mais para tentar suportar a dôr, em vez disso aceitei-a, escrutinei-a, via sob diferentes angulos e passei a aplicar o que aprendi no Yoga: Focar a mente na respiração, na abertura do corpo e deixar a vida acontecer , usar a inspiração e a expiração para varrer o corpo com energia nova. Ainda pedi para ele avisar a Doula Ângela e a Parteira, acerca da proximidade das contracções, mas se calhar não fui muito convincente…e de qualquer maneira queria que elas estivessem preparadas, mas ainda não ali ao pé de mim, de forma a poder ir fazendo a dilatação sozinha. Pedi uma massajem nas costas ao Chico, e pouco depois, cerca das 9 da noite senti que o rolhão se desprendia , mandei um sms à Ângela e fui à casa de banho – Sentia um grande peso na região da vagina e preocupei-me, até que percebi que estava a entrar pelo caminho do medo. Como era fácil perder a estribeira! Senti-me muito agradecida por ter tido consciência disto e voltei a concentrar-me na vida de cada momento - já que na prática nada mais existe. Durante uma contracção pus-me de cócoras e na expiração experimentei visualizar a abertura do colo como um sol em espiral amarelo a crescer – outra proposta do yoga - e o rolhão caiu do tamanho de um ovo, no chão. Pensei também em deixar esse Sol iluminar a passagem do pequeno ser que vinha aí…
Lá fora o Chico resolvera cozinhar e de vez em quando espreitou e perguntou-me se estava bem, mas eu só respondi por sinais que não queria falar… depois tentei sentir o que se estava a passar na região da vagina que se tinha tornado ainda mais pesada e pareceu-me que a cabeça do bébé estava mesmo ali. Chamei-o e telefonamos à parteira (que não estava longe de nossa casa) e expliquei-lhe que me parecia sentir a cabeça do bébé, que estava com vontade de evacuar, mas cheia de medo de fazer força. Ela disse que vinha já. Logo depois rebentaram as águas, fiquei muito mais leve e aliviada, telefonámos à Doula Ângela que disse que vinha já ter connosco e quando a parteira chegou, perto da meia-noite fez-me o toque e anunciou-me que a dilatação estava completa. Fiquei muito feliz. A partir deste ponto não sei muito bem o que se passou. A Ângela chegou pouco depois e ajudou-me a despir a saia, pôs uns plásticos no chão da sala perto do sofá onde eu queria que fosse o parto e muitas outras coisas que eu só sentia acontecerem. (Tinhamos uma mesa preparada com toalhas para acolher o bébé, plásticos e outros materiais necessários e a parteira tinha o seu material numa mala e caixas com tudo o que seria preciso em caso de urgência. Estava também um papel na parede com numeros de telefone do hospital, os papeis, documentos e chaves do carro, assim como as malas para o eventualidade de termos que ir para o hospital D.Estefânia onde eu já estava referenciada.) A parteira estava um bocado surpreendida com a rapidez do desenvolvimento do TP e não teve tempo para preparar as coisas todas como queria, as contracções agora eram arrebatadoras e eu queria estar com atenção ao mesmo tempo ao que se passava à minha volta e dentro de mim o que resultava em alguma confusão. A realidade entretanto tomava um novo peso na minha vida porque comentei que só nesse momento me estava a mentalizar que ia mesmo ter um filho. Fui continuando a mudar de posição, para acomodar a intensidade e acolher as contracções. Sentei-me na bola, pus-me de gatas, apoiei-me no sofá e no Chico. Continuamos a ouvir música suave. O Chico acabaria por se sentar e suportar todo o meu peso quando me pus de cócoras no chão de costas para ele com os braços por cima dos seus joelhos. Foi assim que se passou o periodo expulsivo do parto que deve ter durado uns 20 minutos no máximo. Durante algumas contracções suspendia-me no ar e fazia movimentos do infinito com a bacia, na maior parte expiravamos com os sons que saíam, como quando vimos o Sol descer para distrair da dôr - e a parteira lembrava essa respiração quando nos esquecíamos de a fazer . A certa altura eu não sabia bem o que tinha que fazer porque sentia a descida do bébé, mas não percebia bem se devia ou não fazer força por isso deixei-me ver o que acontecia, até que a parteira sugeriu que eu despisse mais roupa. Tinha-me deixado estar semi-consciente, esquecido algumas sensações como o calor, e aproveitei para tirar as meias, “acordar” e enraizar-me mais no chão. Senti-me refeita e desperta e perguntei-lhe o que se ia passar daí em diante - como que para dizer que estava pronta, ao que ela, entrando no jogo, respondeu que continuávamos. Empurrei quando queria, embora não percebesse muito bem se era o melhor e a certa altura pediu-me para não empurrar durante uma contracção e saiu-me a respiração ofegante de cão que eu não tinha planeado porque pode ser irritante, mas foi o que saiu e funcionou…Nas últimas contracções pediu-me para fazer respirações abdominais para oxigenar o bébé. Gostei especialmente quando me pediu para empurrar só um bocadinho e eu conseguir fazê-lo empurrando o diafragma para baixo enquanto enchia os pulmões muito controladamente. Um dos momentos mais bonitos foi o pontapé no fundo do útero que deu o Benjamim mesmo antes de sair já com a cabeça quase de fora, e eu peguei uma última vez na mão do Chico para ele sentir o movimento.
Depois tive que esquecer se os vizinhos iam ouvir (ninguém se chegou a queixar), fechei os olhos e dei um grito kamikaze na última contracção para dar coragem. Só abri os olhos quando ouvi o choro do meu filho para além do meu grito, vi o Chico que chorava, a parteira e a doula sorriam e o Benjamim no chão preso a mim pelo cordão. Tive que voltar a olhar todos os presentes e admirar o Benjamim e a rapidez do parto, e como estava assim neste estado de encantamento, a parteira teve que me dizer para tirar a t-shirt, pegar nele e pô-lo contra o meu peito e era assim tão pequenino e tão puro e tão novo ao pé de nós, que nem consegui escolher se rir ou chorar como forma de celebrar e só senti gratidão e muita curiosidade. Olhavamo-nos enquanto o cordão ia parando de pulsar, mas o Benjamim não parava de chorar talvez porque eu estar a apertar o cordão com o meu braço, sem querer. Depois do cordão quase parar de pulsar ofereceu ao Chico a tesoura para cortar, mas ele preferiu não o fazer, por isso cortou ela. A Ângela tirou a nossa primeira fotografia de família. Depois de algum tempo assim, a parteira foi puxando a placenta pelo cordão, que saiu inteira sem resistência e daí a pouco pesou o Benjamim (3510kg) e mediu-o (51cm).
Fez os testes de Apgar enquanto a Ângela me ajudava a limpar e o meu queixo batia descontroladamente talvez ainda por causa do último rush de adrenalina. Os músculos das costas do Chico deviam doer por causa da força que teve de fazer para me suportar durante todo o periodo expulsivo. Eu tinha lacerado o períneo um bocado porque o Benjamim tinha a mão na bochecha quando saíu e a parteira deu-me 4 pontos depois de aplicar uma anestesia em spray. Já na cama pusémos o Benjamim no meu peito e ajudaram-me a dar-lhe mama, e embora eu não visse colostro nenhum disseram para persistir porque ele estar a sugar ia ajudar a subir, além de ajudar o útero a contrair - isso senti imediatamente. O Benjamim dormiu muito bem e nós ficámos por ali a gravitar quase até de manhã a falar sobre todas estas maravilhas. * Little Green de Joni Mitchell
Mariana Ferreira
Lisboa - Portugal
Na 1ª sexta-feira depois da DPP (6 dias depois) aproveitámos a manhã para ficar na cama na preguiça saborosa, adivinhando que era a nossa última manhã antes do Benjamim nascer. Tinhamos decidido ir dar um passeio a Sintra, mas como a parteira queria auscultar mais uma vez o bater do coração do bébé, fomos ao seu encontro acabando por fazer-se tarde. Disse-lhe que estava com dores como as do periodo no pior dia, mas não lhe disse que achava que estava para tão breve. Para não arriscarmos ficar presos na estrada à hora de ponta, fomos antes passear para o pé do rio e mesmo assim quase não chegavamos a tempo do pôr-do-Sol. Ainda na cama, ao meio-dia, tinha sentido uma contração bem forte e agora elas seguiam-se bastante regulares não muito dolorosas, mas certeiras. Percorremos a avenida ao longo do rio em direcção ao Pôr-do-Sol e lembrei-me de cantar uma canção doce* sobre uma menina que nasceu quando a lua estava em caranguejo, como estava quando eu nasci e como estava nesta noite em que também o meu filho ia nascer e tornar-se distinto do grande oceano. Algumas lágrimas foram enchendo os meus olhos enquanto serenamente eu aceitava voltar por uma noite ao antigo estado líquido. Quando chegámos parecia que o Sol, já quase vermelho, se derretia por cima da água. Experimentámos fazer respirações com sons, que tinhamos aprendido no fim-de-semana de yoga para grávidas. O Chico abraçado a mim de modo a que os nossos dois pares de mãos ficavam sobre a barriga a vibrar, enquanto ensaiavamos o movimento do infinito no eixo de equilibrio comum. Depois de ter visto o sol pelo que achei ser a última vez antes de ser mãe, a noite encheu-se de promessa vibrante plena de qualidades novas…caminhámos um bocadinho em direcção a um quiosque e experimentei baixar-me de cócoras durante uma contracção que se tinha tornado forte, olhando a superfície da água. Gostei de ver que as pessoas estavam a ficar com frio e a recolher. Nós bebemos chocolate quente e fomos os últimos a sair da esplanada. Tudo corria bem, mas comecei a duvidar se o próximo passo do plano – o jantar hot no indiano – ainda seria boa ideia. Por fim desistimos e seguimos para casa. Quando cheguei ainda telefonei para o restaurante para encomendar take-away, mas não fui capaz de pensar em comida, estava muito mal disposta e o Chico também. Entre contracções, forrei gavetas da cómoda do Benjamim, vomitei duas vezes, evacuei os intestinos e depois fui tentar dormir. O Chico arranjou mais espaço nuns degraus da sala e decorou-os com uns desenhos tradicionais de animais africanos, mas com a preocupação crescente de estarmos com uma intoxicação alimentar as dores foram aparecendo e quando tentei dormir num puff, cada contracção me surpreendia de tal forma que me fazia torcer e espernear. Achei que o mal estar deviam ser nervos e pedi ao Chico para me ajudar a baixar a adrenalina – tinha-lhe contado a história das parteiras que tricotavam ao canto da sala para não transmitirem a sua adrenalina às parturientes– e ele pôs-se a desenhar uma vila ou cidade imaginada com infinitos telhadinhos que ia fazendo calmamente sentado num degrau da sala. Enquanto isto cronometrávamos as contracções. Já eram muito fortes durante 45 seg. com minuto e meio de intervalo e eu lutava para as suportar. Aos poucos fui tomando coragem, relaxando e encontrando-me na natureza entre cada contracção – foi um grande passo activo no nascimento deste indiozinho – repeitar a natureza, humildemente aceitar o seu poder e deixar-me fluir vivendo o presente. Acendi umas velinhas, pus um CD com mantras indianos e acompanhei o canto. Não lutei mais para tentar suportar a dôr, em vez disso aceitei-a, escrutinei-a, via sob diferentes angulos e passei a aplicar o que aprendi no Yoga: Focar a mente na respiração, na abertura do corpo e deixar a vida acontecer , usar a inspiração e a expiração para varrer o corpo com energia nova. Ainda pedi para ele avisar a Doula Ângela e a Parteira, acerca da proximidade das contracções, mas se calhar não fui muito convincente…e de qualquer maneira queria que elas estivessem preparadas, mas ainda não ali ao pé de mim, de forma a poder ir fazendo a dilatação sozinha. Pedi uma massajem nas costas ao Chico, e pouco depois, cerca das 9 da noite senti que o rolhão se desprendia , mandei um sms à Ângela e fui à casa de banho – Sentia um grande peso na região da vagina e preocupei-me, até que percebi que estava a entrar pelo caminho do medo. Como era fácil perder a estribeira! Senti-me muito agradecida por ter tido consciência disto e voltei a concentrar-me na vida de cada momento - já que na prática nada mais existe. Durante uma contracção pus-me de cócoras e na expiração experimentei visualizar a abertura do colo como um sol em espiral amarelo a crescer – outra proposta do yoga - e o rolhão caiu do tamanho de um ovo, no chão. Pensei também em deixar esse Sol iluminar a passagem do pequeno ser que vinha aí…
Lá fora o Chico resolvera cozinhar e de vez em quando espreitou e perguntou-me se estava bem, mas eu só respondi por sinais que não queria falar… depois tentei sentir o que se estava a passar na região da vagina que se tinha tornado ainda mais pesada e pareceu-me que a cabeça do bébé estava mesmo ali. Chamei-o e telefonamos à parteira (que não estava longe de nossa casa) e expliquei-lhe que me parecia sentir a cabeça do bébé, que estava com vontade de evacuar, mas cheia de medo de fazer força. Ela disse que vinha já. Logo depois rebentaram as águas, fiquei muito mais leve e aliviada, telefonámos à Doula Ângela que disse que vinha já ter connosco e quando a parteira chegou, perto da meia-noite fez-me o toque e anunciou-me que a dilatação estava completa. Fiquei muito feliz. A partir deste ponto não sei muito bem o que se passou. A Ângela chegou pouco depois e ajudou-me a despir a saia, pôs uns plásticos no chão da sala perto do sofá onde eu queria que fosse o parto e muitas outras coisas que eu só sentia acontecerem. (Tinhamos uma mesa preparada com toalhas para acolher o bébé, plásticos e outros materiais necessários e a parteira tinha o seu material numa mala e caixas com tudo o que seria preciso em caso de urgência. Estava também um papel na parede com numeros de telefone do hospital, os papeis, documentos e chaves do carro, assim como as malas para o eventualidade de termos que ir para o hospital D.Estefânia onde eu já estava referenciada.) A parteira estava um bocado surpreendida com a rapidez do desenvolvimento do TP e não teve tempo para preparar as coisas todas como queria, as contracções agora eram arrebatadoras e eu queria estar com atenção ao mesmo tempo ao que se passava à minha volta e dentro de mim o que resultava em alguma confusão. A realidade entretanto tomava um novo peso na minha vida porque comentei que só nesse momento me estava a mentalizar que ia mesmo ter um filho. Fui continuando a mudar de posição, para acomodar a intensidade e acolher as contracções. Sentei-me na bola, pus-me de gatas, apoiei-me no sofá e no Chico. Continuamos a ouvir música suave. O Chico acabaria por se sentar e suportar todo o meu peso quando me pus de cócoras no chão de costas para ele com os braços por cima dos seus joelhos. Foi assim que se passou o periodo expulsivo do parto que deve ter durado uns 20 minutos no máximo. Durante algumas contracções suspendia-me no ar e fazia movimentos do infinito com a bacia, na maior parte expiravamos com os sons que saíam, como quando vimos o Sol descer para distrair da dôr - e a parteira lembrava essa respiração quando nos esquecíamos de a fazer . A certa altura eu não sabia bem o que tinha que fazer porque sentia a descida do bébé, mas não percebia bem se devia ou não fazer força por isso deixei-me ver o que acontecia, até que a parteira sugeriu que eu despisse mais roupa. Tinha-me deixado estar semi-consciente, esquecido algumas sensações como o calor, e aproveitei para tirar as meias, “acordar” e enraizar-me mais no chão. Senti-me refeita e desperta e perguntei-lhe o que se ia passar daí em diante - como que para dizer que estava pronta, ao que ela, entrando no jogo, respondeu que continuávamos. Empurrei quando queria, embora não percebesse muito bem se era o melhor e a certa altura pediu-me para não empurrar durante uma contracção e saiu-me a respiração ofegante de cão que eu não tinha planeado porque pode ser irritante, mas foi o que saiu e funcionou…Nas últimas contracções pediu-me para fazer respirações abdominais para oxigenar o bébé. Gostei especialmente quando me pediu para empurrar só um bocadinho e eu conseguir fazê-lo empurrando o diafragma para baixo enquanto enchia os pulmões muito controladamente. Um dos momentos mais bonitos foi o pontapé no fundo do útero que deu o Benjamim mesmo antes de sair já com a cabeça quase de fora, e eu peguei uma última vez na mão do Chico para ele sentir o movimento.
Depois tive que esquecer se os vizinhos iam ouvir (ninguém se chegou a queixar), fechei os olhos e dei um grito kamikaze na última contracção para dar coragem. Só abri os olhos quando ouvi o choro do meu filho para além do meu grito, vi o Chico que chorava, a parteira e a doula sorriam e o Benjamim no chão preso a mim pelo cordão. Tive que voltar a olhar todos os presentes e admirar o Benjamim e a rapidez do parto, e como estava assim neste estado de encantamento, a parteira teve que me dizer para tirar a t-shirt, pegar nele e pô-lo contra o meu peito e era assim tão pequenino e tão puro e tão novo ao pé de nós, que nem consegui escolher se rir ou chorar como forma de celebrar e só senti gratidão e muita curiosidade. Olhavamo-nos enquanto o cordão ia parando de pulsar, mas o Benjamim não parava de chorar talvez porque eu estar a apertar o cordão com o meu braço, sem querer. Depois do cordão quase parar de pulsar ofereceu ao Chico a tesoura para cortar, mas ele preferiu não o fazer, por isso cortou ela. A Ângela tirou a nossa primeira fotografia de família. Depois de algum tempo assim, a parteira foi puxando a placenta pelo cordão, que saiu inteira sem resistência e daí a pouco pesou o Benjamim (3510kg) e mediu-o (51cm).
Fez os testes de Apgar enquanto a Ângela me ajudava a limpar e o meu queixo batia descontroladamente talvez ainda por causa do último rush de adrenalina. Os músculos das costas do Chico deviam doer por causa da força que teve de fazer para me suportar durante todo o periodo expulsivo. Eu tinha lacerado o períneo um bocado porque o Benjamim tinha a mão na bochecha quando saíu e a parteira deu-me 4 pontos depois de aplicar uma anestesia em spray. Já na cama pusémos o Benjamim no meu peito e ajudaram-me a dar-lhe mama, e embora eu não visse colostro nenhum disseram para persistir porque ele estar a sugar ia ajudar a subir, além de ajudar o útero a contrair - isso senti imediatamente. O Benjamim dormiu muito bem e nós ficámos por ali a gravitar quase até de manhã a falar sobre todas estas maravilhas. * Little Green de Joni Mitchell
Mariana Ferreira
Lisboa - Portugal
