O Nascimento do Alexandre
19 de Agosto de 2005
Chamo-me Cristina, moro na Figueira da Foz e fui mãe do Alexandre em 19 de Agosto de 2005. Antes tinha muito medo do parto talvez por causa das experiências contadas por muitas mulheres entre as quais a minha mãe. Um dia ao pesquisar numa livraria por um livro que falasse de PCO (síndrome de ovários poliquísticos), descubro aquele que desde então tem sido o meu livro de cabeceira e o meu guia para viver melhor: "Corpo de mulher sabedoria de mulher" da ginecologista Christiane Northrup. Com ele aprendi como o nosso corpo é poderoso e preparado para muitas coisas, entre as quais parir. A minha visão acerca do parto mudou radicalmente, onde antes havia medo, agora havia poder e vontade de parir sem epidural, sem cesariana, sem oxitocina sintética e se possível sem episiotomia.
Decidimos que ia deixar de tomar a pílula no início do ano de 2004. Em meados de Julho de 2004 tive a feliz notícia, estava grávida, mas infelizmente as coisas não correram bem uma vez que foi confirmado à 7ª semana de gestação que se tratava de uma gravidez anembrionada vulgarmente chamada de ovo cego. Como ficou retido tive que fazer uma curetagem uma semana e meia depois dessa consulta. Nunca me irei esquecer, senti-me revoltada com o meu corpo, traída na minha fertilidade e na minha tão grande vontade de ser mãe.
A felicidade voltou no Natal. Passei os 9 meses de gravidez a preparar-me para o grande dia, sem ansiedades e com muita vontade de fazer nascer o meu filho o mais naturalmente possível. Frequentei aulas de preparação para o parto e durante toda a gravidez procurei caminhar o mais possível e fazer uma alimentação o mais adequada possível. Não queria que induzissem o parto e quando entrei em trabalho de parto fiquei em casa até achar que realmente tinha mesmo que ir.
O rolhão começou a sair uma semana antes do parto. No dia 18 de Agosto, de manhã, fui fazer um CTG à maternidade. Fizeram-me um toque e estava já com o colo 50% apagado e 3 cm de dilatação. Viemos para casa e eu comecei a sentir logo uma moinha no fundo da barriga mas achei que deveria ter sido do toque. Por volta da meia-noite do dia 18 de Agosto as contracções começaram a ser ritmadas de meia em meia hora. Quando iniciei o trabalho de parto senti-me a mulher mais linda, mais poderosa e mais feliz do mundo, estava calma. Às duas da manhã ficaram mesmo dolorosas, o meu marido ajudou-me a relaxar, apeteceu-me tomar um banho de água quente e disse ao meu marido que fosse descansar. Senti as contracções todas na zona lombar. Deitei-me às 4 da manhã, depois de vir do WC e no meio de uma contracção agora com intervalos cada vez menores, senti líquido a sair mas como era pouco e eu era inexperiente, disse com um sorriso ao meu marido: estou a ficar incontinente com estas dores... Voltei para o banho, desta vez duche, jactos de água quentíssimos junto à zona lombar, só me apetecia estar no banho ou de gatas ou tipo como os muçulmanos oram. Às 6:00 da manhã voltei a ter outra perda de líquido e foi aí que eu pensei que talvez me tivesse rebentado as águas. Fui tomar o pequeno-almoço, tentei sentar-me e não consegui devido ao desconforto da dor. Chamei o meu marido e disse-lhe que o Alexandre iria nascer hoje. Tomei outro duche calmamente, tentei comer algo e lá fomos para a maternidade. Nunca uma viagem me pareceu tão longa, a turbulência provocada pelo piso irregular aumentava a frequência das contracções e a intensidade. Quando vinha uma o meu marido quase que tinha de parar o carro. Quando chegámos à maternidade tinha já 9 horas de trabalho de parto, 5cm de dilatação e saco roto. Dei entrada nas urgências e fui atendida por uma enfermeira fantástica que esteve sempre ao meu lado, ajudou-me com a respiração, ia conversando comigo, até massagens me quis fazer e tive também o meu marido sempre ao meu lado. Por volta das 13h tinha a dilatação completa. Estive em período expulsivo cerca de 1 hora mas o meu filho não desceu e a obstetra de serviço resolveu fazer uma cesariana. Segundo a minha médica que estava de serviço no bloco operatório, o Alexandre não estava bem posicionado, tinha a cabeça de lado. Eu estava preparada para tudo menos para uma cesariana fosse com que tipo de anestesia fosse. Sinto cá dentro que não me deixaram parir, sei que posso estar a ser injusta e realmente não ter havido hipótese do meu filho nascer naturalmente mas a maneira como fui encaminhada para a cesariana foi muito impessoal, muito mecânica, nada me foi explicado. A médica não me falou sequer, fez um gesto negativo com a cabeça para a enfermeira (eu na altura nem entendi o que ela queria dizer) e saiu da sala. Soube pela enfermeira que sempre muito simpática e meiga me disse: custa-me tanto vê -la ir para cesariana depois de um trabalho de parto destes, vamos fazer força as duas mais uma vez? Bem força fiz mas não consegui que ele nascesse e lá fui para cesariana com anestesia geral. Foi horrível acordar, não conseguia respirar, só via sombras, não conseguia falar, pensei que ia morrer. Vi o meu filho mais de 1 hora depois de ter nascido, perdi o seu primeiro grito ao mundo, perdi a visão do órgão que o alimentou durante 9 meses, perdi o maior acontecimento da minha vida. Tenho uma frustração muito muito grande. Fiquei conhecida na maternidade como a senhora que queria um parto normal. Para me consolar diziam-me que tinha feito o trabalho de parto todo, que me tinha portado muito bem, que tinha tido uma experiência 2 em 1. O Alexandre nasceu às 14h10min, com 3160gr, 49.50cm de comprimento e 34.5cm de perímetro cefálico. O momento em que o meu marido me trouxe o Alexandre e o vi pela primeira vez foi mágica, se fechar os olhos ainda consigo sentir o cheirinho da pele dele, o calor que fazia, a emoção que senti. Chorei, chorei muito de felicidade, de os ver aos dois juntos, de saber que ele estava bem, de sentir amor por todo o lado. Por volta das 5.40h da tarde dei-lhe de mamar pela primeira vez, o pai deu-lhe um biberão logo após o nascimento. Foi maravilhoso vê-lo e senti-lo a mamar, é uma sensação única, é um elo que se cria, é uma passagem de amor e carinho, é como se o cordão umbilical nunca tivesse sido cortado, é um momento só nosso de pura intimidade e que ainda temos. A recuperação da cesariana foi horrível, ao fim de um mês ainda mal me conseguia mexer. Ainda hoje de vez em quando sinto dor na cicatriz, levei 24 agrafos. Adorei ter estado em trabalho de parto, é uma sensação indescritível apesar da dor e espero repetir. Senti-me e sinto-me poderosa e muito feliz por ter tido o privilégio de colocar alguém no mundo mas tenho muita tristeza e frustração de não o ter sentido passar pelo meu corpo, de não o ter sentido deslizar para o mundo, de não ter ouvido o seu primeiro choro como que a dizer estou aqui. Fica a dor de uma experiência tão desejada mas perdida. Tenho desgosto e uma frustração enorme de não ter tido um parto natural, de ter estado inconsciente no momento mais importante da minha vida. Fiz uma depressão pós parto devido a esta experiência não desejada. Quando falo da minha depressão e do que me levou a ela algumas pessoas olham-me como se fosse um animal estranho e ate me perguntam: Mas tu querias um filho ou querias parir? Eu respondo que queria muito as duas coisas. Não conseguem perceber a tristeza que sinto de não ter estado presente no momento mais importante da minha vida e custa-me muito aceitar esta realidade.
A nossa estadia na maternidade correu bem, foram todos muito atenciosos, carinhosos e sempre disponíveis para tudo, pelo que agradeço a todos que nos acompanharam durante a nossa estadia na maternidade. Desta experiência só lamento a cesariana que não desejava de maneira nenhuma e o modo como fui encaminhada para ela, pois penso que merecia ter ouvido da médica antes ou então depois da intervenção o que tinha acontecido.
Para finalizar, quero dizer que o próximo parto vai ter um final diferente porque eu estou diferente, porque se antes já queria um parto natural, agora ainda quero mais. A menos que seja de todo impossível parir naturalmente vou fazer valer a minha vontade. Sei que vai ser difícil porque existem muitos obstetras que infelizmente seguem o lema "uma vez cesariana sempre cesariana". Sei que há mínima dificuldade serei encaminhada novamente para cesariana mas vou tentar novamente ter um parto natural. Vou esperar o tempo que for preciso para restabelecer o meu útero e vou encontrar um obstetra que partilhe da minha opinião. Ter um filho é maravilhoso.
Cristina
Agosto de 2005 – Figueira da Foz - Portugal
19 de Agosto de 2005
Chamo-me Cristina, moro na Figueira da Foz e fui mãe do Alexandre em 19 de Agosto de 2005. Antes tinha muito medo do parto talvez por causa das experiências contadas por muitas mulheres entre as quais a minha mãe. Um dia ao pesquisar numa livraria por um livro que falasse de PCO (síndrome de ovários poliquísticos), descubro aquele que desde então tem sido o meu livro de cabeceira e o meu guia para viver melhor: "Corpo de mulher sabedoria de mulher" da ginecologista Christiane Northrup. Com ele aprendi como o nosso corpo é poderoso e preparado para muitas coisas, entre as quais parir. A minha visão acerca do parto mudou radicalmente, onde antes havia medo, agora havia poder e vontade de parir sem epidural, sem cesariana, sem oxitocina sintética e se possível sem episiotomia.
Decidimos que ia deixar de tomar a pílula no início do ano de 2004. Em meados de Julho de 2004 tive a feliz notícia, estava grávida, mas infelizmente as coisas não correram bem uma vez que foi confirmado à 7ª semana de gestação que se tratava de uma gravidez anembrionada vulgarmente chamada de ovo cego. Como ficou retido tive que fazer uma curetagem uma semana e meia depois dessa consulta. Nunca me irei esquecer, senti-me revoltada com o meu corpo, traída na minha fertilidade e na minha tão grande vontade de ser mãe.
A felicidade voltou no Natal. Passei os 9 meses de gravidez a preparar-me para o grande dia, sem ansiedades e com muita vontade de fazer nascer o meu filho o mais naturalmente possível. Frequentei aulas de preparação para o parto e durante toda a gravidez procurei caminhar o mais possível e fazer uma alimentação o mais adequada possível. Não queria que induzissem o parto e quando entrei em trabalho de parto fiquei em casa até achar que realmente tinha mesmo que ir.
O rolhão começou a sair uma semana antes do parto. No dia 18 de Agosto, de manhã, fui fazer um CTG à maternidade. Fizeram-me um toque e estava já com o colo 50% apagado e 3 cm de dilatação. Viemos para casa e eu comecei a sentir logo uma moinha no fundo da barriga mas achei que deveria ter sido do toque. Por volta da meia-noite do dia 18 de Agosto as contracções começaram a ser ritmadas de meia em meia hora. Quando iniciei o trabalho de parto senti-me a mulher mais linda, mais poderosa e mais feliz do mundo, estava calma. Às duas da manhã ficaram mesmo dolorosas, o meu marido ajudou-me a relaxar, apeteceu-me tomar um banho de água quente e disse ao meu marido que fosse descansar. Senti as contracções todas na zona lombar. Deitei-me às 4 da manhã, depois de vir do WC e no meio de uma contracção agora com intervalos cada vez menores, senti líquido a sair mas como era pouco e eu era inexperiente, disse com um sorriso ao meu marido: estou a ficar incontinente com estas dores... Voltei para o banho, desta vez duche, jactos de água quentíssimos junto à zona lombar, só me apetecia estar no banho ou de gatas ou tipo como os muçulmanos oram. Às 6:00 da manhã voltei a ter outra perda de líquido e foi aí que eu pensei que talvez me tivesse rebentado as águas. Fui tomar o pequeno-almoço, tentei sentar-me e não consegui devido ao desconforto da dor. Chamei o meu marido e disse-lhe que o Alexandre iria nascer hoje. Tomei outro duche calmamente, tentei comer algo e lá fomos para a maternidade. Nunca uma viagem me pareceu tão longa, a turbulência provocada pelo piso irregular aumentava a frequência das contracções e a intensidade. Quando vinha uma o meu marido quase que tinha de parar o carro. Quando chegámos à maternidade tinha já 9 horas de trabalho de parto, 5cm de dilatação e saco roto. Dei entrada nas urgências e fui atendida por uma enfermeira fantástica que esteve sempre ao meu lado, ajudou-me com a respiração, ia conversando comigo, até massagens me quis fazer e tive também o meu marido sempre ao meu lado. Por volta das 13h tinha a dilatação completa. Estive em período expulsivo cerca de 1 hora mas o meu filho não desceu e a obstetra de serviço resolveu fazer uma cesariana. Segundo a minha médica que estava de serviço no bloco operatório, o Alexandre não estava bem posicionado, tinha a cabeça de lado. Eu estava preparada para tudo menos para uma cesariana fosse com que tipo de anestesia fosse. Sinto cá dentro que não me deixaram parir, sei que posso estar a ser injusta e realmente não ter havido hipótese do meu filho nascer naturalmente mas a maneira como fui encaminhada para a cesariana foi muito impessoal, muito mecânica, nada me foi explicado. A médica não me falou sequer, fez um gesto negativo com a cabeça para a enfermeira (eu na altura nem entendi o que ela queria dizer) e saiu da sala. Soube pela enfermeira que sempre muito simpática e meiga me disse: custa-me tanto vê -la ir para cesariana depois de um trabalho de parto destes, vamos fazer força as duas mais uma vez? Bem força fiz mas não consegui que ele nascesse e lá fui para cesariana com anestesia geral. Foi horrível acordar, não conseguia respirar, só via sombras, não conseguia falar, pensei que ia morrer. Vi o meu filho mais de 1 hora depois de ter nascido, perdi o seu primeiro grito ao mundo, perdi a visão do órgão que o alimentou durante 9 meses, perdi o maior acontecimento da minha vida. Tenho uma frustração muito muito grande. Fiquei conhecida na maternidade como a senhora que queria um parto normal. Para me consolar diziam-me que tinha feito o trabalho de parto todo, que me tinha portado muito bem, que tinha tido uma experiência 2 em 1. O Alexandre nasceu às 14h10min, com 3160gr, 49.50cm de comprimento e 34.5cm de perímetro cefálico. O momento em que o meu marido me trouxe o Alexandre e o vi pela primeira vez foi mágica, se fechar os olhos ainda consigo sentir o cheirinho da pele dele, o calor que fazia, a emoção que senti. Chorei, chorei muito de felicidade, de os ver aos dois juntos, de saber que ele estava bem, de sentir amor por todo o lado. Por volta das 5.40h da tarde dei-lhe de mamar pela primeira vez, o pai deu-lhe um biberão logo após o nascimento. Foi maravilhoso vê-lo e senti-lo a mamar, é uma sensação única, é um elo que se cria, é uma passagem de amor e carinho, é como se o cordão umbilical nunca tivesse sido cortado, é um momento só nosso de pura intimidade e que ainda temos. A recuperação da cesariana foi horrível, ao fim de um mês ainda mal me conseguia mexer. Ainda hoje de vez em quando sinto dor na cicatriz, levei 24 agrafos. Adorei ter estado em trabalho de parto, é uma sensação indescritível apesar da dor e espero repetir. Senti-me e sinto-me poderosa e muito feliz por ter tido o privilégio de colocar alguém no mundo mas tenho muita tristeza e frustração de não o ter sentido passar pelo meu corpo, de não o ter sentido deslizar para o mundo, de não ter ouvido o seu primeiro choro como que a dizer estou aqui. Fica a dor de uma experiência tão desejada mas perdida. Tenho desgosto e uma frustração enorme de não ter tido um parto natural, de ter estado inconsciente no momento mais importante da minha vida. Fiz uma depressão pós parto devido a esta experiência não desejada. Quando falo da minha depressão e do que me levou a ela algumas pessoas olham-me como se fosse um animal estranho e ate me perguntam: Mas tu querias um filho ou querias parir? Eu respondo que queria muito as duas coisas. Não conseguem perceber a tristeza que sinto de não ter estado presente no momento mais importante da minha vida e custa-me muito aceitar esta realidade.
A nossa estadia na maternidade correu bem, foram todos muito atenciosos, carinhosos e sempre disponíveis para tudo, pelo que agradeço a todos que nos acompanharam durante a nossa estadia na maternidade. Desta experiência só lamento a cesariana que não desejava de maneira nenhuma e o modo como fui encaminhada para ela, pois penso que merecia ter ouvido da médica antes ou então depois da intervenção o que tinha acontecido.
Para finalizar, quero dizer que o próximo parto vai ter um final diferente porque eu estou diferente, porque se antes já queria um parto natural, agora ainda quero mais. A menos que seja de todo impossível parir naturalmente vou fazer valer a minha vontade. Sei que vai ser difícil porque existem muitos obstetras que infelizmente seguem o lema "uma vez cesariana sempre cesariana". Sei que há mínima dificuldade serei encaminhada novamente para cesariana mas vou tentar novamente ter um parto natural. Vou esperar o tempo que for preciso para restabelecer o meu útero e vou encontrar um obstetra que partilhe da minha opinião. Ter um filho é maravilhoso.
Cristina
Agosto de 2005 – Figueira da Foz - Portugal
