O Nascimento do Afonso
26 Janeiro de 2006
Era a continuação da concretização de um desejo que constitui a base do nosso projecto de vida: o nosso terceiro filho vinha a caminho, a nossa querida família ia crescer mais um pouco, em todos os sentidos!
A terceira gravidez foi, sem dúvida nenhuma, a mais tranquila, mais harmoniosa e também a que foi vivida de uma forma mais plena e consciente. Depois de tudo o que vi, ouvi, li, meditei e aprendi durante e após o curso de Doulas que frequentei, estava certa de que aquela luz que então se acendera indicava claramente o caminho que EU queria seguir; era tudo o que fazia sentido para mim em termos da vivência de uma gravidez e parto e foi em torno desta nova realidade que fui construindo, com o meu bebé, o percurso mais bonito que até então havia conhecido.
Depois de uma primeira cesariana (por pré-eclampsia), seguida de um parto vaginal (para mim totalmente inesperado e, na altura, não muito desejado), com os novos conhecimentos e sentimentos que experimentava, nada passava na minha mente para além da ideia de que este terceiro filho nasceria de um parto fisiológico absolutamente magnífico e inesquecível.
Ansiava tanto por um parto o mais natural possível que cheguei a sonhar com ele... e foi maravilhoso...!
Durante a gravidez conversei muito com o meu médico que foi sendo convencido aos poucos de que tudo decorreria, de facto, da forma diferente daquela a que estava habituado, desde que o bebé estivesse bem ao longo do trabalho de parto. Procedimentos hospitalares habituais foram excluidos e não haveria lugar para tricotomias, monitorização contínua, occitocina artificial, episiotomia, etc.; eu sabia que a minha vontade seria respeitada e reparei no meu médico um entusiasmo crescente e aumento de expectativa ao longo do tempo e à medida que a hora do nascimento estava a chegar. Esta entrega e entusiasmo surpreenderam-me e sei que se basearam na sua confiança em mim.
Quando fui fazer a ecografia das 34 semanas fiquei surpreendida pelo facto de o bebé estar pélvico mas sabia que ainda daria a volta pois tinha espaço suficiente; para além disso, não é provável que um bebé cefálico nesta fase dê a volta, mas é perfeitamente possível que um pélvico se vire, podendo isto ocorrer até em pleno trabalho de parto.
A verdade é que, ao longo de toda a gravidez, dei por mim muito raras vezes a pensar se alguma coisa poderia correr menos bem relativamente àquele nascimento e, das poucas coisas as que enumerei, a posição do bebé não era uma delas, não constava da lista: era um dado adquirido que o meu bebé estaria na posição ideal quando chegasse a sua hora e eu nem pensava nesse assunto.
As semanas foram passando devagar (e eu a querer que elas passassem ainda mais devagar) e continuava a sentir os pezinhos do meu filho a dar pequenos pontapés mesmo no colo do útero; não tinha dúvidas nenhumas de que continuava pélvico!
Por volta das 36 semanas (o meu primeiro filho nasceu no dia em que completei 37 semanas e o segundo no dia em que completei 38 semanas) comecei a procurar informação sobre técnicas utilizadas para ajudar os bebés a darem a volta e em conversa com o meu médico falámos da hipótese da versão externa – fui ao Hospital de Santa Maria onde uma equipa chefiada por um médico costuma realizá-las, mas quando souberam que tinha uma cesariana no meu historial disseram que era contra-indicação absoluta para este procedimento por risco de ruptura uterina. Optei, então, por tentar os métodos mais caseiros: à noite já só via televisão de joelhos no chão da sala e rabo espetado para o ar, enquanto fazia massagens com movimentos circulares na minha barriga e no meu bebé; experimentei ainda a técnica do quente e do frio e também da música agradável. Às 37 semanas de gravidez comecei a ficar preocupada porque achava que já era boa altura para o bebé se virar pois o espaço era cada vez mais reduzido e a manobra cada vez mais difícil. Passei, então, para técnicas mais alternativas e durante quase duas semanas fiz moxabustão e acupuntura. Tinha a certeza que aquele bebé ainda daria a volta, nem que fosse um daqueles casos raros de bebés que viram quando a mãe se encontra já em trabalho de parto. Até à véspera do nascimento do meu filho fiz diaria e religiosamente as minhas massagens ao períneo e conversei sempre muito com ele para que se sentisse tão seguro e tranquilo como eu me sentia e soubesse que dar a volta era um passo importante para a melhor entrada neste mundo onde todos o esperávamos de braços abertos. Continuava, no entanto, a sentir os seus pequenos pontapés no colo do útero e a sua cabecinha bem junto do meu coração.
Por esta altura já o meu médico falava em cesarianas e datas marcadas, tinha muito medo que eu entrasse em trabalho de parto e houvesse algum problema sério. Propôs-me, então, que marcássemos a cesariana para o dia seguinte após completar as 38 semanas de gestação e eu saí do consultório sem lhe dar nenhuma resposta positiva ou negativa e com o meu coração bem apertado a fazer rolar lágrimas gordas pelo rosto. Foi nesse momento que pela minha mente passou a hipótese de as coisas não correrem como tinha previsto e de ter que repetir uma cesariana, quando planeava um parto o mais natural possível. Começaram, então, a surgir questões na minha cabeça, para as quais não tinha resposta: porque é que este bebé, ao contrário dos outros dois, não se virou na altura em que é mais vulgar isso acontecer? Será que sente que é demasiada responsabilidade para ele eu querer viver tudo de forma tão especial, uma vez que esta vivência representa uma grande mudança na minha vida? Será que o bebé tem medo que o mundo cá fora seja demasiado agressivo para ele e ainda não compreendeu quanto o queremos e amamos? Será que o facto de eu querer viver esta experiência de uma forma indivudualizada – muito centrada apenas em nós os dois - lhe desagrada ? (sempre adorei apreciar os momentos mais importantes da minha vida de forma um pouco solitária) Será que o bebé se sente tão bem dentro de mim que não quer dar nenhum passo no sentido de abandonar o ninho onde está sempre tão seguro, bem juntinho ao meu coração? Será que há alguma coisa que eu esteja a fazer mal ou possa fazer mais? Será que...? Será que...?
Passei uma semana difícil em que tinha que tomar decisões: eu estava grávida de quase 38 semanas, o meu bebé estava pélvico de pés (nem sequer era pélvico completo), o meu médico tinha medo que eu entrasse em trabalho de parto e houvesse prolapso do cordão, queria marcar uma cesariana para muito breve e eu só queria que o bebé nascesse quando se sentisse preparado e que desse a volta, pois sabia que esse era o melhor caminho para ambos. Estava mergulhada num turbilhão de emoções e sentimentos, sem saber muito bem para que lado me virar, mas continuei a fazer todos os procedimentos que conhecia para nos ajudar a seguir caminho num melhor sentido.
Não era capaz de aceder ao conselho do médico; até concebia a hipótese de uma cesariana caso o bebé continuasse na mesma posição, mas não lhe iria impôr um prazo para nascer – essa decisão seria dele e só dele. Embora ligeiramente contrariado, o médico acedeu a esperarmos mais uma semana em que estávamos em contra relógio e eu já pensava que íamos mesmo pertencer àquele grupo mínimo de pessoas que fazem com que o 1% de casos existam na realidade.
O tempo passava e tudo continuava na mesma. Na consulta seguinte o médico disse que a sua proposta final era esperarmos até ao dia seguinte a completar 39 semanas e fazer, então, a cesariana, caso o bebé não desse a volta. O que é que eu ia fazer? O médico que acompanhou as minhas outras gravidezes e nascimentos, que me proporcionou a oportunidade de poder vivenciar um parto vaginal depois de uma cesariana, quando nem eu estava nada segura ou convencida de que isso iria acontecer, que tanta confiança depositou em mim que estava disposto a colocar de parte os seus procedimentos mais habituais e a meu lado viver uma experiência totalmente diferente, aquele médico em quem eu tinha confiança, estava agora a apertar o cerco e eu percebi que já não tinha grandes hipóteses de influenciar a sua decisão. Mudar de médico nesta recta final seria solução?
Chorei muito, mesmo muito. Conversei com o bebé, perguntei-lhe porquê, conversei comigo, perguntei-me porquê e o que iria fazer. Li muito, pesquisei ainda mais e sabia que era um risco, dada a posição invulgar do bebé, tentar o parto vaginal. Caso ele não desse a volta teria que ir para cesariana mas não queria impôr uma data, pois achava importante dar todas as oportunidades àquele bebé até ao último segundo, para além de que conhecia bem as vantagens de deixar que o trabalho de parto se iniciasse espontaneamente e de como era importante vivê-lo. Mas o meu médico não queria esperar eternamente! Decidi aceder e marcar a cesariana para o dia seguinte a completar 39 semanas.
Escrevi, então, uma carta sentimental e sentida para as minhas amigas Doulas pois sabia que elas seriam capazes de compreender como era difícil viver aqueles momentos e suportar aquela angústia. O seu apoio e solidariedade foram preciosos!
Conversei com uma amiga que é também uma mullher sábia e uma Doula perspicaz (obrigada, amiga!) e ela perguntou-me se não gostaria de apenas pedir uma segunda opinião, já que ela tinha conhecimento de um médico que costumava acompanhar mulheres com partos pélvicos e no dia seguinte fui atá ao seu consultório, na véspera de completar 39 semanas, ante-véspera de data marcada para a malfadada cirurgia. Foram 3 as razões que apontou para justificar o facto de não fazer a companhamento do meu parto, mesmo que eu fosse sua paciente: cesariana anterior, posição do bebé (visto estar de pés e não pélvico completo) e estimativa de peso do bebé que, por esta altura, se pensava que já estaria com cerca de 4 quilos, pelos dados recolhidos na última ecografia (enfim, já sabemos que estas estatísticas valem o que valem...).
Olhando para trás, acredito que este tenha sido um importante ponto de viragem para mim. Afinal, mesmo alguém que em situações semelhantes levanta a sua voz contra o sistema e resgata mulheres e bebés de um destino traçado na direcção da sala de operações, no meu caso específico desaconselhava o parto vaginal. E embora ele tenha afirmado que, já que o desfecho mais provável seria mesmo a cesariana, o melhor era mesmo marcar um dia, eu continuava a desejar, do fundo do coração, que fosse o meu bebé a dar sinal de que estava pronto para nos abraçarmos.
Na véspera da data marcada (ou seja, no dia em que completei 39 semanas), acordei com uma leve sensação de calor na minha barriga que depressa desapareceu. Tal como planeara, passei uma manhã a fazer mil e um pequenos recados que estavam em lista de espera há já bastante tempo e para os quais ainda não tinha encontrado tempo ou energia suficientes. Durante a primeira metade da manhã aquela sensação de calor voltou a invadir-me várias vezes e dei por mim a pensar como seria interessante e até inquietante se o trabalho de parto se iniciasse naquele dia, menos de 24 horas antes da data limite marcada pelo médico para a nossa espera.
Já perto do final da manhã instalou-se um sorriso na minha cara – à sensação de calor aliara-se um rítmico aperto aconchegante na barriga que me fazia sentir os olhos a fechar temporariamente para melhor gozar cada segundo daquele prazer; estava em trabalho de parto mas as contracções eram ainda espaçadas e pouco dolorosas, eram verdadeiramente deliciosas! Cerca de duas horas mais tarde, já com cerca de 10 minutos entre cada contracção, estava ao telefone com a minha amiga Cristina, companheira de “luta” nas questões da humanização do parto e presidente da HumPar (Associação Portuguesa pela Humanização do Parto), quando senti a primeira contracção forte – o meu bebé já estava pronto para nascer, o trabalho de parto estava a avançar e era já oficial. Liguei então para o meu médico que quase nem me deixou terminar a frase e já estava a caminho do Hospital para me receber. Quando o meu marido chegou, cerca de 20 ou 30 minutos depois do telefonema para o médico, estava eu a tentar decidir o que seria melhor utilizar para reter o líquido que então começara a escorrer pelas minhas pernas, quente e contínuo. Por esta altura já tinha que me apoiar em algo ou alguém cada vez que vinha uma contracção pois já estavam bem fortes, mas não conseguia tirar o sorriso da cara nem deixar de fechar os olhos porque queria sentir e aproveitar cada segundo; afinal, aquilo que eu estava a viver era parte importante de um grande desejo.
Quando cheguei ao Hospital as contracções estavam muito próximas, a equipa médica inteira no bloco à espera da sua paciente que foi o último elemento a chegar. Antes de iniciar a cirurgia o médico quis fazer-me o toque para verificar a posição do bebé (não precisava pois bastava perguntar-me e eu dizia que continuava pélvico de pés), mas uma outra surpresa me aguardava: estava com a dilatação completa!
Eu era a pessoa mais descontraida daquela sala inteira, a única com um mega sorriso estampado no rosto, totalmente relaxada e profundamente feliz. Recordo-me de ver o meu médico percorrer a sala de um lado ao outro com um passo inquieto, ritmado e constante e de lhe ter dito que, naquele momento, podia estar totalmente descansado porque eu não iria deixar o meu bebé cair, estava bem guardado.
O procedimento eu já conhecia, posso dizer que todos os elementos da equipa médica foram simpáticos, correctos e amáveis e durante o tempo em que estiveram a preparar-me senti-me sempre bem. Quando o bebé nasceu embrulharam-no numa toalha e colocaram-no imediatamente junto do meu rosto. Era lindo, o meu bebé! Pude cheirá-lo, senti-lo, beijá-lo tocar-lhe e falar-lhe, e senti uma grande felicidade e, ao mesmo tempo, um certo alívio por tudo ter terminado.
Aprendi muitas lições com a minha vivência e foram precisos mais de 7 meses para me poder sentar e ter vontade de escrever este relato de parto. Sou hoje uma mulher mais madura, mais forte e mais tolerante.
Talvez a lição mais importante que aprendi e que gostava de transmitir sob forma de mensagem para todos seja: não devemos procurar todas as respostas em nós próprios pois isso pode conduzir a um sentimento de culpa com o qual é quase insuportável conviver; apenas devemos procurar que no final de cada caminhada possamos dizer que demos o melhor de nós mesmos!
Mudei também a minha forma de ver a acompanhamento de uma mulher grávida e em trabalho de parto, acredito que tenho muito mais a aprender como Doula com cada mulher que se irá cruzar no meu caminho do que com os imensos livros que tenho para ler. Quero crescer com cada uma delas e ajudá-las a fazer uma bonita viagem, independentemente do caminho que escolherem ou do lado para onde soprar o seu vento.
Se acredito verdadeiramente que o parto que desejamos de coração pode e deve ser construido e solidificado na nossa mente, hoje em dia também acredito verdadeiramente que temos que ser suficientemente humildes para aceitar que o parto que desejamos de coração pode tomar um rumo próprio por razões que desconhecemos, e que isso não faz de nós mulheres menos poderosas nem mães menos dotadas.
Confesso, no entanto, que fica um certo vazio na minha vida por aquilo que poderia ter sido...
Margarida Piló
Lisboa - Portugal
26 Janeiro de 2006
Era a continuação da concretização de um desejo que constitui a base do nosso projecto de vida: o nosso terceiro filho vinha a caminho, a nossa querida família ia crescer mais um pouco, em todos os sentidos!
A terceira gravidez foi, sem dúvida nenhuma, a mais tranquila, mais harmoniosa e também a que foi vivida de uma forma mais plena e consciente. Depois de tudo o que vi, ouvi, li, meditei e aprendi durante e após o curso de Doulas que frequentei, estava certa de que aquela luz que então se acendera indicava claramente o caminho que EU queria seguir; era tudo o que fazia sentido para mim em termos da vivência de uma gravidez e parto e foi em torno desta nova realidade que fui construindo, com o meu bebé, o percurso mais bonito que até então havia conhecido.
Depois de uma primeira cesariana (por pré-eclampsia), seguida de um parto vaginal (para mim totalmente inesperado e, na altura, não muito desejado), com os novos conhecimentos e sentimentos que experimentava, nada passava na minha mente para além da ideia de que este terceiro filho nasceria de um parto fisiológico absolutamente magnífico e inesquecível.
Ansiava tanto por um parto o mais natural possível que cheguei a sonhar com ele... e foi maravilhoso...!
Durante a gravidez conversei muito com o meu médico que foi sendo convencido aos poucos de que tudo decorreria, de facto, da forma diferente daquela a que estava habituado, desde que o bebé estivesse bem ao longo do trabalho de parto. Procedimentos hospitalares habituais foram excluidos e não haveria lugar para tricotomias, monitorização contínua, occitocina artificial, episiotomia, etc.; eu sabia que a minha vontade seria respeitada e reparei no meu médico um entusiasmo crescente e aumento de expectativa ao longo do tempo e à medida que a hora do nascimento estava a chegar. Esta entrega e entusiasmo surpreenderam-me e sei que se basearam na sua confiança em mim.
Quando fui fazer a ecografia das 34 semanas fiquei surpreendida pelo facto de o bebé estar pélvico mas sabia que ainda daria a volta pois tinha espaço suficiente; para além disso, não é provável que um bebé cefálico nesta fase dê a volta, mas é perfeitamente possível que um pélvico se vire, podendo isto ocorrer até em pleno trabalho de parto.
A verdade é que, ao longo de toda a gravidez, dei por mim muito raras vezes a pensar se alguma coisa poderia correr menos bem relativamente àquele nascimento e, das poucas coisas as que enumerei, a posição do bebé não era uma delas, não constava da lista: era um dado adquirido que o meu bebé estaria na posição ideal quando chegasse a sua hora e eu nem pensava nesse assunto.
As semanas foram passando devagar (e eu a querer que elas passassem ainda mais devagar) e continuava a sentir os pezinhos do meu filho a dar pequenos pontapés mesmo no colo do útero; não tinha dúvidas nenhumas de que continuava pélvico!
Por volta das 36 semanas (o meu primeiro filho nasceu no dia em que completei 37 semanas e o segundo no dia em que completei 38 semanas) comecei a procurar informação sobre técnicas utilizadas para ajudar os bebés a darem a volta e em conversa com o meu médico falámos da hipótese da versão externa – fui ao Hospital de Santa Maria onde uma equipa chefiada por um médico costuma realizá-las, mas quando souberam que tinha uma cesariana no meu historial disseram que era contra-indicação absoluta para este procedimento por risco de ruptura uterina. Optei, então, por tentar os métodos mais caseiros: à noite já só via televisão de joelhos no chão da sala e rabo espetado para o ar, enquanto fazia massagens com movimentos circulares na minha barriga e no meu bebé; experimentei ainda a técnica do quente e do frio e também da música agradável. Às 37 semanas de gravidez comecei a ficar preocupada porque achava que já era boa altura para o bebé se virar pois o espaço era cada vez mais reduzido e a manobra cada vez mais difícil. Passei, então, para técnicas mais alternativas e durante quase duas semanas fiz moxabustão e acupuntura. Tinha a certeza que aquele bebé ainda daria a volta, nem que fosse um daqueles casos raros de bebés que viram quando a mãe se encontra já em trabalho de parto. Até à véspera do nascimento do meu filho fiz diaria e religiosamente as minhas massagens ao períneo e conversei sempre muito com ele para que se sentisse tão seguro e tranquilo como eu me sentia e soubesse que dar a volta era um passo importante para a melhor entrada neste mundo onde todos o esperávamos de braços abertos. Continuava, no entanto, a sentir os seus pequenos pontapés no colo do útero e a sua cabecinha bem junto do meu coração.
Por esta altura já o meu médico falava em cesarianas e datas marcadas, tinha muito medo que eu entrasse em trabalho de parto e houvesse algum problema sério. Propôs-me, então, que marcássemos a cesariana para o dia seguinte após completar as 38 semanas de gestação e eu saí do consultório sem lhe dar nenhuma resposta positiva ou negativa e com o meu coração bem apertado a fazer rolar lágrimas gordas pelo rosto. Foi nesse momento que pela minha mente passou a hipótese de as coisas não correrem como tinha previsto e de ter que repetir uma cesariana, quando planeava um parto o mais natural possível. Começaram, então, a surgir questões na minha cabeça, para as quais não tinha resposta: porque é que este bebé, ao contrário dos outros dois, não se virou na altura em que é mais vulgar isso acontecer? Será que sente que é demasiada responsabilidade para ele eu querer viver tudo de forma tão especial, uma vez que esta vivência representa uma grande mudança na minha vida? Será que o bebé tem medo que o mundo cá fora seja demasiado agressivo para ele e ainda não compreendeu quanto o queremos e amamos? Será que o facto de eu querer viver esta experiência de uma forma indivudualizada – muito centrada apenas em nós os dois - lhe desagrada ? (sempre adorei apreciar os momentos mais importantes da minha vida de forma um pouco solitária) Será que o bebé se sente tão bem dentro de mim que não quer dar nenhum passo no sentido de abandonar o ninho onde está sempre tão seguro, bem juntinho ao meu coração? Será que há alguma coisa que eu esteja a fazer mal ou possa fazer mais? Será que...? Será que...?
Passei uma semana difícil em que tinha que tomar decisões: eu estava grávida de quase 38 semanas, o meu bebé estava pélvico de pés (nem sequer era pélvico completo), o meu médico tinha medo que eu entrasse em trabalho de parto e houvesse prolapso do cordão, queria marcar uma cesariana para muito breve e eu só queria que o bebé nascesse quando se sentisse preparado e que desse a volta, pois sabia que esse era o melhor caminho para ambos. Estava mergulhada num turbilhão de emoções e sentimentos, sem saber muito bem para que lado me virar, mas continuei a fazer todos os procedimentos que conhecia para nos ajudar a seguir caminho num melhor sentido.
Não era capaz de aceder ao conselho do médico; até concebia a hipótese de uma cesariana caso o bebé continuasse na mesma posição, mas não lhe iria impôr um prazo para nascer – essa decisão seria dele e só dele. Embora ligeiramente contrariado, o médico acedeu a esperarmos mais uma semana em que estávamos em contra relógio e eu já pensava que íamos mesmo pertencer àquele grupo mínimo de pessoas que fazem com que o 1% de casos existam na realidade.
O tempo passava e tudo continuava na mesma. Na consulta seguinte o médico disse que a sua proposta final era esperarmos até ao dia seguinte a completar 39 semanas e fazer, então, a cesariana, caso o bebé não desse a volta. O que é que eu ia fazer? O médico que acompanhou as minhas outras gravidezes e nascimentos, que me proporcionou a oportunidade de poder vivenciar um parto vaginal depois de uma cesariana, quando nem eu estava nada segura ou convencida de que isso iria acontecer, que tanta confiança depositou em mim que estava disposto a colocar de parte os seus procedimentos mais habituais e a meu lado viver uma experiência totalmente diferente, aquele médico em quem eu tinha confiança, estava agora a apertar o cerco e eu percebi que já não tinha grandes hipóteses de influenciar a sua decisão. Mudar de médico nesta recta final seria solução?
Chorei muito, mesmo muito. Conversei com o bebé, perguntei-lhe porquê, conversei comigo, perguntei-me porquê e o que iria fazer. Li muito, pesquisei ainda mais e sabia que era um risco, dada a posição invulgar do bebé, tentar o parto vaginal. Caso ele não desse a volta teria que ir para cesariana mas não queria impôr uma data, pois achava importante dar todas as oportunidades àquele bebé até ao último segundo, para além de que conhecia bem as vantagens de deixar que o trabalho de parto se iniciasse espontaneamente e de como era importante vivê-lo. Mas o meu médico não queria esperar eternamente! Decidi aceder e marcar a cesariana para o dia seguinte a completar 39 semanas.
Escrevi, então, uma carta sentimental e sentida para as minhas amigas Doulas pois sabia que elas seriam capazes de compreender como era difícil viver aqueles momentos e suportar aquela angústia. O seu apoio e solidariedade foram preciosos!
Conversei com uma amiga que é também uma mullher sábia e uma Doula perspicaz (obrigada, amiga!) e ela perguntou-me se não gostaria de apenas pedir uma segunda opinião, já que ela tinha conhecimento de um médico que costumava acompanhar mulheres com partos pélvicos e no dia seguinte fui atá ao seu consultório, na véspera de completar 39 semanas, ante-véspera de data marcada para a malfadada cirurgia. Foram 3 as razões que apontou para justificar o facto de não fazer a companhamento do meu parto, mesmo que eu fosse sua paciente: cesariana anterior, posição do bebé (visto estar de pés e não pélvico completo) e estimativa de peso do bebé que, por esta altura, se pensava que já estaria com cerca de 4 quilos, pelos dados recolhidos na última ecografia (enfim, já sabemos que estas estatísticas valem o que valem...).
Olhando para trás, acredito que este tenha sido um importante ponto de viragem para mim. Afinal, mesmo alguém que em situações semelhantes levanta a sua voz contra o sistema e resgata mulheres e bebés de um destino traçado na direcção da sala de operações, no meu caso específico desaconselhava o parto vaginal. E embora ele tenha afirmado que, já que o desfecho mais provável seria mesmo a cesariana, o melhor era mesmo marcar um dia, eu continuava a desejar, do fundo do coração, que fosse o meu bebé a dar sinal de que estava pronto para nos abraçarmos.
Na véspera da data marcada (ou seja, no dia em que completei 39 semanas), acordei com uma leve sensação de calor na minha barriga que depressa desapareceu. Tal como planeara, passei uma manhã a fazer mil e um pequenos recados que estavam em lista de espera há já bastante tempo e para os quais ainda não tinha encontrado tempo ou energia suficientes. Durante a primeira metade da manhã aquela sensação de calor voltou a invadir-me várias vezes e dei por mim a pensar como seria interessante e até inquietante se o trabalho de parto se iniciasse naquele dia, menos de 24 horas antes da data limite marcada pelo médico para a nossa espera.
Já perto do final da manhã instalou-se um sorriso na minha cara – à sensação de calor aliara-se um rítmico aperto aconchegante na barriga que me fazia sentir os olhos a fechar temporariamente para melhor gozar cada segundo daquele prazer; estava em trabalho de parto mas as contracções eram ainda espaçadas e pouco dolorosas, eram verdadeiramente deliciosas! Cerca de duas horas mais tarde, já com cerca de 10 minutos entre cada contracção, estava ao telefone com a minha amiga Cristina, companheira de “luta” nas questões da humanização do parto e presidente da HumPar (Associação Portuguesa pela Humanização do Parto), quando senti a primeira contracção forte – o meu bebé já estava pronto para nascer, o trabalho de parto estava a avançar e era já oficial. Liguei então para o meu médico que quase nem me deixou terminar a frase e já estava a caminho do Hospital para me receber. Quando o meu marido chegou, cerca de 20 ou 30 minutos depois do telefonema para o médico, estava eu a tentar decidir o que seria melhor utilizar para reter o líquido que então começara a escorrer pelas minhas pernas, quente e contínuo. Por esta altura já tinha que me apoiar em algo ou alguém cada vez que vinha uma contracção pois já estavam bem fortes, mas não conseguia tirar o sorriso da cara nem deixar de fechar os olhos porque queria sentir e aproveitar cada segundo; afinal, aquilo que eu estava a viver era parte importante de um grande desejo.
Quando cheguei ao Hospital as contracções estavam muito próximas, a equipa médica inteira no bloco à espera da sua paciente que foi o último elemento a chegar. Antes de iniciar a cirurgia o médico quis fazer-me o toque para verificar a posição do bebé (não precisava pois bastava perguntar-me e eu dizia que continuava pélvico de pés), mas uma outra surpresa me aguardava: estava com a dilatação completa!
Eu era a pessoa mais descontraida daquela sala inteira, a única com um mega sorriso estampado no rosto, totalmente relaxada e profundamente feliz. Recordo-me de ver o meu médico percorrer a sala de um lado ao outro com um passo inquieto, ritmado e constante e de lhe ter dito que, naquele momento, podia estar totalmente descansado porque eu não iria deixar o meu bebé cair, estava bem guardado.
O procedimento eu já conhecia, posso dizer que todos os elementos da equipa médica foram simpáticos, correctos e amáveis e durante o tempo em que estiveram a preparar-me senti-me sempre bem. Quando o bebé nasceu embrulharam-no numa toalha e colocaram-no imediatamente junto do meu rosto. Era lindo, o meu bebé! Pude cheirá-lo, senti-lo, beijá-lo tocar-lhe e falar-lhe, e senti uma grande felicidade e, ao mesmo tempo, um certo alívio por tudo ter terminado.
Aprendi muitas lições com a minha vivência e foram precisos mais de 7 meses para me poder sentar e ter vontade de escrever este relato de parto. Sou hoje uma mulher mais madura, mais forte e mais tolerante.
Talvez a lição mais importante que aprendi e que gostava de transmitir sob forma de mensagem para todos seja: não devemos procurar todas as respostas em nós próprios pois isso pode conduzir a um sentimento de culpa com o qual é quase insuportável conviver; apenas devemos procurar que no final de cada caminhada possamos dizer que demos o melhor de nós mesmos!
Mudei também a minha forma de ver a acompanhamento de uma mulher grávida e em trabalho de parto, acredito que tenho muito mais a aprender como Doula com cada mulher que se irá cruzar no meu caminho do que com os imensos livros que tenho para ler. Quero crescer com cada uma delas e ajudá-las a fazer uma bonita viagem, independentemente do caminho que escolherem ou do lado para onde soprar o seu vento.
Se acredito verdadeiramente que o parto que desejamos de coração pode e deve ser construido e solidificado na nossa mente, hoje em dia também acredito verdadeiramente que temos que ser suficientemente humildes para aceitar que o parto que desejamos de coração pode tomar um rumo próprio por razões que desconhecemos, e que isso não faz de nós mulheres menos poderosas nem mães menos dotadas.
Confesso, no entanto, que fica um certo vazio na minha vida por aquilo que poderia ter sido...
Margarida Piló
Lisboa - Portugal