Humpar

 
O Nascimento de Tom
19 de Maio de 2006





Quatro anos após meu primeiro parto, levanto-me da cama com enjoos. Vomito mais uma vez na casa de banho e resolvo fazer mais um teste de gravidez embora esteja com enjoos ha mais de 2 meses e os dois últimos testes tenham sido negativos. Após 5 minutos aparecem duas linhas cor de rosa. Eu estou grávida !

Alguns dias mais tarde, de viajem para a França, leio um artigo muito interessante sobre a ajuda das doulas durante os partos, e percebo que esta ajuda é o que me faltou tanto durante o meu primeiro parto. Durante a minha estadia em França, vou fazer uma ecografia de controlo para saber se as dores de barriga não anunciam um descolamento placentario e enquanto espero ver um pequena bolsa com uma manchinha de apenas alguns milimetros, descubro com grande surpresa no ecrãn um feto muito ativo de 10 cm de comprimento ! Afinal, eu ja estou grávida de 3 meses e é um rapaz ! ! ! ! Que felicidade ! ! ! !


De regresso a Portugal, volto a participar num forum de discussão sobre gravidez e leio relatos de nascimentos no hospital e em casa. Invariavelmente os relatos de nascimentos hospitalares estavam cheios de sentimentos de frustração, separações, stress, enquanto os relatos de nascimentos domiciliares estam cheios de amor, tranquilidade, emoção e alegria. Continuo a ler centenas de relatos, e invariavelmente o final dos partos domiciliarios são felizes. As minhas pesquisas acabam para me levar a páginas muito ricas de informação sobre o parto hospitalar e o impacto negativo das intervenções médicas sobre a fisiologia do parto (www.portailnaissance.com, APFAR). Depois dessas leituras, eu percebí que o parto hospitalar não é mais seguro para as mães e os bebés, como até podem ser piores em termo de intervencões medicas nas mães e nos bebés (episiotomia, forceps, cesarianas…). 

Com 34 semanas de gravidez, eu decido agir para não ter o mesmo parto do que para a minha filha Prisca e contacto as Doulas de Portugal por e-mail. Meia hora mais tarde recebo uma resposta muito simpática, informativa e animadora da presidente da associação. Junto à resposta eu recebo tambem artigos científicos e a lista dos contactos das doulas de Portugal e das parteiras que realisam partos domiciliarios. Na lista das Doulas eu escolho uma mulher que mora muito perto da minha casa e encontro-me com ela no dia seguinte. O contacto com ela é logo muito agradável. Ela transmite-me muita informação sobre as vantagens da ajuda de uma Doula antes, durante e depois do parto, pelo que decidí optar pelo apoio de uma para ter uma melhor experiência durante o segundo parto.

Infelizmente a última ecografia mostra que o meu bebe esta em posição pélvica, ou seja esta sentado na minha barriga, o que era contraindicado para um parto domiciliar. Eu resolvo fazer acupunctura para tentar virar o bebe e para aliviar a minha ciática. Felizmente, duas semanas e cinco sessões de acunpunctura mais tarde, o bebe dá a volta e uma última ecografia confirma a posição cefálica do bebe. Eu chamo logo a minha doula para lhe contar a fantastica novidade, e oiço gritos de alegria da familia dela através do telefone ! ! !

Agora só me falta convencer o meu querido marido de ter o bébé em casa, pois ele ainda tinha receios pela saúde do bébé, devido ao facto de morarmos a 20 minutos do Hospital.

A semana seguinte eu encontro-me com a parteira escolhida na lista mandada pela presidente das Doulas de Portugal. O contacto com ela é marvilhoso. Ela conta-me historias de partos domiciliares com fotografias, e atraves os seus relatos eu sinto que tem uma grande experiência e um grande respeito pelos desejos das grávidas. Este encontro com a parteira conforta-me pleneamente na minha decisão de ter um parto domiciliar, e acaba por convencer tambem o meu marido a tentar a experiência, na condição de irmos para o hospital se houver qualquer problema ou complicação durante o trabalho de parto.

No dia 17 de Maio (41 semanas e 2 dias), eu vou para a casa da minha doula para conversar e provar a marvilhosa tarta de nata que acabava de sair do forno. Passamos a tarde a conversar de partos humanizados ao ritmo de contrações fracas de 10 em 10 minutos. No fim da tarde despeço-me da familia brincando com a ideia de que talvez nos voltaríamos a ver nessa noite para o grande evento.

À meia noite (dia 18 de Maio), eu vou para a casa de banho antes de me deitar e sinto um «plop», estranhamente familiar na minha barriga. A seguir um líquido transparente sai e percebo que a bolsa das águas tinha rebentado. Aviso o meu marido que fica ligeramente preocupado e me pergunta se isso era grave para o bebé. Respondo-lhe que não, mas que estaria mais protegido com água la dentro. Ligo à parteira que me aconselha deitar na cama e tentar arranjar algum sono pois as proximas horas iram ser cansativas. Infelizmente as contrações e a excitação não me deixam dormir e por volta das 5 da manhã, as contrações ja apareciam de 5 em 5 minutos. Resolvo levantar-me, ja que a posição deitada é bastante desconfortável. No mesmo momento a parteira liga para saber notícias e resolve apanhar um taxi para vir à minha casa.

 

As 7 :00 da manha acordo a minha doula para lhe contar a grande novidade e ela prepara-se para vir. Quando ela e a parteira chegam em casa, ambas encontram-me sentada na bola de ginástica fazendo movimentos com as minhas ancas, ouvindo a música suave das celtic woman. A Cristina senta-se atrás das minhas costas, põe óleo de amêndoa doce na mão e começa a massajar a zona lombar com movimentos circulares suaves. Fiquei logo viciada, tanto o alivio da dor é eficaz !


O primeiro toque da parteira revela um colo apagado mas ainda não aberto. Ela estima o nascimento só pelo fim da tarde. Eu fico um bocado desiludida, pois novamente esperava ja ter uns 4 dedos de dilatação. Paciência, o Tom quere nascer suavemente, eu tenho que aceitar e esperar. Felizmente o coração do Tom bate com muita força, ele aguenta muito bem o inicio do trabalho. Furtivamente eu penso que se eu tivesse ido ao hospital após a bolsa de água ter rebentado, ja teria provavelmente recebido a oxitocina e um antibiotico a esta hora. Fico aliviada por sentir que as coisas estão tão suaves em minha casa.

As horas passam devagar ao ritmo das contrações e das massagens da doula, do meu marido e da minha filha que quer participar na grande aventura do nascimento do mano. Depois do almoço, eu sinto-me muito cansada e resolvo fazer uma siesta acompanhada pelo meu marido. Acordamos 3 horas mais tarde e quando me levanto, as contrações tinham desaparecido. Sera que o Tom quer ficar mais tempo na minha barriga? Será que o nascimento não é para hoje ainda ? Fico de repente cheia de dúvidas. Para tentar reactivar o trabalho, decidimos dar uma grande passeio de 2 horas com a parteira.

Por volta das 19 :00 um novo toque monstra um colo com apenas 1 dedo de abertura, a estimação do nascimento passa para o dia seguinte. Há ja 19 horas que perdi as águas ! 19 horas para chegar à 1 dedo! Felizmente as contrações voltaram à frequência de 5 minutos e intensificaram-se cada vez mais, embora ainda fossem pleneamente suportáveis. Agora a posição sentada frente à cadeira com uma bolsa de água quente nas costas é a mais agradável. Cada hora que passa duplica a intensidade das contrações e as mudanças de posições impoêm-se assim como o inicio das queixas de dores. Agora é que as  contrações começam a custar a sério. Mas a toda a minha equipa de suporte está à minha volta para me dar forças, excepto a minha filha que ja se deitou para acolher o mano com boa disposição.

Um pouco após meia noite (dia 19 de Maio), um novo toque indica apenas 3 dedos de dilatação. Estou cansada pela falta de sono e de descanso e cansada da intensidade das dores. Esperava ja ter o Tom nos meus braços e portanto não consigo reter as lagrimas de desilusão. Foram tantas horas para chegar a 3 dedos, se forem tantas para chegar a 10 não ia aguentar, penso tristemente. Neste momento, a ideia de ir para o hospital para ter uma epidural atravessa a minha cabeça, mas não digo nada e tento aguentar. Parece que o Tom aguenta o trabalho melhor do que eu, pois o ritmo cardíaco dele esta óptimo. Isso transmite-me força para continuar em casa, pelo menos por ele. Depois deste último toque da parteira, as contraçoes intensificam-se brutalmente, e torna-se difícil para mim de respirar profundamente e de não lutar contra a dor mas sim de trabalhar com ela. Eu preciso agora de toda a minha concentração assim como do apoio dos meus companheiros todos que me ajudam a ficar concentrada na minha respiração «tens que dar oxigenio ao Tom, não te esqueças, respira lentamente e profundamente».

São 02:47 no relógio da sala. Hoje é dia 19 de Maio, dia de nascimento do meu segundo sobrinho que nasceu há 8 anos. Penso brevemente que seria giro o meu filho nascer no mesmo dia que o meu sobrinho. Mas o pensamento desaparece quando volta a contração. Bolas esta é insuportável, eu grito, ja só consigo pensar em epidural mas não o digo. Continuo em tentar respirar apropriamente para o Tom receber oxigenio, mas torna se quase impossível. Eu sofro demais, mas estou tão cansada fisicamente que nem consigo sequer imaginar andar até o carro para ir para o hospital !  De repente eu grito à minha doula para beliscar a minha mão para desviar o meu cerebro da dor das contrações,  mas as palavras ja não saiam em portugues ! O meu cerebro é incapaz de contruir frases em português e até palavras. Tambem ja não consigo respirar, só gritos é que saem da minha boca. A parteira e a doula ficam preocupadas com a oxigenação do bebé e insistem para que eu consiga respirar durante as contrações. Eu faço esforços inimagináveis para respirar quando a contração atravessa o meu corpo inteiro. Parece um camião de varias toneladas a passar por cima do meu corpo començando pelas pernas até à cabeça. Eu rezo para isso não continuar por muito mais tempo.


Procuro a posição mais confortável mas nenhuma alivia a dor. Só oiço no fundo do meu cranio: «oxigena o bebé», «respira» e «o Tom esta quase a chegar», como uma música suave numa sala cheia de barulho e confusão. São estas palavras que me impedem perder a minha razão. As contrações parecem não ter fim nem príncipio, uma atrás da outra. Estou exausta. De repente algumas contrações acompanham se da vontade irresistível de fazer força, e faço, embora contra o conselho da parteira que me pedia para esperar mais um pouco, não consigo evitar. A minha camisola fica toda enxarcada e oiço «o Tom esta a chegar, ja falta muito pouco», as palavras são um doce para a minha cabeça, mas não acredito porque passaram apenas umas horas desde o último toque, e não acredito que a dilatação total ja esteja feita. «Não acredito, não consigo, lamento mas não consigo» disse a chorar. No entanto a doula tinha razão e a parteira decidiu preparar a cama para a expulsão.

Não me consigo mexer, portanto os meus companheiros mudam-me para a cama. A mudança de posição é extremamente desagrádavel, mas ja percebo que o Tom vai nascer em breve e faço esforços sobre-humanos para tentar colaborar. As contrações mudaram da dor insuportável para uma dor constructiva e uma potência indiscriptivel concentradas na barriga. A vontade de fazer força é incontornável e extremamente poderosa. Mas antes de fazer força, a parteira quer ouvir o coração do bebé e verificar pela última vez o colo. De côcoras não se consegue apanhar o coração do bebé, portanto tenho que me deitar. O Tom está bem. O coração ja esta mais fraco mas continua a bater. A parteira pede-me para fazer força e nem tento voltar a posição de côcoras pois a contração seguinte não me deixa ! Eu grito de dor e de pânico porque fico chocada pela violência da contração. Tenho a sensação de enlouquecer mas o meu marido traz-me de volta à realidade «tens que ficar concentrada, fica connosco, ouve a parteira !». Eu volto à cena, mas não percebo logo como acompanhar a contração para ajudar o Tom a nascer. Depois de alguns gritos sem conseguir, eu seguro-me em todos os braços que ficam ao meu alcance (da doula e do meu marido) e faço a maior força que uma vez fiz na minha vida com a minha barriga, uma, duas e à terceira vez sinto os pontapes do Tom entre as minhas pernas e oiço os gritinhos dele. São 4 :40 da manha do dia 19 de Maio, o Tom acabou de nascer em minha casa, com a ajuda e o carinho do meu marido, da minha doula e da minha parteira.

    

Eu sinto a parteira cuidar do Tom entre as minhas pernas, e segundos mais tarde ela põe o Tom na minha barriga. Que alegria de sentir o calor do meu filho contra a minha pele, de sentir o cheiro tão doce, de ver o seu olhar no meu e de sentir tanto amor à nossa volta. «Ola Tom, tu és tão parecido com a tua irmã, sabias ?» digo em francês. Este momento, olhos nos olhos é o melhor, onde a dor esvanece e o amor partilhado enche todo o espaço do corpo e da mente.


Alguns minutos mais tarde, a parteira verifica os reflexos e a vitalidade do Tom em cima da minha barriga. É marvilhoso poder ficar com o bébé nessa altura, não estar separados, continuar pele a pele, sentir o cheiro dele enquanto da os primeiros passos na barriga que ainda ha pouco era a casa dele. Felizmente, ele esta óptimo. Cobrimos o Tom com uma toalha e tento dar-lhe de mamar. Deitada na cama, não é nada fácil, mas sentados ele consegue mamar até adormecer um pouco. Após a saida da placenta e a verificação do períneo que ficou intacto, decido tomar um banho e deixar o Tom conhecer o pai dele. Não existem palavras para descrever como é agrádável tomar o duche na sua propria casa de banho depois de ter um filho, é fantástico ! Pois temos todas as nossas coisas ao alcance, estamos completamente à vontade, e sabemos que o bebé fica feliz nos braços do pai (em vez de sosinho no quarto do hospital a gritar).

Depois do banho da mãe, damos o primeiro banho ao Tom e vestimos a primeira roupa. O Tom não para de olhar por todo o lado, muito curioso para descobrir o mundo novo e as pessoas que ele mais ouviou nos ultimos meses através da barriga da mãe. Só que falta uma voz, aquela da mana, que ainda dorme na cama. Podiamos acordar-la agora, mas resolvimos esperar mais uma hora para ela estar bem disposta para conhecer o mano. São 7 :00 horas da manha, a parteira e a doula voltam para casa para deixar a mana descobrir o pequeno mano na intimidade da propria familia.

O pai vai acordar a mana enquanto eu fico com o Tom nos braços na sala. O Pai diz «olá Prisca, adivinha quem esta à tua espera na sala?». Ela responde logo no grito de alegria : «é o meu maninho!, porque não me acordaram antes ?». Ela corre pelas escadas abaixo seguida pelo pai, e descobre o mano nos braços da mãe. A cara dela ilumina-se de felicidade misturada com ternura e curiosidade e diz toda contente «o ele é tão bonito !»…

Duas horas apenas após o nascimento, a nossa familia esta toda reunida no sossego da nossa casa, feliz e orgulhosa da chegada do seu novo pequeno membro.



O Tom é um bébé muito sociável, sempre bem disposto e muito sossegado. Todos o dias ele me dá mais alegria e mais razões para acreditar que ter o filho em casa foi a melhor decisão que ja fiz na minha vida. Embora o trabalho de parto demrasse 28 horas em casa com este segundo filho (contra 6 horas no hospital com a minha filha) e foi mais doloroso no fim sem epidural, eu preferi 1000 vezes este nascimento em casa. Se um dia tiver um terceiro filho, adorava te-lo de novo em casa - mesmo sabendo que poderia demorar mais tempo - para voltar a sentir todas as emoções, a tranquilidade e o amor que partilhamos todos neste dia!


Agora, quero agradecer muito a todas as pessoas que participaram, dando-me informação, força e confiança para chegar à decisão de ter o meu filho em casa. As primeiras pessoas que gostava de agradecer (e ja tive a oportunidade de o fazer ao vivo), são as dirigentes da Associação Doulas de Portugal, Luisa Condeço e Carla Guiomar que divulgaram informação através de revistas, e que responderam com uma rapidez e carinhos incríveis às minhas perguntas por e-mail. Uma amizade muito especial nasceu da minha relação com a minha doula. Ela transmitiu-me conforto, confiança, força, alegria e sossego num dos momentos mais intensos tanto fisicamente como emocionalmente da minha vida. Do fundo do meu coração eu sinto que estarei sempre ligada de uma forma muito especial à minha doula, a Cristina Torres, a presidente da HumPar, que será a minha doula e amiga para toda a vida. Eu teria sempre uma admiração enorme e um grande respeito pela minha parteira, dona Glória, por ela ter ajudado o Tom a nascer e me ter transmitido serenidade e confiança no acto de parir por mim própria o meu filho. Obrigada a ti tambem, meu amor, meu querido marido, por me ter dado um filho tão bonito e por ter confiado em mim e ter aceite deixar nascer o nosso filho longe do hospital, embora tivesses muitos receios que alguma coisa corresse mal. Finalmente, obrigada a ti, Tom, por ter dado a volta na minha barriga, e ter tornado este maginifico sonho, uma realidade…

  Para que possam perceber melhor o porque de tanta alegria pela forma como correu o nascimento do Tom, convido-os a ler o relato do nascimento da Prisca.


Cathy Besson


Aroeira – Almada - Portugal