Humpar

 
O Nascimento de Joseph Benjamin
28 de Julho de 2005


Hoje é dia 30 de Julho de 2005. Já começo a recompor-me da enorme emoção que sentí dois dias atrás, exactamente às 18:09 quando meu 10º filho Joseph Benjamin nasceu.Tudo começou no dia 12 de Julho. Estava eu já na 39ª semana e comecei a ter contracções. Aconteciam em intervalos de 5 ou 7 minutos com intensidade média/forte e com duração de 25 a 50 segundos. Vagueei pela casa durante a noite, balancei na bola de nascimento, coloquei-me em posições de relaxamento, recebi massagens do meu "doulo", fiel sombra sempre atento. Pensamos que as coisas não iriam tardar muito. Afinal de contas era hábito tudo acontecer bastante rápido quando se chegava a este ponto. Como estavamos enganados!!!
Dois dias depois, que passaram ora com, ora sem contracções, elas pararam por completo. Que estranho, nunca tinha acontecido tal coisa. Sabiamos que por vezes aconteciam "falsos trabalhos de parto" mas para nós era algo  completamente inesperado. Entretanto a tia-doula Margarida, a postos bem como a parteira Dona Glória, íam ligando para saber novidades.

Já tinhamos tomado a decisão de ter este filho em casa e por isso nos limitamos a esperar com paciência que ele decidi-se quando sair da barriguinha da mãe. Os dias passaram e claro que a curiosidade aumentou... 1, 2, 3, 4 dias e nada. Passou uma semana e nada! Será possível? O bebé, esse, parecia estar muito bem. Mexia muito e descansava de vez em quando. Entretanto, a minha família tudo fazia para que eu pudesse descontrair-me ao máximo, libertando-me de toda e qualquer tarefa doméstica. Dormi, caminhei pela praia quilómetros, nadei, bordei, li, ouvi música, cheguei mesmo a ir passear à meia-noite com o Américo pelo paredão da Costa da Caparica ver os  pescadores a fazerem-se ao mar calmo sob um luar magnifico de céu estrelado. Subimos e descemos a Rua dos Pescadores e ainda ganhei bolas de gelado extra oferecidas pelo dono da gelataria que ficou entusiasmado pelo eminente trabalho de parto. O telefone não parava de tocar e os e-mails enchiam nossa caixa com imensos amigos e familiares que torciam pela chegada do Joseph. Passou quase mais uma semana e no dia 26 foi então que surgiu um novo sinal. Uma substância gelatinosa de coloração rosa com um pouco de sangue. Até respiramos de alívio, parecia que agora é que era. Contracções nenhumas... apenas um pouco desse fraco corrimento. O Américo fez-me uma surpresa que me deixou sem palavras. Apareceu-me na sala com o telefone na mão dizendo: "Atende, é o Dr. Ricardo Jones directamente do Brasil". O quê?! - perguntei eu. Incrédula peguei no telefone e perguntei- lhe: "Estás a brincar, não estás?" e ele respondeu: "É ele, fala!". Quando disse alô a minha surpresa foi total, era mesmo o Dr. Ric Jones. Demorei alguns segundos a acreditar mas mal me recompus da surpresa, conversamos demoradamente. Eles, estavam no msn e o Ric disponibilizou-se para falar do que me estava a acontecer, expliquei- lhe o que tinha  acontecido até esse momento. Ele me transmitiu uma grande paz e tranquilidade. Confirmou-me que tudo o que tinha acontecido desde o dia 12 era absolutamente normal e que agora deveria permanecer calma. Ao longo do dia 27, nada sucedeu. Contracções nenhumas... apenas um pouco desse fraco corrimento.

Nessa noite, falei com o Ric on-line (a sua grandeza humana e simplicidade são duas das suas grandes virtudes) sobre humanização, sua experiência, seu percurso, seu livro e suas empoderadas protagonistas. Rimos de cenas patéticas e comentários que ouvi por ter optado por um parto domiciliar e despedimo-nos. Quando subi para o quarto e fui à casa de banho senti um jorro involuntário sair de dentro de mim. Foi tão rápido que pensei por instantes que fosse urina. Cheirei e percebí logo que era líquido amniótico. Agora sim, parecia que o Joseph já estava pronto para vir. Entramos de imediato em contacto com o Ric pois mal haviam passado 20 minutos desde que falaramos. Disse-nos para dormirmos tranquilos pois a prostaglandina contida no líquido amniótico faria o resto.
Duas horas depois... a primeira contracção! O Ric estava certo, aí vinha o Joseph!! Estavamos ansiosos por vê-lo! Passei toda a noite com contracções que iam aumentando ritmadamente. Feliz, respirando profundamente, nem acordei o Américo, nem me levantei pois sabia que teriamos um longo dia pela frente. No dia seguinte de manhã o meu "doulo" telefonou para minha amiga Margarida, também doula, para lhe pedir que fosse buscar Dona Glória, a parteira eleita para nos acompanhar neste momento especial. O Américo falou também com a parteira e ele lhe explicou que estava com 3 dedos. Ela concordou que provavelmente seria hoje pois há uma semana que a dilatação se fazia muito lentamente antes da ruptura da bolsa. Eu não resisti a escrever para as minhas amigas doulas contando o que era há muito esperado por todos. Sabia que seus pensamentos estariam voltados para nós. Por volta das 9:00 horas chegaram as duas, a Margarida e Dona Glória. Nesse momento as contracções já apertavam. Mantinha-me calma e confiante, tentando lembrar tudo o que sabia pela experiência de meus anteriores 8 partos e tudo o que tinha aprendido desde que me tornara doula em Abril deste ano. As contracções, essas, cada vez mais intensas e  demoradas. Dona Glória verificou a dilatação e confirmou os 3 dedos. Fiquei um pouco desiludida... julguei que já tivesse um pouco mais. Entretando meu "doulo" confirmava o estado do Joseph através do eco-doppler. O Joseph estava com umas óptimas 125-135 pulsações.
Chegou a hora de almoço e o cheiro da comida que o Américo preparava começou a agoniar-me. Disse-lhe que preferia não comer nada e pedí um copo de água à minha filha Lara. Ela trouxe-me um belo copo de água gelada. Instantes depois de bebê-la comecei a sentir-me mal disposta e quis sair da cozinha. Dirigi-me ao quarto seguida por dona Glória que se mostrou um pouco apreensiva pela minha repentina má disposição. Logo a seguir foi o Américo. Quando ele chegou ao quarto já eu tinha começado com tremores de frio que se foram intensificando mais e mais. Dona Glória começava a ficar preocupada. Mediu-me a tensão a qual se mostrou baixa. Nunca me tinha acontecido nada parecido! Estava surpreendida mas incrívelmente tranquila. O Américo foi buscar um cobertor e me cobriu com ternura. Pegou nas minhas mãos frias e as aqueceu o mais que pôde. O Joseph estava bem mas eu continuava a tremer. Vinte minutos depois começava a estabilizar. Um conselho: Jamais bebam água gelada com um estômago vazio numa situação destas...
Por volta das 15:00 horas a Dona Glória disse que já tinha meia dilatação feita. Disse ela também, mas desta vez só ao Américo, que se eu descansasse uma ou duas horas, entraria em trabalho de expulsão logo a seguir. Eu e o meu "doulo" ficamos sozinhos por alguns minutos, deitados na cama. Foi aí que ele me disse o que Dona Glória lhe tinha dito e de repente sentí um ânimo e determinação redobrado e disse: "Vamos lá para baixo, vou parir na copa da cozinha!" (a nossa cozinha, tem um ar muito acolhedor, na copa junto à lareira tem um sofá que gosto muito e foi lá que achei que seria bom ter o nosso Joseph Benjamin).Pareço ter apanhado de surpresa toda a gente que me vira minutos atrás tremendo de frio. Entretanto, depois de almoçarem, o Américo tinha decidido que para termos um ambiente mais sossegado seria bom que os meninos saissem de casa até mais perto do nascimento pois todos queriam assistir. Foram para o Toyland Park um parque de diversões para crianças que pertence a uns maravilhosos amigos, o Daniel e a Ana.
Com as contracções, cada vez mais fortes, apercebia-me que o momento estava próximo, já passava das 17:00 horas. Nesse momento, chamaram o Mosíah, meu filho de 14 anos, o qual teria o papel de reporter fotográfico. Um sentimento muito íntimo me fez sentir que deveria convidar uma grande amiga nossa, a Cândida, a qual há já várias semanas vinha para ajudar com a roupa e que se encontrava nesse momento em nossa casa. Quis eu que tal amiga, largasse o que estava a fazer e estivesse junto a nós neste momento tão especial. Logo perceberia porque tinha de ser assim.

Às 15:40
Dona Glória verificou que estava mesmo a chegar, tinha 8 dedos de dilatação! O Joseph estava a caminho! O Américo, que tem sido incansável no apoio e aprendizagem sobre o parto, perguntou-me com ternura se não me importava que me fizesse o toque para perceber o que significavam "na prática" esses 8 dedos de dilatação. Claro que lhe disse que sim. Ele colocou uma luva e trocando impressões com Dona Glória percebeu o que na prática significava "dilatação quase completa" com expulsão eminente. Foi tão gentil que mal sentí.
Procurei várias posições e decidí deitar-me com as costas e a cabeça elevadas. Sabia, pelo meus estudos sobre as posições para a expulsão, que essa não era a posição mais adequada mas o meu instinto me disse que estava bem assim. Talvez pelo facto de ter a certeza que chegado o momento minha vagina e períneo se dilatariam com facilidade devido à preparação feita através das massagens que o Américo realizou a partir das 33 semanas. Estas mesmas massagens ao períneo me tinham salvo de mais uma episiotomia com laceração no meu anterior parto há dois anos e meio atrás, tendo como resultado um períneo íntegro por primeira vez. Sabia que desta vez seria igual.
As contracções a subir em intensidade e por fim aquela vontade irresístivel de puxar invadiu-me e sentí que era naquele momento ou nunca. A cada contracção, puxava até não mais poder. Dona Glória me guiava nas contracções e no descanso. Com sabedoria afastou um rebordo da vagina para facilitar a passagem do Joseph e então ouví gritarem: "Aí está! Já vejo a cabecinha!" Todos diziam isso, Dona Glória, a Margarida, o Américo e o Mosíah. Com tanta gente à espera do Joseph achei que não devia fazê-los esperar, segurei-me às mãos carinhosas da Cândida que apertou as minhas com firmeza e em mais 3 contrações pus a cabeça do Joseph cá fora. O Américo verificou surpreso que a cabeça tinha saído mas não a via! Estava coberta pela bolsa que ainda retinha quase todo o líquido amniótico! Ele rasgou a bolsa com as suas próprias unhas e viu de imediato a cabeça cabeluda de nosso bebé tão esperado. Apenas tive que fazer um pouquinho mais de força e zás! Aí veio nosso Joseph recebido pelo seu pai baboso e radiante. Todos diziam: É lindo Cristina, é lindo! Como se eu precisasse de que mo dissessem... eu estava alí a olhar para ele e a constatar isso mesmo. O Américo que jamais tinha recebido nenhum de nossos anteriores filhos tentava não o deixar escorregar! Até era cómica a situação, um pai tão forte e não conseguia segurar uma coisinha tão pequenina (3,5 Kg. e 53 cm.) que teimava em escorregar tal como ele disse, como enguia acabada de pescar. De imediato, colocou-o no meu regaço e não resistí à cena, minha felicidade era plena, e não contive o choro, as lágrimas, o riso. A alegria era imensa, um momento tão intenso que parecia um sonho. Porém, sabia que não acordaria, afinal era verdade e estava mesmo a acontecer! Nunca antes sentira o que sentí, nunca antes chorara daquela forma. Todos choravam, menos a Margarida, que confessou sentir um grande nó na garganta que só libertaria na paz de sua casa. Meu filho teve a honra de separar para sempre o seu irmão de mim. Que lindo! O meu primeiro filho cortando o cordão umbilical de meu último filho. Parecia que um circulo se fechava mágicamente.
Após tantos partos, não tinha sido rapada, nem feito qualquer clister, nem ouvido uma única palavra que não fosse de ânimo e carinho, ninguém me contrariou, nem me tinham colocado soro, nem ociticina, nem analgésicos. Por primeira vez tinha parido em liberdade, sem estar presa horas a um monitor com seu irritante barulho. Tinha caminhado, tinha "dançado" agarrada ao meu marido 5 minutos antes de parir. Nunca antes me tinha sentido tão rodeada por pessoas (todas elas) que eu amava, que conhecia, que quis ter comigo nesses momentos. Parí na copa de nossa cozinha, com a luz do sol a entrar pelas janelas, sem cheiro a éter, nem medicamentos. Não ví tesouras ou qualquer outro instrumento a não ser para grampear e cortar o cordão umbilical. Episiotomia? Não. Laceração? Não. Dona Glória fez um exame e exclamou: "Períneo completamente intacto! Que maravilha". A seguir disse ela, mostrando uma profunda humildade: "Hoje aprendí coisas novas convosco, obrigado", referindo-se à espantosa eficácia das massagens do períneo que aconselho fortemente a todas as grávidas. Agradeceu carinhosamente ao Américo por ter ajudado com a monitorização intercalar do ritmo cardíaco do Joseph. Eram 18:09.
Minutos depois, telefonei eu própria, aos meus outros filhos que acabaram por não assistir. Estavam radiantes e chegaram minutos depois. Pegaram no mano, o abraçaram, o amaram até mais não poder! Que lindo! Minha amiga Ana estava igualmente feliz.
Tanto que tenho a agradecer! Obrigado Ana por cuidares desses meus 5 filhos. Obrigado à minha mãe e marido que mesmo estando longe quiseram auxiliar-me cuidando de outros três filhos que viajaram aos Açores para ficar com os avós até o mano nascer. Obrigado Margarida pelo teu amor e entrega. Obrigado Dona Glória pelo sentimento e amizade que colocou no nascimento do Joseph convertendo-se em muito mais do que numa parteira, numa verdadeira amiga. Obrigado Cândida por me ter transmitido tanto amor e compaixão através de suas orações silenciosas e de suas mãos apertando as minhas. Obrigado Ric por seu cuidado, amizade e conselhos vindos do outro lado do oceano. Obrigado a todos aqueles que de tantas partes do mundo enviaram suas felicitações e mensagens de paz e amor. Obrigado às minhas colegas doulas pelas suas mensagens de carinho e apoio. Obrigado a Deus por permitir que meu sogro sobrevivesse a um AVC há 4 dias atrás para que soubesse do nascimento de seu 18º neto.
Sou tão grata por todos os nossos amigos que num concertado gesto de solidariedade têm trazido todas as refeições de modo a podermos descansar e disfrutar deste momento tão nosso e ao mesmo tempo de todos aqueles que amamos. Aos meus filhos que me ensinaram a crescer enquanto mãe, por todo o amor e entrega. Ao Mosíah (14 anos), por ter crescido numa atitude de reverência perante o milagre do nascimento. À Katiuska (13 anos) e seu instinto maternal que tão bem sabe usar olhando pelas necessidades dos irmãos na nossa ausência, bem como à Lara Lycia (11) e Ariel (9) como suas co-adjutoras.
Ao meu querido esposo, por tudo o que representa para mim, porque muito do que sou, se deve a esta total entrega de sentimentos de confiança, amizade, cumplicidade, ternura, humildade, comunicação, paixão, determinação desde o dia que decidimos, há 17 anos atrás, traçarmos este caminho de mãos dadas, lado a lado, colhendo os frutos do nosso amor.

Obrigado a ti Joseph por existires.
   

Cristina Torres

30 de Julho de 2005 – Vale de Milhaços – Corroios – Seixal - Portugal
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