Humpar

 
Nascimento da Prisca
8 Janeiro de 2002
 



A Prisca nasceu no hospital, após apenas 6 horas de trabalho de parto. Foram apenas 6 horas, sim, mas 6 horas intermináveis, longe do meu marido, tanto sozinha no corredor das urgências obstétricas, tanto na sala de trabalho com mais 6 outras mulheres a gritar de dores. Todo o processo com enfermeiras sem coração que em vez de dar apoio às mulheres, só as humilhavam. Estas 6 horas pareceram uma eternidade no corredor do inferno! Nas urgências obstétricas, já com contrações dolorosas, tive que vestir a incontornável bata azul com sapatos de plástico azul, e submeter-me à rapagem completa dos pelos púbicos e a lavagem intestinal (com um litro de água) executada por uma assistente enfermeira extremamente rabujenta que só parecia saber gritar em vez de falar. Esta lavagem deixou-me fechada na casa de banho durante cerca de uma hora, a esvaziar o meu intestino todo entre contrações muito desagradáveis, e com muita dificuldade em limpar-me por causa do tamanho da minha barriga, uma experiência que nem desejo à minha pior inimiga ! Depois de vários toques dolorosos e umas horas mais tarde, de pé no corredor interno das urgências obstetricas, uma enfermeira constatou que estava com 3 dedos de dilatação, e transferiu-me para a sala de trabalho.

Lá, fiquei deitada numa cama com monitorização continua e com 6 outras mulheres aflitas com dores. Só se via rostos deformados pelas dores e só se ouviam gritos e queixas. Quando uma gritava que não ia aguentar mais, uma enfermeira lhe respondia brutalmente que não tinha outra opção pois quis ter um filho e agora tinha que assumir e aguentar ! Que lindo apoio, francamente ! Fiquei em estado de choque, assustada pela rudeza das enfermeiras ! Depois de algum tempo, foi a minha vez de gritar de dores e de tremer de frio. Quando os meus dentes batiam uns contra os outros e o frio se tornou insuportável, eu pedi um cobertor para me aquecer. Mas a enfermeira respondeu-me amargamente que a culpa era minha porque estava a respirar mal e que bastava respirar melhor. Só que não fazia ideia como respirar melhor e ela nem se deu ao trabalho de tentar explicar-me. O cobertor tão desejado nunca apereceu e continuei congelada até chegar ao bloco de parto com 6 dedos de dilatação.


Quando lá cheguei, lembrei-me que tinha o direito de chamar o meu marido para ficar ao meu lado, e quando o fiz, responderam-me que o meu marido não ia aguentar ver-me «nesse estado» e portante só iam o deixar entrar depois de eu receber a epidural. No entanto deixaram-me completamente sozinha com os meus gritos no bloco durante mais uma hora, quando finalmente chegou o anestesista que me administrou a droga. Foi então que foram chamar o meu marido, eram 23 :30, e ja não precisava do apoio dele, mas pelo menos ele podia assistir ao nascimento. Quando entrou, ja estava com 8 dedos de dilatação. Deixaram nos sozinhos no bloco e dizeram nos para chamar quando estivesse com muita vontade de fazer força. Alguns minutos mais tarde a bolsa de água rebentou e logo a seguir senti vontade de fazer força. Aguentei essa vontade durante talvez uns 15-30 minutos e pedi ao meu marido para chamar a médica/enfermeira que confirmou a dilatação completa. Instalaram-me na posição ginecológica com as pernas penduradas em cima (extremamente desconfortável), e pediram-me para fazer força quando sentisse uma contração. Evidentemente que com a epidural não conseguia sentir isso, só sentia a dor aguda da cabeça da bebé a tentar caminhar dentro do canal vaginal para fora. Fiz força umas 5 vezes (ou seja durante cerca de 10 minutos), quando a médica/enfermeira resolveu cortar-me. «Vou cortar porque se não a bebé vai entrar em sofrimento», disse ela, «está bem» respondi disciplinada. Se eu soubesse…

Cortou e logo a seguir senti um «plop» muito forte. A cabeça da Prisca saiu seguida pelo corpo. Nem me lembro ter feito força depois do corte. Eram 00:38, a Prisca tinha nascido.  Puseram a minha filha nos meus braços uns minutos, deixaram o meu marido tirar duas fotografias e mandaram-no para a casa. Levaram a minha filha para o banho e os cuidados de saúde. Eu fiquei sozinha de novo no bloco enquanto a enfermeira/medica reparava o corte com pontos (que iriam rebentar alguns dias mais tarde, tendo de ser submetida a nova cirurgia 3 semanas mais tarde numa clinica privada porque o hospital recusou a reintervenção sob pretexto que a abertura era superficial). Por fim este corte aconselhado pelas enfermeiras do centro de saúde deixou-me sentada numa boia durante 2 meses e levou mais de 1 ano a parar de doer durante as relações com o meu marido. É estranho como isso nunca se ouve nas aulas de preparação ao parto. 

As enfermeiras nas aulas só dizem que a episiotomia é um pequeno corte que não custa e ajuda os bebés a sair…  Claro, dois meses numa boia e um ano de dores não custa, é canja ! É obvio !

Durante os dois dias que seguiram o nascimento da minha filha, a Prisca viu o pai dela durante talvez duas horas, por causa dos horários de visita limitados. No entanto, a Prisca teve a grande oportunidade de encontrar a metade dos médicos/ pediatras/ enfermeiras/ alunos do hospital durante as 48 horas que lá esteve, que a acordaram uma dúzia de vezes por dia para a avaliar/picar/administrar vitaminas/ vacinas… Apenas com algumas horas de vida, e a pobre bebé foi manipulada por tantos braços desconhecidos e pouco carinhosos, e tão pouco pelo próprio pai… Fiquei revoltada e triste interiormente.


A falta de conforto do quarto com 3 camas e da única casa de banho para os 16 quartos, tal como os gritos dos bebés à noite não ajudou o meu estado de espírito, se bem que entrei num «baby blues» terrivel durante a segunda noite, chorando durante horas com a minha filha a gritar nos meus braços no corredor da maternidade, para não acordar as minha vizinhas de quarto. Ninguém sequer reparou que precisava de apoio, pelo menos psicológico. Finalmente quando chegou o momento tão esperado de sair do hospital após 48 horas, aconteceu a súbida de leite no peito e nem sabia como esvaziar o meu peito quando estava demasiado cheio. Cheguei em casa com o peito duro como pedra, dores inesperadas, a minha filha adormecida e nenhuma indicação para tirar o leite sozinha…

Quando eu recordo este primeiro parto, humilhação, frustração, e solidão são os sentimentos que se misturaram com a grande alegria de ver a cara da minha filha pela primeira vez. Isto não devia acontecer. O nascimento de um filho só deveria trazer alegria, orgulho e felicidade aos pais, principalmente quando o parto é «normal» como foi o meu.

Quatro anos mais tarde, levanto-me da cama com enjoo. Vomito mais uma vez na casa de banho e resolvo fazer mais um teste de gravidez embora estivesse com enjoos ha mais de 2 meses e os dois últimos testes tivessem sido negativos. Após 5 minutos aparecem duas linhas cor de rosa. Estou grávida ! Convido a todos a saberem como foi maravilhoso este 2º parto lendo o relato do nascimento do meu filho Tom nos relatos de partos humanizados da HumPar.


Cathy Besson
Aroeira - Almada - Portugal