O Nascimento da Maria
A gravidez da Maria foi muito calma, com 18 anos não tinha grandes responsabilidades nem tarefas que me deixassem muito cansada, pelo que o único desconforto que senti ao longo desta gravidez abençoada foi uma sonolência muito grande nos primeiros meses e algumas tonturas ao levantar de manhã.
Comecei a ler tudo o que podia sobre gravidez e parto desde cedo na gravidez e fiz exercícios e ginástica respiratória em casa desde os três meses, auxiliada pelos livros que encontrei.
Nunca, em qualquer momento, me passou pela cabeça que fosse ter dor no parto. Acreditava na minha auto instrução e na ginástica que fazia e estive sempre muito confiante. A minha irmã mais velha (dez anos mais que eu) estava grávida do primeiro filho na mesma altura e passávamos horas a conversar sobre o assunto e ela achava que não devia ter muita dor mas esperava ter alguma. Lembro-me de pensar que bastava aquela centelha de dúvida para que ela provavelmente tivesse dor no parto.
Três semanas antes da data prevista estava a preparar a mala para levar para a maternidade e estava a ter algumas contracções que me deixavam desconfortável e me obrigavam a deitar de lado e a respirar pausadamente até passarem. Ao rebentar o rolhão mucoso avisei o meu pai de que se calhar era melhor irmos para o hospital. No caminho, sentada no banco de trás, ia avisando o meu pai (calmo, porque um pai de nove filhos não se enerva com estas coisas): 'uma, outra, outra', as contracções sucediam-se com intervalos de 1 minuto!
Quando cheguei ao hospital, uma enfermeira fez-me o toque e disse 'está pronta'. Eu pensei 'deve ser um termo técnico' e perguntei 'o que é que isso quer dizer?', ao que ela me respondeu 'está pronta para ter o bebé, tem aí a cabecinha a sair!' E eu continuava calma, feliz e sem sentir dor alguma.
Quando me deitei na marquesa da sala de partos, às oito e meia da noite, num acesso de ingenuidade que acho que ataca as mães quando estão quase a ter os bebés, perguntei a uma enfermeira 'quanto tempo é que isto vai demorar?', ao que ela me respondeu mal humorada 'vai levar o tempo que for preciso!'. Enquanto uma outra enfermeira amorosa me ajeitava os ganchos do cabelo, eu pensava 'esta deve ser parva, é melhor não falar mais com ela'.
Enquanto o meu médico não chegava, as enfermeiras foram à sua vida e senti uma pontada mais forte, ao que soltei um 'ai' breve e baixinho. Lembro-me como se fosse hoje de dizer para mim em voz alta 'ai??!!, que estúpida!' e comecei a fazer respirações breves e rápidas. Não senti mais nada.
O Dr. Carrelo chegou pouco depois e a recordação que tenho é a de conversar com ele entre contracções e de ele me avisar quando era para fazer força. Lembro-me a certa altura de ele se desviar das águas que rebentaram em jacto. E de me fazer a episiotomia. A Maria nasceu sem esforço às nove horas da noite.
Fui para o meu quarto e passado pouco tempo levaram a Maria para o berçário, de onde só veio para junto de mim na manhã seguinte, supostamente para eu descansar. Passei a noite toda a chamar as enfermeiras e a dizer que não estava nada cansada, quando é que me traziam a bebé, mas nada. Só a vi de novo de manhã quando lhe foram dar o banho e só aí lhe dei de mamar, provavelmente depois de alguns biberons dados pelas enfermeiras...
Até hoje, há pessoas que não acreditam na minha história, de tal maneira o parto sem dor lhes parece impossível. Algumas sugerem que o médico me anestesiou sem eu saber, mas, além de isso ser altamente improvável com qualquer médico, com o Dr. Carrelo seria ainda mais impossível, pois ele não era adepto de anestesias.
A minha mente estava firme na decisão de ter um parto consciente e sem dor e o meu corpo colaborou. E é tudo.
(relatos dos partos dos meus irmãos Carolina e Simão) Sofia Vaz Pinto
Caxias - Portugal
A gravidez da Maria foi muito calma, com 18 anos não tinha grandes responsabilidades nem tarefas que me deixassem muito cansada, pelo que o único desconforto que senti ao longo desta gravidez abençoada foi uma sonolência muito grande nos primeiros meses e algumas tonturas ao levantar de manhã.
Comecei a ler tudo o que podia sobre gravidez e parto desde cedo na gravidez e fiz exercícios e ginástica respiratória em casa desde os três meses, auxiliada pelos livros que encontrei.
Nunca, em qualquer momento, me passou pela cabeça que fosse ter dor no parto. Acreditava na minha auto instrução e na ginástica que fazia e estive sempre muito confiante. A minha irmã mais velha (dez anos mais que eu) estava grávida do primeiro filho na mesma altura e passávamos horas a conversar sobre o assunto e ela achava que não devia ter muita dor mas esperava ter alguma. Lembro-me de pensar que bastava aquela centelha de dúvida para que ela provavelmente tivesse dor no parto.
Três semanas antes da data prevista estava a preparar a mala para levar para a maternidade e estava a ter algumas contracções que me deixavam desconfortável e me obrigavam a deitar de lado e a respirar pausadamente até passarem. Ao rebentar o rolhão mucoso avisei o meu pai de que se calhar era melhor irmos para o hospital. No caminho, sentada no banco de trás, ia avisando o meu pai (calmo, porque um pai de nove filhos não se enerva com estas coisas): 'uma, outra, outra', as contracções sucediam-se com intervalos de 1 minuto!
Quando cheguei ao hospital, uma enfermeira fez-me o toque e disse 'está pronta'. Eu pensei 'deve ser um termo técnico' e perguntei 'o que é que isso quer dizer?', ao que ela me respondeu 'está pronta para ter o bebé, tem aí a cabecinha a sair!' E eu continuava calma, feliz e sem sentir dor alguma.
Quando me deitei na marquesa da sala de partos, às oito e meia da noite, num acesso de ingenuidade que acho que ataca as mães quando estão quase a ter os bebés, perguntei a uma enfermeira 'quanto tempo é que isto vai demorar?', ao que ela me respondeu mal humorada 'vai levar o tempo que for preciso!'. Enquanto uma outra enfermeira amorosa me ajeitava os ganchos do cabelo, eu pensava 'esta deve ser parva, é melhor não falar mais com ela'.
Enquanto o meu médico não chegava, as enfermeiras foram à sua vida e senti uma pontada mais forte, ao que soltei um 'ai' breve e baixinho. Lembro-me como se fosse hoje de dizer para mim em voz alta 'ai??!!, que estúpida!' e comecei a fazer respirações breves e rápidas. Não senti mais nada.
O Dr. Carrelo chegou pouco depois e a recordação que tenho é a de conversar com ele entre contracções e de ele me avisar quando era para fazer força. Lembro-me a certa altura de ele se desviar das águas que rebentaram em jacto. E de me fazer a episiotomia. A Maria nasceu sem esforço às nove horas da noite.
Fui para o meu quarto e passado pouco tempo levaram a Maria para o berçário, de onde só veio para junto de mim na manhã seguinte, supostamente para eu descansar. Passei a noite toda a chamar as enfermeiras e a dizer que não estava nada cansada, quando é que me traziam a bebé, mas nada. Só a vi de novo de manhã quando lhe foram dar o banho e só aí lhe dei de mamar, provavelmente depois de alguns biberons dados pelas enfermeiras...
Até hoje, há pessoas que não acreditam na minha história, de tal maneira o parto sem dor lhes parece impossível. Algumas sugerem que o médico me anestesiou sem eu saber, mas, além de isso ser altamente improvável com qualquer médico, com o Dr. Carrelo seria ainda mais impossível, pois ele não era adepto de anestesias.
A minha mente estava firme na decisão de ter um parto consciente e sem dor e o meu corpo colaborou. E é tudo.
(relatos dos partos dos meus irmãos Carolina e Simão) Sofia Vaz Pinto
Caxias - Portugal