O Nascimento da Lara
A minha gravidez decorreu sem problemas. Como quase todas as grávidas tive sentimentos ambíguos, sofri as mutações emocionais necessárias para me preparar para ser mãe. Fisicamente passei muito bem mas o nono mês foi literalmente pesado, sobretudo para uma pessoa activa como eu. Embora tenha engordado apenas 9 quilos, quase todos concentrados numa enorme barriga que pareceu crescer de repente, sentia-me uma espécie de paquiderme, lento e desajeitado mas brilhava com uma luz especial.
Desde os primeiros meses de gravidez que senti alguma ansiedade em relação ao parto, não por temer a dor mas porque através dos relatos que ia ouvindo de outras mulheres sempre me pareceu que a abordagem do parto como um processo clínico e o quase inexistente apoio psicológico durante o mesmo estavam na origem de muitas complicações. Por isso decidi informar-me o melhor possível.
Naveguei na Net durante meses, li livros, estudos, depoimentos, muni-me de muita informação relacionada com o processo do parto e finalmente, em consciência, pude decidir de acordo com a minha mais profunda intuição: o parto seria em casa. O Zé (meu companheiro) disse que apoiava qualquer decisão minha e contrariamente ao que esperavamos a família respeitou a nossa opção mas no trabalho houve quem me chamasse maluca e me perguntasse se não era ilegal ter um parto em casa…
A princípio, pensando que me descansaria, a minha médica obstetra, que assistia partos numa das principais clínicas privadas de Lisboa, dava-me a entender que tudo estava sob controlo. Disse-me que poderíamos planear o dia do nascimento para que ela estivesse presente, haveria sempre meios para aliviar a dor, a monitorização seria contínua e se algo não corresse bem abria-se a barriga e tiravam a bebé cá para fora. Aparentemente um processo muito eficiente mas eu queria que a Lara nascesse em tranquilidade, quando o seu momento chegasse, estando consciente de todo o meu corpo no processo do nascimento, sem soro nas veias, cateteres, o constante apitar do CTG, um cinto à volta da barriga a forçar-me à imobilidade e uma episiotomia quase certa, que poderia ser desnecessária. Quando lhe disse que não queria um parto hospitalar avançou com a estratégia do terror, pintando os piores cenários, desde o meu descontrole por incapacidade de suportar a dor, a eventualidade de prolapso do cordão, hemorragia, distócia de ombros e lesões neurológicas do feto no caso de período expulsivo prolongado. Eu estava irredutível. Sabia muito bem do que ela estava a falar, algumas dessas questões tinha também colocado à parteira. Tinha confiança nela, em mim e no processo natural do nascimento.
Sabia que iria contra o estabelecido mas sofria com a ideia de um ambiente hospitalar, que me parecia o menos apropriado para um momento tão sublime. Nessa altura ainda não conhecia as doulas. Acreditava que de pouco adiantaria fazer um plano de nascimento. As regras hospitalares não são flexíveis e teria de empreender uma luta desigual com enfermeiras e pessoal médico para fazer respeitar esse plano. Encontrando-me numa situação de vulnerabilidade o mais certo seria sucumbir à pressão. Moramos a 5 minutos do Hospital Amadora-Sintra. Se o parto não progredisse aí sim, o Hospital seria necessário. Tinha preparada a “mala da maternidade” com todas as roupas e apetrechos recomendados nas aulas de preparação para o parto mas acreditava que não a usaria.
Na noite em que a Lara nasceu tínhamos marcado uma visita de rotina à D. Glória, a parteira, pelas 22h00. No caminho comecei a sentir que as contracções que me acompanhavam havia já algumas semanas começavam a ser ligeiramente dolorosas. Também tinha a sensação de que a barriga descera um pouco. Disse-o ao Zé. Olhámos um para o outro, sorrimos e alguém disse: “Será hoje?!”. Quando chegámos a casa da D. Glória partilhei com ela as minhas suspeitas. Olhou para mim, riu-se e disse que com o aspecto que tinha não estava certamente em trabalho de parto mas ao observar-me viu que a cérvix já tinha dilatado e previu que o trabalho de parto começasse dali a umas horas. Aconselhou-me a ir para casa e dormir um pouco, pois iria necessitar de toda a minha energia.
Sentada no seu sofá procurava conversar, ao mesmo tempo que estava atenta aos movimentos do meu útero. Deviam ser umas 23h00. As contracções eram fracas mas bastante seguidas. Não disse nada com receio de que a D. Glória me tomasse por muito sensível mas pensei que dormir seria impossível. Quando chegámos deitei-me de lado na cama. Dormir só em pensamento. Tinha lido que a princípio as contracções são bastante espaçadas e que daria para conversar, andar e descansar nos intervalos mas tudo se estava a desenrolar muito rapidamente. Com a ajuda do Zé ainda fiz algumas tentativas para ir à casa-de-banho mas os intervalos entre contracções nunca eram superiores a 5 minutos e sempre que me punha em pé elas redobravam de intensidade.
Combináramos com uma médica de uma clínica de acupunctura, a Drª Isabel Sampaio, que me auxiliaria com agulhas durante o parto. Era uma da manhã e as contracções ficavam cada vez mais intensas. Pedi ao Zé que a chamasse mas com a pressa ela acabou por só trazer as agulhas e esqueceu-se da máquina que transmitia os impulsos eléctricos! Fiquei assustada mas não disse nada e pensei de mim para mim: “Isto ainda agora começou e já estou assim. Como é que vou aguentar até ao fim?” Depois tranquilizei-me: “Estou por mim, por isso é melhor que não me descontrole. Está tudo bem. É a Lara a chegar”. De facto eu não sabia que por essa altura a dilatação já deveria ir mais avançada do que previa a D. Glória, a quem o Zé ia informando telefonicamente do progresso do parto. A Drª Isabel disse que ia colocar umas agulhas para me ajudar a descontrair e senti que nesse aspecto de facto me ajudaram.
Sentia uma responsabilidade tremenda para que tudo corresse bem e empenhei-me no meu papel. Oscilava a bacia, concentrava-me nas respirações, adoptava as posições que instintivamente sentia serem as melhores para desacelerar um pouco as contracções e aliviar a pressão exercida pelo corpinho da Lara. Tinha lido sobre a importância de andar e adoptar posições verticais mas sentia necessidade de aconchego e o meu corpo dizia-me que me colocasse mais na horizontal, ora de gatas, ora de joelhos um pouco inclinada para a frente, ora deitada de lado. Pensava que se me tivesse que deitar de barriga para cima morreria de dor.
O Zé era incansável. Cronometrava os intervalos das contracções, ajudava-me a retomar o ritmo das respirações, previa as minhas necessidades de beber água, vestir-me, despir-me e incentivava-me com palavras de encorajamento. Não tinha bem consciência do tempo que passava mas sentia as contracções como enormes ondas que iam e vinham, independentemente da minha vontade. Não havia resistência possível. O meu útero e todo o meu corpo faziam o seu trabalho.
A dada altura já quase não havia intervalos entre contracções. As minhas pernas eram sacudidas por espasmos e ora tiritava de frio ora morria de calor. Tinha náuseas mas não cheguei a vomitar. O Zé entendia quando eu necessitava de qualquer coisa, sem ser preciso dizer-lhe nada. Recordando o que senti creio que foi por essa altura que fiquei fechada dentro de mim. Não me lembro de ver nem de ouvir nada. Quando consegui falar disse ao Zé: “Acho que já não aguento mais”. Lembrei-me que tinha lido algures que quando pensamos que estamos no limite é porque estamos a sair da fase da transição e a entrar na da expulsão. Isto deu-me algum alento e um facto é que logo a seguir tudo mudou.
A dor quase passou mas em breve me invadiu um ímpeto de fazer força tão violento como se nada mais existisse no mundo mas a D. Glória ainda vinha a caminho…Deitei-me de lado com as pernas bem fechadas e comecei a fazer a “respiração do cãozinho cansado”, pois tinha a sensação de que se me permitisse uma respiração mais longa a Lara sairia disparada de dentro de mim! Até ali o trabalho de parto tinha sido praticamente silencioso mas naquela altura, à força de contrariar o impulso de fazer força, soltava uns sons fortíssimos, vindos algures das minhas entranhas.
Recordo que a Drª Isabel Sampaio ia espreitando por baixo do cobertor, convencida de que a qualquer momento teria de fazer a vez da parteira! Finalmente a campainha tocou: era a D. Glória. Muito rapidamente vestiu uma bata verde, calçou umas luvas e disse-me para me deitar de barriga para cima para fazer o toque. “Já está. Vamos a isso”. Quase chorei de alívio. Finalmente podia começar a fazer força.
Apoiei as costas contra o peito do Zé que, por trás de mim, me segurava as mãos. Era bom sentir-me assim, colada a ele. As contracções iam e vinham sem dor. Nos intervalos acho que adormecia, tinha vontade de me deixar ir mas sabia que um último esforço me era exigido e em breve teria a Lara nos meus braços. No quarto havia um silêncio maravilhoso de concentração e expectativa. Eu estava muito tranquila. A D. Glória tinha uma voz simultaneamente meiga e grave: “Agora é que eu preciso da sua ajuda”. Comecei a fazer força mas o sono e o cansaço não me deixavam fazê-lo de forma correcta. Concentrava a força nas mãos e na garganta. “Não está bem. A força é em baixo”; “Muito bem, é assim, continue”. Durante as contracções, deitada de barriga sobre a cama para melhor me alcançar, a D. Glória ia seguindo os batimentos cardíacos da Lara. No seu olhar sentia um misto de tensão e segurança.
A D. Glória tinha-me avisado logo que a minha pélvis era estreita e que provavelmente o período expulsivo seria um pouco mais longo. Teríamos de esperar até que a cabeça da Lara se adaptasse. Não se enganou. Depois de cerca de 40 minutos e muitos empurrões a dada altura senti uma espécie de queimadura muito forte. Algo de maravilhoso se passava. A cabecinha começou a sair. Estava a conseguir, a Lara ia nascer! A D. Glória amparou o períneo e, em silêncio, com a última força que me restava, empurrei para o mundo uma bebé perfeitinha, coberta de um muco acinzentado, chorando a plenos pulmões. A D. Glória colocou-a sobre o meu peito. Que momento mágico, que milagre! A Lara nasceu às 4h45 do dia 8 de Janeiro de 2003, depois de 4 horas de trabalho de parto, com 3,250Kg; 53 cm e uma tremenda vitalidade. O meu períneo ficou intacto.
Ao recordar estes momentos sinto muita emoção. Foi uma parte de mim que se cumpriu. O parto é um maravilhoso processo de ligação à espécie, ao feminino, ao primordial. Depois dessa viagem, em que nasci para a maternidade, senti uma força tremenda, a força da terra e de todas as mulheres do mundo. Esse sentimento acompanha-me até hoje.
Tudo parecia um sonho, aquele ser tão esperado ali deitado na nossa cama e nós olhando-o incansavelmente, com um misto de surpresa e emoção, procurando reconhecê-lo e entender os seus sinais. Éramos três e sabíamos que nunca mais seria igual. Da pele da Lara, dos seus cabelinhos escuros, desprendia-se o odor mais delicioso que alguma vez senti.
Esse sonho, que entrou assim nas nossas vidas, tem hoje quase 3 anos. É forte, determinada, gosta de conversar, quer saber mil porquês, vibra com histórias de encantar e enche a casa com as suas brincadeiras.
Penso muitas vezes naquelas duas pessoas que partilharam daquele nosso momento de intimidade e embora não as visite tanto quanto gostaria sei que haverá sempre entre nós uma ligação e isso é muito bonito. A todos, a minha mais profunda gratidão.
Irene Franco
Amadora - Portugal
A minha gravidez decorreu sem problemas. Como quase todas as grávidas tive sentimentos ambíguos, sofri as mutações emocionais necessárias para me preparar para ser mãe. Fisicamente passei muito bem mas o nono mês foi literalmente pesado, sobretudo para uma pessoa activa como eu. Embora tenha engordado apenas 9 quilos, quase todos concentrados numa enorme barriga que pareceu crescer de repente, sentia-me uma espécie de paquiderme, lento e desajeitado mas brilhava com uma luz especial.
Desde os primeiros meses de gravidez que senti alguma ansiedade em relação ao parto, não por temer a dor mas porque através dos relatos que ia ouvindo de outras mulheres sempre me pareceu que a abordagem do parto como um processo clínico e o quase inexistente apoio psicológico durante o mesmo estavam na origem de muitas complicações. Por isso decidi informar-me o melhor possível.
Naveguei na Net durante meses, li livros, estudos, depoimentos, muni-me de muita informação relacionada com o processo do parto e finalmente, em consciência, pude decidir de acordo com a minha mais profunda intuição: o parto seria em casa. O Zé (meu companheiro) disse que apoiava qualquer decisão minha e contrariamente ao que esperavamos a família respeitou a nossa opção mas no trabalho houve quem me chamasse maluca e me perguntasse se não era ilegal ter um parto em casa…
A princípio, pensando que me descansaria, a minha médica obstetra, que assistia partos numa das principais clínicas privadas de Lisboa, dava-me a entender que tudo estava sob controlo. Disse-me que poderíamos planear o dia do nascimento para que ela estivesse presente, haveria sempre meios para aliviar a dor, a monitorização seria contínua e se algo não corresse bem abria-se a barriga e tiravam a bebé cá para fora. Aparentemente um processo muito eficiente mas eu queria que a Lara nascesse em tranquilidade, quando o seu momento chegasse, estando consciente de todo o meu corpo no processo do nascimento, sem soro nas veias, cateteres, o constante apitar do CTG, um cinto à volta da barriga a forçar-me à imobilidade e uma episiotomia quase certa, que poderia ser desnecessária. Quando lhe disse que não queria um parto hospitalar avançou com a estratégia do terror, pintando os piores cenários, desde o meu descontrole por incapacidade de suportar a dor, a eventualidade de prolapso do cordão, hemorragia, distócia de ombros e lesões neurológicas do feto no caso de período expulsivo prolongado. Eu estava irredutível. Sabia muito bem do que ela estava a falar, algumas dessas questões tinha também colocado à parteira. Tinha confiança nela, em mim e no processo natural do nascimento.
Sabia que iria contra o estabelecido mas sofria com a ideia de um ambiente hospitalar, que me parecia o menos apropriado para um momento tão sublime. Nessa altura ainda não conhecia as doulas. Acreditava que de pouco adiantaria fazer um plano de nascimento. As regras hospitalares não são flexíveis e teria de empreender uma luta desigual com enfermeiras e pessoal médico para fazer respeitar esse plano. Encontrando-me numa situação de vulnerabilidade o mais certo seria sucumbir à pressão. Moramos a 5 minutos do Hospital Amadora-Sintra. Se o parto não progredisse aí sim, o Hospital seria necessário. Tinha preparada a “mala da maternidade” com todas as roupas e apetrechos recomendados nas aulas de preparação para o parto mas acreditava que não a usaria.
Na noite em que a Lara nasceu tínhamos marcado uma visita de rotina à D. Glória, a parteira, pelas 22h00. No caminho comecei a sentir que as contracções que me acompanhavam havia já algumas semanas começavam a ser ligeiramente dolorosas. Também tinha a sensação de que a barriga descera um pouco. Disse-o ao Zé. Olhámos um para o outro, sorrimos e alguém disse: “Será hoje?!”. Quando chegámos a casa da D. Glória partilhei com ela as minhas suspeitas. Olhou para mim, riu-se e disse que com o aspecto que tinha não estava certamente em trabalho de parto mas ao observar-me viu que a cérvix já tinha dilatado e previu que o trabalho de parto começasse dali a umas horas. Aconselhou-me a ir para casa e dormir um pouco, pois iria necessitar de toda a minha energia.
Sentada no seu sofá procurava conversar, ao mesmo tempo que estava atenta aos movimentos do meu útero. Deviam ser umas 23h00. As contracções eram fracas mas bastante seguidas. Não disse nada com receio de que a D. Glória me tomasse por muito sensível mas pensei que dormir seria impossível. Quando chegámos deitei-me de lado na cama. Dormir só em pensamento. Tinha lido que a princípio as contracções são bastante espaçadas e que daria para conversar, andar e descansar nos intervalos mas tudo se estava a desenrolar muito rapidamente. Com a ajuda do Zé ainda fiz algumas tentativas para ir à casa-de-banho mas os intervalos entre contracções nunca eram superiores a 5 minutos e sempre que me punha em pé elas redobravam de intensidade.
Combináramos com uma médica de uma clínica de acupunctura, a Drª Isabel Sampaio, que me auxiliaria com agulhas durante o parto. Era uma da manhã e as contracções ficavam cada vez mais intensas. Pedi ao Zé que a chamasse mas com a pressa ela acabou por só trazer as agulhas e esqueceu-se da máquina que transmitia os impulsos eléctricos! Fiquei assustada mas não disse nada e pensei de mim para mim: “Isto ainda agora começou e já estou assim. Como é que vou aguentar até ao fim?” Depois tranquilizei-me: “Estou por mim, por isso é melhor que não me descontrole. Está tudo bem. É a Lara a chegar”. De facto eu não sabia que por essa altura a dilatação já deveria ir mais avançada do que previa a D. Glória, a quem o Zé ia informando telefonicamente do progresso do parto. A Drª Isabel disse que ia colocar umas agulhas para me ajudar a descontrair e senti que nesse aspecto de facto me ajudaram.
Sentia uma responsabilidade tremenda para que tudo corresse bem e empenhei-me no meu papel. Oscilava a bacia, concentrava-me nas respirações, adoptava as posições que instintivamente sentia serem as melhores para desacelerar um pouco as contracções e aliviar a pressão exercida pelo corpinho da Lara. Tinha lido sobre a importância de andar e adoptar posições verticais mas sentia necessidade de aconchego e o meu corpo dizia-me que me colocasse mais na horizontal, ora de gatas, ora de joelhos um pouco inclinada para a frente, ora deitada de lado. Pensava que se me tivesse que deitar de barriga para cima morreria de dor.
O Zé era incansável. Cronometrava os intervalos das contracções, ajudava-me a retomar o ritmo das respirações, previa as minhas necessidades de beber água, vestir-me, despir-me e incentivava-me com palavras de encorajamento. Não tinha bem consciência do tempo que passava mas sentia as contracções como enormes ondas que iam e vinham, independentemente da minha vontade. Não havia resistência possível. O meu útero e todo o meu corpo faziam o seu trabalho.
A dada altura já quase não havia intervalos entre contracções. As minhas pernas eram sacudidas por espasmos e ora tiritava de frio ora morria de calor. Tinha náuseas mas não cheguei a vomitar. O Zé entendia quando eu necessitava de qualquer coisa, sem ser preciso dizer-lhe nada. Recordando o que senti creio que foi por essa altura que fiquei fechada dentro de mim. Não me lembro de ver nem de ouvir nada. Quando consegui falar disse ao Zé: “Acho que já não aguento mais”. Lembrei-me que tinha lido algures que quando pensamos que estamos no limite é porque estamos a sair da fase da transição e a entrar na da expulsão. Isto deu-me algum alento e um facto é que logo a seguir tudo mudou.
A dor quase passou mas em breve me invadiu um ímpeto de fazer força tão violento como se nada mais existisse no mundo mas a D. Glória ainda vinha a caminho…Deitei-me de lado com as pernas bem fechadas e comecei a fazer a “respiração do cãozinho cansado”, pois tinha a sensação de que se me permitisse uma respiração mais longa a Lara sairia disparada de dentro de mim! Até ali o trabalho de parto tinha sido praticamente silencioso mas naquela altura, à força de contrariar o impulso de fazer força, soltava uns sons fortíssimos, vindos algures das minhas entranhas.
Recordo que a Drª Isabel Sampaio ia espreitando por baixo do cobertor, convencida de que a qualquer momento teria de fazer a vez da parteira! Finalmente a campainha tocou: era a D. Glória. Muito rapidamente vestiu uma bata verde, calçou umas luvas e disse-me para me deitar de barriga para cima para fazer o toque. “Já está. Vamos a isso”. Quase chorei de alívio. Finalmente podia começar a fazer força.
Apoiei as costas contra o peito do Zé que, por trás de mim, me segurava as mãos. Era bom sentir-me assim, colada a ele. As contracções iam e vinham sem dor. Nos intervalos acho que adormecia, tinha vontade de me deixar ir mas sabia que um último esforço me era exigido e em breve teria a Lara nos meus braços. No quarto havia um silêncio maravilhoso de concentração e expectativa. Eu estava muito tranquila. A D. Glória tinha uma voz simultaneamente meiga e grave: “Agora é que eu preciso da sua ajuda”. Comecei a fazer força mas o sono e o cansaço não me deixavam fazê-lo de forma correcta. Concentrava a força nas mãos e na garganta. “Não está bem. A força é em baixo”; “Muito bem, é assim, continue”. Durante as contracções, deitada de barriga sobre a cama para melhor me alcançar, a D. Glória ia seguindo os batimentos cardíacos da Lara. No seu olhar sentia um misto de tensão e segurança.
A D. Glória tinha-me avisado logo que a minha pélvis era estreita e que provavelmente o período expulsivo seria um pouco mais longo. Teríamos de esperar até que a cabeça da Lara se adaptasse. Não se enganou. Depois de cerca de 40 minutos e muitos empurrões a dada altura senti uma espécie de queimadura muito forte. Algo de maravilhoso se passava. A cabecinha começou a sair. Estava a conseguir, a Lara ia nascer! A D. Glória amparou o períneo e, em silêncio, com a última força que me restava, empurrei para o mundo uma bebé perfeitinha, coberta de um muco acinzentado, chorando a plenos pulmões. A D. Glória colocou-a sobre o meu peito. Que momento mágico, que milagre! A Lara nasceu às 4h45 do dia 8 de Janeiro de 2003, depois de 4 horas de trabalho de parto, com 3,250Kg; 53 cm e uma tremenda vitalidade. O meu períneo ficou intacto.
Ao recordar estes momentos sinto muita emoção. Foi uma parte de mim que se cumpriu. O parto é um maravilhoso processo de ligação à espécie, ao feminino, ao primordial. Depois dessa viagem, em que nasci para a maternidade, senti uma força tremenda, a força da terra e de todas as mulheres do mundo. Esse sentimento acompanha-me até hoje.
Tudo parecia um sonho, aquele ser tão esperado ali deitado na nossa cama e nós olhando-o incansavelmente, com um misto de surpresa e emoção, procurando reconhecê-lo e entender os seus sinais. Éramos três e sabíamos que nunca mais seria igual. Da pele da Lara, dos seus cabelinhos escuros, desprendia-se o odor mais delicioso que alguma vez senti.
Esse sonho, que entrou assim nas nossas vidas, tem hoje quase 3 anos. É forte, determinada, gosta de conversar, quer saber mil porquês, vibra com histórias de encantar e enche a casa com as suas brincadeiras.
Penso muitas vezes naquelas duas pessoas que partilharam daquele nosso momento de intimidade e embora não as visite tanto quanto gostaria sei que haverá sempre entre nós uma ligação e isso é muito bonito. A todos, a minha mais profunda gratidão.
Irene Franco
Amadora - Portugal
