O Meu Parto... ou seja, O Nascimento da Dunia
04 de Junho de 2004
Nove meses antes, o meu companheiro dava-me a notícia - vamos ter um bebé! É impressionante a importância e bagagem emocional que traz na nossa cultura o risco vermelho (ou azul) numa janela de uma pequena caixinha de plástico... Seguiram-se lágrimas de felicidade, muitos abraços e um maravilhoso sentimento de compartilhar o meu corpo com alguém que me acompanharia durante os próximos nove meses.
Tudo corria lindamente, os proverbiais enjoos matinais acabaram com a medicação homeopática e uns frutos secos que tinha de comer antes de levantar. Fui acompanhada no Centro de Saúde pela médica de família (uma pessoa excepcional), com algumas consultas de rotina na Maternidade (de má memória) e seguida pelo médico homeopata, que prescrevia uma medicação adequada a cada etapa da gravidez, com acordo as minhas características pessoais, indicando-me também uma pequena lista de medicamentos adequados para o parto.
A barriga crescia de dia para dia, adorava a sensação de estar grávida! Tenho já saudades... Não tive quaisquer outros problemas, certamente que os exercícios de Yoga ajudaram também bastante.
Desde o princípio foi para nós claro que o melhor local para o bebé nascer seria a nossa casa. Depois de muitas leituras, a ida à conferência de parteiras com a participação de Sheila Kitzinger, conversas com mães que deram à luz nas suas casas, sabendo que a minha gravidez se desenvolvia na perfeição, conhecendo-me a mim e à minha atitude perante a vida, ainda mais se confirmou o nosso sentimento. O problema foi... Encontrar uma parteira... Demorou quase toda a gravidez, mas consegui. Tudo estava já preparado, tudo combinado. Claro, tive que ouvir milhares de considerações sobre a minha sanidade mental de quase todas as pessoas à minha volta. Felizmente tive um forte apoio de várias pessoas muito importantes para mim e claro, toda a bagagem de informação que recolhi, por isso estava confiante e segura da decisão.
Mas o/a pequeno/a malandreco/a que trazia em mim (na altura não sabíamos o sexo - algo que aconselho vivamente!) não quis virar... Eu frequentava nessa altura um curso de terapias naturais, que incluía a aprendizagem dos pontos de acupunctura. Fui rapidamente procurar qual o ponto que faz o bebé virar e informei-me junto dos professores como prosseguir com a técnica. Foi então necessário usar moxa - o tal "charuto" de artimisia. Mas como nunca fumei, a minha prática com cinzas é bastante reduzida. Depois de fazer um buraco no sofá, outro na carpete e dois numa toalha, o meu companheiro proibiu-me de continuar e resolvemos ir a um especialista. Entretanto, na maternidade ao ver na ecografia o meu bebé alegremente sentadinho às 32, 33, 34, 35, 36, 37 semanas de gravidez, quiseram marcar uma cesariana. Alto lá! Eu, cesariana, nem pensar! Informei a médica e parteira sobre a minha vontade de primeiro fazer acupunctura e ouvi: "O Espírito Santo não vai ajudar". Ri-me por dentro e fui à consulta de acupunctura. Fiz algumas sessões de moxa, auriculoterapia e acupunctura e depois voltei à maternidade na consulta seguinte. "- Então, prefere dia 4 ou depois do fim-de-semana, dia 7?" "-Desculpe?", "-A cesariana, para quando quer marcar afinal?", "-Sabe, é uma questão muito delicada decidir o dia de nascimento de um filho, não é melhor ver primeiro como está o bebé?"
Fomos fazer mais um exame. No cimo da minha barriga notava-se muito bem um altinho a mexer-se: "-Olha a cabecinha!", vamos ver, pensei eu... Ao fazer o exame ginecológico, ouço um grito da médica: "-Como?! A cabeça está aqui! Ela conseguiu, com 38 semanas, que força de vontade!" e informando de imediato todas as colegas nas redondezas sobre um tal "miraculoso" acontecimento... Fiquei tão aliviada! Tão feliz! Agradeci tanto ao acupunctor e, claro ao meu bebé, não termos de passar por uma cesariana!
Faltavam duas semanas. Sabia que apenas 5% das crianças nascem no dia previsto, não tive grande esperança e na data indicada como suposta para o parto fui a uma conferência de Lauro Trevisan sobre… felicidade. Particularmente agradável, saímos ainda mais felizes, como era suposto. Dentro de quatro dias (dia 4) chegaria a lua cheia, aí sim, já esperava que algo acontecesse.
No terceiro dia decidi dar uma ajudinha. Quis mesmo que o bebé nascesse em breve. Tinha uma consulta marcada na maternidade no dia 4, onde me esperaria occitocina para provocar o parto. Conhecendo as consequências, não deixaria que tal acontecesse, pois sentia que o bebé estava bem, até duas semanas depois da data prevista ainda é tempo para esperar. Mas quis evitar questões com o hospital - não convém à grávida ficar nervosa, não é verdade?
Decidi testar métodos mais pacíficos para verificar se a minha pequenina já estava preparada para sair - dançámos! À noite, por volta da 1 da manhã, estava sentada com o meu companheiro no sofá, quando lhe anunciei - o nosso bebé vai nascer hoje! Já há alguns minutos começara a sentir o nosso pequeno a "bater à porta", de forma muito sistemática! Desde o principio tive contracções cada 3 minutos e bem fortes! Telefonamos à parteira… que nos informa, nem mais nem menos, que não pode vir porque está nas urgências com a sua madrinha, de 80 anos, da qual toma conta e com quem tem que ficar, dada a idade e afinidade!
Pode-se imaginar como uma pessoa que durante toda a gravidez sonha e luta por um parto em casa não se imagina minimamente a passar por draconianos procedimentos hospitalares, consciente do que eles significam, e como fica neste momento... Tentei manter-me calma, sabia que era a única maneira de não me meter em sarilhos num momento destes... Olhei para a lua que batia com a sua luz na minha janela, olhei para o meu companheiro que de certeza ficou muito assustado à espera da minha reacção... Chorei um bocadinho e fui fazer a mala para a maternidade...
As horas iam passando, o meu companheiro incansavelmente anotava a hora e duração de todas as contracções. Acendi uma vela que aguardara a chegada do nosso bebé, pus música que me acalmava e que costumava ouvir durante toda a gravidez quando falava com o pequeno ser na minha barriga. Passei toda a noite a caminhar - só me tentei sentar uma vez e, sentindo a diferença na intensidade da dor, desisti rapidamente! Quando chegavam as contracções apoiava-me na mesa com os braços, começava a respirar da maneira que sentia ser a melhor para mim e movia as ancas de forma a minimizar a dor e a ajudar o bebé a descer. Desde as primeiras contracções tomei os medicamentos homeopáticos indicados pelo meu médico, também o Rescue (este também para meu companheiro). Comia algumas coisinhas leves e bebia água.
Foi uma noite muito bonita... A enorme lua que ocupara a minha janela no passar das horas começava a desaparecer e o céu enchia-se de vermelho... Simbólico...
Estava à janela a apanhar os primeiros raios de luz, curioso, porque caiam na minha barriga. Sentia-me como se me enchesse de luz, a luz que vou dar, ou devolver, dentro de algumas horas, junto com o dia que nascia...
Senti-me tão bem, tão feliz, tão em harmonia com a Vida, com os seus ciclos... Começou o meu rito de passagem, estava a pensar em tudo o que acaba e tudo o que começa, um momento único na vida... Amanhã nada vai ser igual, são estas horas, mesmo agora, que mudam a minha vida, pensei. Parecia que sentia fisicamente a compressão do tempo, as imagens do meu passado passavam rapidamente na minha mente e despedia-me. Não sabia bem de quê, com quem, foi como se libertasse algum espaço virtual algures bem dentro de mim. Com cada contracção, cada vez mais intensas, mais devoradoras, sentia uma força quase sobrenatural a vir ao de cima. Não sei porquê, pensei nas lobas a darem a luz nas suas tocas, à noite, no silêncio. Talvez me encontrasse com a fêmea dentro de mim e ao mesmo tempo com todas as fêmeas que davam à luz neste momento. O dia chegara, com ela o ruído da vida diurna... O meu organismo purificou-se deitando o desnecessário fora. O meu companheiro perguntara-me a meio da noite: "- Mas como vamos saber quando vai chegar a altura de irmos para a maternidade?". Respondi: "-Agora não sei, mas acho que vou saber quando for preciso". E assim foi. Eram 9h00 horas. "-Vamos, é agora." O caminho foi doloroso... Nunca tinha reparado que o carro salta tanto a andar... Chegámos com toda a calma, dissemos à recepcionista... que era para internamento para parto, ela com toda a calma começou a procurar o processo, indicou o sitio onde, quando chegasse a minha vez, me iriam chamar. Não dissemos que as contracções já haviam começado há várias horas... Eu sentia-me bem, mesmo que as dores já tivessem chegado bem longe, lidando com as contracções à minha maneira, praticadas durante 8 horas. Entretanto apareceu uma familiar que, quando soube que tinham começado à 1h00 começou a ficar nervosa e tentou-o dizer isso aos médicos. Nem sei como entrei no gabinete médico! Sete dedos de dilatação! Para a sala de partos! Já! Quando chegámos ao segundo piso a dilatação já estava feita. Tive que me deitar... Foi horroroso, a dor era tão violenta, não só na intensidade, mas na maneira como vinha, toda desajeitada, desorientada, louca. Logo disse que queria ser informada previamente sobre todos os procedimentos que me quisessem fazer e que teria de concordar antes de serem feitos, que não queria nenhum analgésico, nem episiotomia, nem occitocina. "- Mas porquê? A senhora é médica?" O que ouvi como resposta... Diferentes pessoas entravam, saíam, mudavam e cada uma dava os seus conselhos: "- Dá um pouco de occitocina!". "-A senhora não quer" "-Não quer? Porquê?" (mesmo já com a dilatação feita me queriam dar a hormona!) "-Ai, toma amor, toma um analgésico, nem posso olhar para ti, não ouviste sobre parto sem dor?". "-Ela não quer, já passou toda a noite com contracções" "-O quê?! Ai, não é possível" O meu companheiro, que estava ao meu lado, tentava responder por mim, com educação, de forma a acalmar a situação. Provavelmente teve medo que não me fosse comportar muito calmamente. Sabe-se como se comportam as fêmeas com as crias quando alguém lhes quer fazer mal!
Depois de largos minutos tempo nesta confusão, a informação de que as contracções ficaram mais lentas não me surpreendeu de nada... Depois de várias intervenções desnecessárias e muito dolorosas, incluindo episiotomia, ouvi o que tanto esperei - já se vê a cabecinha! Pensei - estamos salvos, bebé! Às 10h36 toquei pela primeira vez na vida numa coisa tão macia, a pele de um recém-nascido, do meu bebé. Ambos esquecêramos que não sabíamos o sexo. De repente ouço: "-Temos uma menina!" Na verdade só tínhamos chegado a acordo quanto ao nome para rapariga, para rapaz não conseguimos encontrar nenhum a gosto de ambos...
Ficamos alguns minutos juntos, os três, disse à minha menina todas as coisas importantes que tinha para lhe dizer. Ela ouviu com muita atenção, olhando para mim com os seus olhinhos bem grandes e abertos. Depois levaram-na. Cada vez que penso neste momento sinto um nó horrível no coração e na garganta. Porque deixei?! Tenho tanta pena de o ter feito...
A terceira fase do parto desapareceu, a placenta foi tirada com as mãos! Algo que, claro, nunca deveria ser feito, excepto em caso emergência, que não se verificou.
Chegou o tempo da costura, a pior e mais dolorosa parte do parto, ainda por cima facilmente evitável! Os pontos teoreticamente deveriam sair por si. No entanto foram feitos de tal maneira que foi necessário recorrer ao Centro de Saúde para os retirar, algo nada agradável.
A seguir ao parto, fiquei sozinha no corredor... "-Porquê? Onde está o meu bebé? O que fazem com ele? E o meu companheiro?". Fazia todas estas perguntas a cada pessoa que passava e só ouvia: "-Já vai". "-Mas quero o meu bebé já, aqui!" Depois de algum tempo cansaram-se de me ouvir e trouxeram a bebé. Quando soube onde estava fiquei furiosa - tinha estado a aquecer debaixo de lâmpada. No exterior estavam 30º C, lá dentro quente também... E juntinho a meu corpo não passaria frio de certeza absoluta. Apesar de ter parecido uma eternidade, passaram apenas 20 minutos. Encostei a sua boquinha ao meu mamilo, pegou logo e começou a chupar com uma carinha de prazer e sossego. Chorei tanto, tanto, não conseguia parar... Mas de felicidade!
Aleksandra Berg
Outubro de 2004 – Coimbra - Portugal
04 de Junho de 2004
Nove meses antes, o meu companheiro dava-me a notícia - vamos ter um bebé! É impressionante a importância e bagagem emocional que traz na nossa cultura o risco vermelho (ou azul) numa janela de uma pequena caixinha de plástico... Seguiram-se lágrimas de felicidade, muitos abraços e um maravilhoso sentimento de compartilhar o meu corpo com alguém que me acompanharia durante os próximos nove meses.
Tudo corria lindamente, os proverbiais enjoos matinais acabaram com a medicação homeopática e uns frutos secos que tinha de comer antes de levantar. Fui acompanhada no Centro de Saúde pela médica de família (uma pessoa excepcional), com algumas consultas de rotina na Maternidade (de má memória) e seguida pelo médico homeopata, que prescrevia uma medicação adequada a cada etapa da gravidez, com acordo as minhas características pessoais, indicando-me também uma pequena lista de medicamentos adequados para o parto.
A barriga crescia de dia para dia, adorava a sensação de estar grávida! Tenho já saudades... Não tive quaisquer outros problemas, certamente que os exercícios de Yoga ajudaram também bastante.
Desde o princípio foi para nós claro que o melhor local para o bebé nascer seria a nossa casa. Depois de muitas leituras, a ida à conferência de parteiras com a participação de Sheila Kitzinger, conversas com mães que deram à luz nas suas casas, sabendo que a minha gravidez se desenvolvia na perfeição, conhecendo-me a mim e à minha atitude perante a vida, ainda mais se confirmou o nosso sentimento. O problema foi... Encontrar uma parteira... Demorou quase toda a gravidez, mas consegui. Tudo estava já preparado, tudo combinado. Claro, tive que ouvir milhares de considerações sobre a minha sanidade mental de quase todas as pessoas à minha volta. Felizmente tive um forte apoio de várias pessoas muito importantes para mim e claro, toda a bagagem de informação que recolhi, por isso estava confiante e segura da decisão.
Mas o/a pequeno/a malandreco/a que trazia em mim (na altura não sabíamos o sexo - algo que aconselho vivamente!) não quis virar... Eu frequentava nessa altura um curso de terapias naturais, que incluía a aprendizagem dos pontos de acupunctura. Fui rapidamente procurar qual o ponto que faz o bebé virar e informei-me junto dos professores como prosseguir com a técnica. Foi então necessário usar moxa - o tal "charuto" de artimisia. Mas como nunca fumei, a minha prática com cinzas é bastante reduzida. Depois de fazer um buraco no sofá, outro na carpete e dois numa toalha, o meu companheiro proibiu-me de continuar e resolvemos ir a um especialista. Entretanto, na maternidade ao ver na ecografia o meu bebé alegremente sentadinho às 32, 33, 34, 35, 36, 37 semanas de gravidez, quiseram marcar uma cesariana. Alto lá! Eu, cesariana, nem pensar! Informei a médica e parteira sobre a minha vontade de primeiro fazer acupunctura e ouvi: "O Espírito Santo não vai ajudar". Ri-me por dentro e fui à consulta de acupunctura. Fiz algumas sessões de moxa, auriculoterapia e acupunctura e depois voltei à maternidade na consulta seguinte. "- Então, prefere dia 4 ou depois do fim-de-semana, dia 7?" "-Desculpe?", "-A cesariana, para quando quer marcar afinal?", "-Sabe, é uma questão muito delicada decidir o dia de nascimento de um filho, não é melhor ver primeiro como está o bebé?"
Fomos fazer mais um exame. No cimo da minha barriga notava-se muito bem um altinho a mexer-se: "-Olha a cabecinha!", vamos ver, pensei eu... Ao fazer o exame ginecológico, ouço um grito da médica: "-Como?! A cabeça está aqui! Ela conseguiu, com 38 semanas, que força de vontade!" e informando de imediato todas as colegas nas redondezas sobre um tal "miraculoso" acontecimento... Fiquei tão aliviada! Tão feliz! Agradeci tanto ao acupunctor e, claro ao meu bebé, não termos de passar por uma cesariana!
Faltavam duas semanas. Sabia que apenas 5% das crianças nascem no dia previsto, não tive grande esperança e na data indicada como suposta para o parto fui a uma conferência de Lauro Trevisan sobre… felicidade. Particularmente agradável, saímos ainda mais felizes, como era suposto. Dentro de quatro dias (dia 4) chegaria a lua cheia, aí sim, já esperava que algo acontecesse.
No terceiro dia decidi dar uma ajudinha. Quis mesmo que o bebé nascesse em breve. Tinha uma consulta marcada na maternidade no dia 4, onde me esperaria occitocina para provocar o parto. Conhecendo as consequências, não deixaria que tal acontecesse, pois sentia que o bebé estava bem, até duas semanas depois da data prevista ainda é tempo para esperar. Mas quis evitar questões com o hospital - não convém à grávida ficar nervosa, não é verdade?
Decidi testar métodos mais pacíficos para verificar se a minha pequenina já estava preparada para sair - dançámos! À noite, por volta da 1 da manhã, estava sentada com o meu companheiro no sofá, quando lhe anunciei - o nosso bebé vai nascer hoje! Já há alguns minutos começara a sentir o nosso pequeno a "bater à porta", de forma muito sistemática! Desde o principio tive contracções cada 3 minutos e bem fortes! Telefonamos à parteira… que nos informa, nem mais nem menos, que não pode vir porque está nas urgências com a sua madrinha, de 80 anos, da qual toma conta e com quem tem que ficar, dada a idade e afinidade!
Pode-se imaginar como uma pessoa que durante toda a gravidez sonha e luta por um parto em casa não se imagina minimamente a passar por draconianos procedimentos hospitalares, consciente do que eles significam, e como fica neste momento... Tentei manter-me calma, sabia que era a única maneira de não me meter em sarilhos num momento destes... Olhei para a lua que batia com a sua luz na minha janela, olhei para o meu companheiro que de certeza ficou muito assustado à espera da minha reacção... Chorei um bocadinho e fui fazer a mala para a maternidade...
As horas iam passando, o meu companheiro incansavelmente anotava a hora e duração de todas as contracções. Acendi uma vela que aguardara a chegada do nosso bebé, pus música que me acalmava e que costumava ouvir durante toda a gravidez quando falava com o pequeno ser na minha barriga. Passei toda a noite a caminhar - só me tentei sentar uma vez e, sentindo a diferença na intensidade da dor, desisti rapidamente! Quando chegavam as contracções apoiava-me na mesa com os braços, começava a respirar da maneira que sentia ser a melhor para mim e movia as ancas de forma a minimizar a dor e a ajudar o bebé a descer. Desde as primeiras contracções tomei os medicamentos homeopáticos indicados pelo meu médico, também o Rescue (este também para meu companheiro). Comia algumas coisinhas leves e bebia água.
Foi uma noite muito bonita... A enorme lua que ocupara a minha janela no passar das horas começava a desaparecer e o céu enchia-se de vermelho... Simbólico...
Estava à janela a apanhar os primeiros raios de luz, curioso, porque caiam na minha barriga. Sentia-me como se me enchesse de luz, a luz que vou dar, ou devolver, dentro de algumas horas, junto com o dia que nascia...
Senti-me tão bem, tão feliz, tão em harmonia com a Vida, com os seus ciclos... Começou o meu rito de passagem, estava a pensar em tudo o que acaba e tudo o que começa, um momento único na vida... Amanhã nada vai ser igual, são estas horas, mesmo agora, que mudam a minha vida, pensei. Parecia que sentia fisicamente a compressão do tempo, as imagens do meu passado passavam rapidamente na minha mente e despedia-me. Não sabia bem de quê, com quem, foi como se libertasse algum espaço virtual algures bem dentro de mim. Com cada contracção, cada vez mais intensas, mais devoradoras, sentia uma força quase sobrenatural a vir ao de cima. Não sei porquê, pensei nas lobas a darem a luz nas suas tocas, à noite, no silêncio. Talvez me encontrasse com a fêmea dentro de mim e ao mesmo tempo com todas as fêmeas que davam à luz neste momento. O dia chegara, com ela o ruído da vida diurna... O meu organismo purificou-se deitando o desnecessário fora. O meu companheiro perguntara-me a meio da noite: "- Mas como vamos saber quando vai chegar a altura de irmos para a maternidade?". Respondi: "-Agora não sei, mas acho que vou saber quando for preciso". E assim foi. Eram 9h00 horas. "-Vamos, é agora." O caminho foi doloroso... Nunca tinha reparado que o carro salta tanto a andar... Chegámos com toda a calma, dissemos à recepcionista... que era para internamento para parto, ela com toda a calma começou a procurar o processo, indicou o sitio onde, quando chegasse a minha vez, me iriam chamar. Não dissemos que as contracções já haviam começado há várias horas... Eu sentia-me bem, mesmo que as dores já tivessem chegado bem longe, lidando com as contracções à minha maneira, praticadas durante 8 horas. Entretanto apareceu uma familiar que, quando soube que tinham começado à 1h00 começou a ficar nervosa e tentou-o dizer isso aos médicos. Nem sei como entrei no gabinete médico! Sete dedos de dilatação! Para a sala de partos! Já! Quando chegámos ao segundo piso a dilatação já estava feita. Tive que me deitar... Foi horroroso, a dor era tão violenta, não só na intensidade, mas na maneira como vinha, toda desajeitada, desorientada, louca. Logo disse que queria ser informada previamente sobre todos os procedimentos que me quisessem fazer e que teria de concordar antes de serem feitos, que não queria nenhum analgésico, nem episiotomia, nem occitocina. "- Mas porquê? A senhora é médica?" O que ouvi como resposta... Diferentes pessoas entravam, saíam, mudavam e cada uma dava os seus conselhos: "- Dá um pouco de occitocina!". "-A senhora não quer" "-Não quer? Porquê?" (mesmo já com a dilatação feita me queriam dar a hormona!) "-Ai, toma amor, toma um analgésico, nem posso olhar para ti, não ouviste sobre parto sem dor?". "-Ela não quer, já passou toda a noite com contracções" "-O quê?! Ai, não é possível" O meu companheiro, que estava ao meu lado, tentava responder por mim, com educação, de forma a acalmar a situação. Provavelmente teve medo que não me fosse comportar muito calmamente. Sabe-se como se comportam as fêmeas com as crias quando alguém lhes quer fazer mal!
Depois de largos minutos tempo nesta confusão, a informação de que as contracções ficaram mais lentas não me surpreendeu de nada... Depois de várias intervenções desnecessárias e muito dolorosas, incluindo episiotomia, ouvi o que tanto esperei - já se vê a cabecinha! Pensei - estamos salvos, bebé! Às 10h36 toquei pela primeira vez na vida numa coisa tão macia, a pele de um recém-nascido, do meu bebé. Ambos esquecêramos que não sabíamos o sexo. De repente ouço: "-Temos uma menina!" Na verdade só tínhamos chegado a acordo quanto ao nome para rapariga, para rapaz não conseguimos encontrar nenhum a gosto de ambos...
Ficamos alguns minutos juntos, os três, disse à minha menina todas as coisas importantes que tinha para lhe dizer. Ela ouviu com muita atenção, olhando para mim com os seus olhinhos bem grandes e abertos. Depois levaram-na. Cada vez que penso neste momento sinto um nó horrível no coração e na garganta. Porque deixei?! Tenho tanta pena de o ter feito...
A terceira fase do parto desapareceu, a placenta foi tirada com as mãos! Algo que, claro, nunca deveria ser feito, excepto em caso emergência, que não se verificou.
Chegou o tempo da costura, a pior e mais dolorosa parte do parto, ainda por cima facilmente evitável! Os pontos teoreticamente deveriam sair por si. No entanto foram feitos de tal maneira que foi necessário recorrer ao Centro de Saúde para os retirar, algo nada agradável.
A seguir ao parto, fiquei sozinha no corredor... "-Porquê? Onde está o meu bebé? O que fazem com ele? E o meu companheiro?". Fazia todas estas perguntas a cada pessoa que passava e só ouvia: "-Já vai". "-Mas quero o meu bebé já, aqui!" Depois de algum tempo cansaram-se de me ouvir e trouxeram a bebé. Quando soube onde estava fiquei furiosa - tinha estado a aquecer debaixo de lâmpada. No exterior estavam 30º C, lá dentro quente também... E juntinho a meu corpo não passaria frio de certeza absoluta. Apesar de ter parecido uma eternidade, passaram apenas 20 minutos. Encostei a sua boquinha ao meu mamilo, pegou logo e começou a chupar com uma carinha de prazer e sossego. Chorei tanto, tanto, não conseguia parar... Mas de felicidade!
Aleksandra Berg
Outubro de 2004 – Coimbra - Portugal
