O Nascimento da Clarisse
15 de Junho de 2006
É a primeira vez na minha vida que escrevo um relato de parto... e não é fácil escolher o que dizer e decidir como dizer. Sobretudo porque gostava muito que este relato falasse de todo o percurso que me levou de uma primeira cesariana a um parto vaginal sem intervenções desnecessárias. Gostava que neste relato transparecesse que foi preciso muito tempo, muita conversa comigo própria, muita leitura, mas antes de tudo isso foi preciso ganhar consciência do meu próprio papel no parto: este sim foi o ponto de partida!
Só acreditando que eu própria tinha muita (para não dizer toda) a importância no momento do parto foi possível partir à descoberta do que poderia ter acontecido no meu primeiro parto para que ele terminasse numa cesariana...
No meu primeiro parto alguém se esqueceu de me dar o guião para o papel que eu ía desempenhar: não fazia ideia de que era eu a protagonista e estive sempre a olhar ansiosamente para os outros à espera de pistas sobre o que deveria dizer ou fazer. Não fazia ideia que o medo que eu tinha do parto (e que não assumia nem para mim mesma) poderia ser o suficiente para que não me fosse atribuído o papel principal; nem sequer sabia que deveria ser eu a fazer a distribuição dos papéis!
Mas desde essa altura muita coisa mudou: fiz a formação de doula, acompanhei vários partos muito especiais, acreditei, por vezes, que tinha um dom para apoiar aquelas mulheres magníficas e corajosas num momento único e tão intenso - tive esperança de poder ser como elas!
E comecei a desconfiar que a cesariana se calhar podia não ter acontecido e que talvez um próximo parto pudesse ser diferente... só precisava de assumir o meu protagonismo desde o início da gravidez. E ganhar consciência de que todas as opções que fizesse durante aqueles 9 meses faziam parte do percurso que me levaria ao meu parto – desde os textos que lia até à escolha das pessoas que me iriam acompanhar nesse percurso.
E empenhámo-nos a sério nesta aventura – eu e a Clarisse!
Gostava que este relato pudesse servir de inspiração para que outras mulheres assumam o papel principal num momento tão importante das suas vidas... e que uma dessas mulheres seja a minha filha!
O dia P (de parto)
15 de Junho de 2006
“São 5h da manhã. Ainda mais ninguém sabe mas estamos em trabalho de parto. Não resisti a vir registar o que estou a sentir! As contracções acordaram-me há cerca de uma hora. Já as sentia muito espaçadas e irregulares desde as 20h30 de ontem, mas pensei que podia ser cansaço e fui dormir...
A razão porque quis vir registar o que sinto tem a ver com uma descoberta que fiz há 3 ou 4 contracções: se sorrio elas são diferentes – sinto-as mais suportáveis... engraçado!...
A Clarisse está a mexer agora – provavelmente a preparar-se para mais uma contracção. Levantei-me não só para escrever, mas também porque estou com muita azia e porque queria tentar perceber qual o intervalo entre as contracções (pelas minhas contas deve andar pelos 15 minutos).
Ainda não perdi a esperança de dormir mais um pouco. Vou-me deitar e, se não resultar volto!”
Não voltei naquele dia.
Às 6h da manhã decidi acordar o meu marido e ficámos os dois a apreciar as contracções que se iam tornando mais intensas, mesmo com o truque do sorriso... A cada contracção ponho-me de gatas e balanço as ancas. Às 8h ligo para a médica. Algo a faz desconfiar de que, ao contrário do que eu dizia, o trabalho de parto não estará assim tão demorado. Chegou ao pé de mim cerca das 8h30: estou com 6 cm de dilatação.
Pelas 9h partimos para o hospital – a viagem foi a pior parte: as contracções que tive no caminho eram muito mais difíceis de suportar, com tanto solavanco, com tanta limitação de movimentos e com tão pouco espaço.
À chegada as coisas estão aceleradas: faço um CTG. Já me sinto noutra dimensão: a médica sugere-me várias coisas, mas não me apetece andar, nem tomar banho, nem massagens... só me apetece estar com a minha filha e apreciar as contracções, que vêm e vão cada vez mais próximas...
Vou experimentando várias posições com a ajuda da médica e do meu marido: ou não me sinto confortável, ou os batimentos cardíacos da Clarisse ficam fraquinhos... a certa altura percebo que preciso de conversar comigo e com a Clarisse – estou com medo de a “deixar ir”: relaxo, tranquilizo-me e calmamente digo à Clarisse que sei que ela sabe o caminho e que tudo vai correr bem! A bolsa rompe espontaneamente numa das contracções em que estou de joelhos em cima da cama. A pressão que sentia alivia um pouco.
Finalmente encontro uma posição que deixa toda a gente confortável: estou de pé, apoiada no meu marido – quando vem uma contracção fico como que “sentada” no ar, apoiada nos braços dele – a Clarisse está pronta para nascer. O meu marido diz-me “relaxa” e eu deixo-me ir! Várias contracções vão, lentamente, trazendo a Clarisse para os meus braços; vou bebendo água de vez em quando – sabe tão bem!. Faço força apenas quando sinto muita vontade de o fazer.
Mais um momento de medo... olho outra vez para dentro – sei que preciso de relaxar e de acreditar em mim e na minha filha; converso outra vez com ela: posso relaxar novamente e deixar as coisas correr... A médica faz um círculo com o indicador e o polegar para me dizer o espaço da cabeça da minha filha que já se vê. Isso encoraja-me! Tinha pensado durante a gravidez que gostaria de sentir a cabeça dela nesta fase, mas já não me sinto com forças para o fazer...
Apesar de os intervalos entre as contracções se manterem e isso me dar tempo para recuperar algumas forças, sinto o clássico momento de desespero: estou cansada, transpirada, com calor, o meu suor mistura-se com o do meu marido que a cada contracção aguenta todo o meu peso. Sei que devo estar muito muito perto, porque sinto que não posso mais... Mas digo-o na mesma: “Não aguento mais!!...” . Duas contracções depois nasce a Clarisse!
A médica segurou-a e deu-ma imediatamente: que momento mágico – tantas coisas que me passam pela cabeça! Fomos capazes: estamos juntas cá fora e podemos olhar uma para a outra! A Clarisse não quer mamar ainda. Esperamos que o cordão umbilical deixe de pulsar e é o pai que o corta. A seguir vai um bocadinho ao colo do pai e volta. Mama um bocadinho, não quer mais; choraminga. Enquanto a vestem nasce a placenta e podemos finalmente preparar-nos para descansar... Que fome que tenho!
Este foi um parto sem soro, sem epidural, sem posição imposta, sem raspagem de pelos púbicos, sem clister, sem episiotomia, sem laceração, sem pontos, com uma médica fabulosa que acreditou em mim e nela própria, com um marido sempre discretamente presente, com uma filha que sabia o que fazia! Todas as pessoas que me acompanharam respeitaram as minhas decisões, o meu ritmo e o ritmo da minha filha.
Dias como este nunca perdem a luz na nossa memória, embora ainda hoje, às vezes, me custe a acreditar que fui capaz...
Ângela Coelho
Cascais, Outubro de 2006
15 de Junho de 2006
É a primeira vez na minha vida que escrevo um relato de parto... e não é fácil escolher o que dizer e decidir como dizer. Sobretudo porque gostava muito que este relato falasse de todo o percurso que me levou de uma primeira cesariana a um parto vaginal sem intervenções desnecessárias. Gostava que neste relato transparecesse que foi preciso muito tempo, muita conversa comigo própria, muita leitura, mas antes de tudo isso foi preciso ganhar consciência do meu próprio papel no parto: este sim foi o ponto de partida!
Só acreditando que eu própria tinha muita (para não dizer toda) a importância no momento do parto foi possível partir à descoberta do que poderia ter acontecido no meu primeiro parto para que ele terminasse numa cesariana...
No meu primeiro parto alguém se esqueceu de me dar o guião para o papel que eu ía desempenhar: não fazia ideia de que era eu a protagonista e estive sempre a olhar ansiosamente para os outros à espera de pistas sobre o que deveria dizer ou fazer. Não fazia ideia que o medo que eu tinha do parto (e que não assumia nem para mim mesma) poderia ser o suficiente para que não me fosse atribuído o papel principal; nem sequer sabia que deveria ser eu a fazer a distribuição dos papéis!
Mas desde essa altura muita coisa mudou: fiz a formação de doula, acompanhei vários partos muito especiais, acreditei, por vezes, que tinha um dom para apoiar aquelas mulheres magníficas e corajosas num momento único e tão intenso - tive esperança de poder ser como elas!
E comecei a desconfiar que a cesariana se calhar podia não ter acontecido e que talvez um próximo parto pudesse ser diferente... só precisava de assumir o meu protagonismo desde o início da gravidez. E ganhar consciência de que todas as opções que fizesse durante aqueles 9 meses faziam parte do percurso que me levaria ao meu parto – desde os textos que lia até à escolha das pessoas que me iriam acompanhar nesse percurso.
E empenhámo-nos a sério nesta aventura – eu e a Clarisse!
Gostava que este relato pudesse servir de inspiração para que outras mulheres assumam o papel principal num momento tão importante das suas vidas... e que uma dessas mulheres seja a minha filha!
O dia P (de parto)
15 de Junho de 2006
“São 5h da manhã. Ainda mais ninguém sabe mas estamos em trabalho de parto. Não resisti a vir registar o que estou a sentir! As contracções acordaram-me há cerca de uma hora. Já as sentia muito espaçadas e irregulares desde as 20h30 de ontem, mas pensei que podia ser cansaço e fui dormir...
A razão porque quis vir registar o que sinto tem a ver com uma descoberta que fiz há 3 ou 4 contracções: se sorrio elas são diferentes – sinto-as mais suportáveis... engraçado!...
A Clarisse está a mexer agora – provavelmente a preparar-se para mais uma contracção. Levantei-me não só para escrever, mas também porque estou com muita azia e porque queria tentar perceber qual o intervalo entre as contracções (pelas minhas contas deve andar pelos 15 minutos).
Ainda não perdi a esperança de dormir mais um pouco. Vou-me deitar e, se não resultar volto!”
Não voltei naquele dia.
Às 6h da manhã decidi acordar o meu marido e ficámos os dois a apreciar as contracções que se iam tornando mais intensas, mesmo com o truque do sorriso... A cada contracção ponho-me de gatas e balanço as ancas. Às 8h ligo para a médica. Algo a faz desconfiar de que, ao contrário do que eu dizia, o trabalho de parto não estará assim tão demorado. Chegou ao pé de mim cerca das 8h30: estou com 6 cm de dilatação.
Pelas 9h partimos para o hospital – a viagem foi a pior parte: as contracções que tive no caminho eram muito mais difíceis de suportar, com tanto solavanco, com tanta limitação de movimentos e com tão pouco espaço.
À chegada as coisas estão aceleradas: faço um CTG. Já me sinto noutra dimensão: a médica sugere-me várias coisas, mas não me apetece andar, nem tomar banho, nem massagens... só me apetece estar com a minha filha e apreciar as contracções, que vêm e vão cada vez mais próximas...
Vou experimentando várias posições com a ajuda da médica e do meu marido: ou não me sinto confortável, ou os batimentos cardíacos da Clarisse ficam fraquinhos... a certa altura percebo que preciso de conversar comigo e com a Clarisse – estou com medo de a “deixar ir”: relaxo, tranquilizo-me e calmamente digo à Clarisse que sei que ela sabe o caminho e que tudo vai correr bem! A bolsa rompe espontaneamente numa das contracções em que estou de joelhos em cima da cama. A pressão que sentia alivia um pouco.
Finalmente encontro uma posição que deixa toda a gente confortável: estou de pé, apoiada no meu marido – quando vem uma contracção fico como que “sentada” no ar, apoiada nos braços dele – a Clarisse está pronta para nascer. O meu marido diz-me “relaxa” e eu deixo-me ir! Várias contracções vão, lentamente, trazendo a Clarisse para os meus braços; vou bebendo água de vez em quando – sabe tão bem!. Faço força apenas quando sinto muita vontade de o fazer.
Mais um momento de medo... olho outra vez para dentro – sei que preciso de relaxar e de acreditar em mim e na minha filha; converso outra vez com ela: posso relaxar novamente e deixar as coisas correr... A médica faz um círculo com o indicador e o polegar para me dizer o espaço da cabeça da minha filha que já se vê. Isso encoraja-me! Tinha pensado durante a gravidez que gostaria de sentir a cabeça dela nesta fase, mas já não me sinto com forças para o fazer...
Apesar de os intervalos entre as contracções se manterem e isso me dar tempo para recuperar algumas forças, sinto o clássico momento de desespero: estou cansada, transpirada, com calor, o meu suor mistura-se com o do meu marido que a cada contracção aguenta todo o meu peso. Sei que devo estar muito muito perto, porque sinto que não posso mais... Mas digo-o na mesma: “Não aguento mais!!...” . Duas contracções depois nasce a Clarisse!
A médica segurou-a e deu-ma imediatamente: que momento mágico – tantas coisas que me passam pela cabeça! Fomos capazes: estamos juntas cá fora e podemos olhar uma para a outra! A Clarisse não quer mamar ainda. Esperamos que o cordão umbilical deixe de pulsar e é o pai que o corta. A seguir vai um bocadinho ao colo do pai e volta. Mama um bocadinho, não quer mais; choraminga. Enquanto a vestem nasce a placenta e podemos finalmente preparar-nos para descansar... Que fome que tenho!
Este foi um parto sem soro, sem epidural, sem posição imposta, sem raspagem de pelos púbicos, sem clister, sem episiotomia, sem laceração, sem pontos, com uma médica fabulosa que acreditou em mim e nela própria, com um marido sempre discretamente presente, com uma filha que sabia o que fazia! Todas as pessoas que me acompanharam respeitaram as minhas decisões, o meu ritmo e o ritmo da minha filha.
Dias como este nunca perdem a luz na nossa memória, embora ainda hoje, às vezes, me custe a acreditar que fui capaz...
Ângela Coelho
Cascais, Outubro de 2006
