O Nascimento da Carolina
A gravidez da Carolina começou na Austrália, onde estive até aos seis meses e meio. Esta gravidez foi um pouco cansativa no terceiro trimestre, trabalhei até um dia antes de virmos embora para Portugal e para o fim andávamos bastante stressados com vistos e outras burocracias e a decisão de ficar ou não na Austrália. Decidimos voltar e o regresso também foi bastante trabalhoso, casa nova, mudanças, limpezas, enfim.
Por qualquer razão, nesta gravidez não estava tão convicta de que o meu parto iria ser sem dor. Embora dissesse que sim ao André, que tudo iria correr bem e que não iria sentir dor, sentia sempre que não estava a ser honesta, cá dentro sentia a incerteza. No fundo, achava, tal como a minha irmã achou com o seu primeiro filho, que iria sentir alguma dor, embora esperasse que ela fosse breve e suportável.
Na minha família, as mulheres têm partos muito rápidos e fáceis e com muito pouca dor e era com isso que eu contava desta vez. Ainda hoje não sei o porquê desta diferença em relação ao que pensei durante a gravidez da Maria.
Uma semana antes da data prevista fui ao S. Francisco de Xavier, num dia em que a maternidade estava a abarrotar e os médicos e enfermeiros ainda mais mal humorados e brutos do que o costume. Com três ou quatro dedos de dilatação e após inúmeros toques feitos à bruta por enfermeiros e médicos, continuava sem saber se ia ter o bebé ali ou se ia ser transferida para outro hospital. E ninguém se dignava a dizer-me nada e ainda ficavam mais mal humorados por eu perguntar!
Finalmente, a mãe com quem eu conversava foi transferida e eu fiquei.
Assinei um papel onde dizia que só poderiam ser administrados medicamentos ou feitas intervenções médicas mediante o meu
consentimento, não sem que a médica, ao ver que eu lia antes de assinar o que lá estava estava escrito, me dissesse 'não precisa de ler, é só assinar'.
Depois dos procedimentos humilhantes e desnecessários, para além de desaconselhados no resto do mundo, de rapar os pêlos púbicos e administrar um clister, lá fui para a sala de dilatação. Não sem antes ser travada no corredor, como se fosse uma criança que fez uma diabrura e me terem proibido de levar a minha garrafa de água, que eu sabia ser tão importante para uma boa hidratação! E ainda queriam que tirasse a mola que me prendia o cabelo, mas uma outra enfermeira condescendeu e deixaram-me passar com meu tráfico ilícito de bens pessoais: a minha mola de cabelo.
Quase vazia, só estava mais uma mãe com o seu marido na sala de dilatação, mas se calhar eu já tinha dado trabalho e feitas perguntas demais, nunca chamaram o André para vir para o pé de mim. E nunca me hei-de esquecer de ver um bando de cerca de dez enfermeiras a conversar despreocupadamente atrás de um balcão, mais parecia que estavam no café...
Até agora eu não tinha tido dor e, apesar de tudo, estava muito bem disposta. O pior foi quando vieram as bestas do médico e da
enfermeira-chefe.
Desculpem-me a linguagem, aqui tenho que explicar que isto é um desabafo, ainda hoje me vêm lágrimas aos olhos pela indignidade e humilhação que senti em tudo o que se seguiu e que passo a contar. Espero que o facto de vos contar isto ajude a aplacar a minha raiva, difícil de esquecer.
Mas ainda antes, já me esquecia da enfermeira que me obrigou a ficar de costas enquanto me punha os desnecessários instrumentos de monitorização das contracções e do coração do bebé. No resto do mundo já é sabido que além de nunca se dever deitar uma grávida de costas, estes instrumentos causam falsos alarmes e intervenções desnecessárias, pelo que só se devem usar em casos em que se sabe que a mãe ou o bebé estão em risco. E ainda queria que eu me mantivesse assim depois, claro que me virei de lado mal ela saiu.
Em seguida chegou outra enfermeira para me pôr o soro, coisa que eu nem sonhava que se tinha tornado moda e, delicadamente, pedi se podia não pôr, expliquei que os meus partos eram fáceis, que me sentia bem e que provavelmente não ia ser mecessário. A enfermeira disse que tinha que ser, ao que eu pedi se podia falar com o médico responsável. Ficou furiosa e saiu disparada.
Veio o médico ainda mais furioso. Entretanto, aquela que viria a ser o meu anjo da guarda naquele dia, tinha chegado, a enfermeira Teresa Leite e ouvia calada por detrás do médico. A enfermeira chefe ouvia também, de pé, com a perna flectida e o pé apoiado na parede, parecia mesmo que estava no café e a sua expressão era de puro divertimento.
Eu, que tinha ousado perguntar quando é que sabiam se eu ficava naquele hospital ou ia ser transferida, que tinha ousado entrar com uma garrafa de água (fora ela que ma tirara e eu amavelmente nem refilei e entreguei-lha espantada), continuava a causar problemas.
Já a sentir-me cercada e com medo de ser ainda mais maltratada, condescendi e deixei que me pusessem o soro. Mas tive ainda a coragem de dizer que não queria que me administrassem nada sem primeiro me avisarem. Aqui a enfermeira-chefe soltou uma gargalhada e disse em voz alta 'isto é demais, não estou para ouvir mais nada' e foi-se embora.
O médico disse que queria dar-me oxitocina para estimular as contracções e eu disse-lhe que preferia que não o fizesse. Ele olhou para o relógio e depois para mim e perguntou 'mas quanto tempo é que quer ficar aqui?' Voltei a insistir que não tinha pressa e queria esperar. Ele suspirou, ignorou-me, voltou-se para a enfermeira Teresa Leite e disse-lhe 'traga-me o instrumento para romper as águas', ao que eu ainda perguntei, 'mas tem mesmo que ser?'. Ao que ele respondeu furioso 'mas porque é que não têm os filhos em casa?!'.
Sem querer acreditar que aquilo me estava a acontecer, deixei que ele me rompesse as águas. Durante a conversa com o médico a Teresa Leite fazia-me sinais para acalmar, para não me preocupar, um olhar amoroso e preocupado que nunca hei-de esquecer. Quando aquele monstro se foi embora, as lágrimas correram livremente pela minha face e solucei como uma criança. A Teresa acalmou-me e teve que ir embora. Disse-me para puxar a campainha se precisasse de alguma coisa. A mãe ao lado
chorava, mas ao menos tinha o marido ali ao lado, a segurar-lhe na mão. Eu nem sabia onde estava o André.
As contracções da fase da transição começaram imediatamente e concentrei-me na respiração e em relaxar. Era muito seguidas e doíam um pouco. Passados cerca de dez minutos senti uma dor forte e agarrei-me à campainha com toda a força. A Teresa Leite veio a correr a toda a velocidade. Parecia que queria chegar lá primeiro que qualquer outra pessoa. E ainda hoje acho que foi isso mesmo. Antes que viesse um dos monstros encarregar-se de mim. Bendito anjo da guarda.
Tive que esperar que passasse esta primeira contracção da fase de expulsão antes de conseguir caminhar até à sala de partos. Era bastante dolorosa. Quando estava a subir para a marquesa veio a segunda. Na terceira contracção ainda não fiz a força como devia ser, mas nas duas seguintes concentrei-me e foram suficientes para expulsar a Carolina. Graças à Teresa Leite, não fui cortada, embora a enfermeira que estava a ajudar já estivesse com a tesoura pronta, mas a Teresa foi peremptória e não deixou. Não rasguei.
Entretanto, o André continuava na sala de espera sem saber o que se passava. A minha sogra, defensora das instituições, tentava fazer-lhe ver que era normal e que não devia irromper por ali a dentro e reinvidicar os seus direitos... Conseguiu convencê-lo.
Só uma hora depois da Carolina nascer, quando ele finalmente se decidiu a ir perguntar o que se passava, lhe disseram que o bebé tinha nascido mas nem lhe disseram se era menino ou menina. E só mais uma hora depois, quando passaram finalmente as duas horas de recobro no corredor de fora da sala de partos é que finalmente nos reunimos. A Carolina estava óptima, tinha estado o tempo todo a mamar! E o meu bom humor tinha voltado assim que se iniciou a fase de expulsão, que nestas alturas não há lugar para tristezas, está um bebé a nascer!
A parte da maternidade, nos dois dias seguintes, foi boa. A comida era muito razoável. Se bem que havia falta de papel higiénico, vá lá saber-se como... As enfermeiras diziam que o governo estava a poupar em tudo... Felizmente, os bebés hoje já ficam com as mães nos quartos e foi muito agradável estar com duas outras mães nos primeiros dias.
(relatos dos partos dos meus irmãos Simão e Maria)
Sofia Vaz Pinto
Caxias - Portugal
A gravidez da Carolina começou na Austrália, onde estive até aos seis meses e meio. Esta gravidez foi um pouco cansativa no terceiro trimestre, trabalhei até um dia antes de virmos embora para Portugal e para o fim andávamos bastante stressados com vistos e outras burocracias e a decisão de ficar ou não na Austrália. Decidimos voltar e o regresso também foi bastante trabalhoso, casa nova, mudanças, limpezas, enfim.
Por qualquer razão, nesta gravidez não estava tão convicta de que o meu parto iria ser sem dor. Embora dissesse que sim ao André, que tudo iria correr bem e que não iria sentir dor, sentia sempre que não estava a ser honesta, cá dentro sentia a incerteza. No fundo, achava, tal como a minha irmã achou com o seu primeiro filho, que iria sentir alguma dor, embora esperasse que ela fosse breve e suportável.
Na minha família, as mulheres têm partos muito rápidos e fáceis e com muito pouca dor e era com isso que eu contava desta vez. Ainda hoje não sei o porquê desta diferença em relação ao que pensei durante a gravidez da Maria.
Uma semana antes da data prevista fui ao S. Francisco de Xavier, num dia em que a maternidade estava a abarrotar e os médicos e enfermeiros ainda mais mal humorados e brutos do que o costume. Com três ou quatro dedos de dilatação e após inúmeros toques feitos à bruta por enfermeiros e médicos, continuava sem saber se ia ter o bebé ali ou se ia ser transferida para outro hospital. E ninguém se dignava a dizer-me nada e ainda ficavam mais mal humorados por eu perguntar!
Finalmente, a mãe com quem eu conversava foi transferida e eu fiquei.
Assinei um papel onde dizia que só poderiam ser administrados medicamentos ou feitas intervenções médicas mediante o meu
consentimento, não sem que a médica, ao ver que eu lia antes de assinar o que lá estava estava escrito, me dissesse 'não precisa de ler, é só assinar'.
Depois dos procedimentos humilhantes e desnecessários, para além de desaconselhados no resto do mundo, de rapar os pêlos púbicos e administrar um clister, lá fui para a sala de dilatação. Não sem antes ser travada no corredor, como se fosse uma criança que fez uma diabrura e me terem proibido de levar a minha garrafa de água, que eu sabia ser tão importante para uma boa hidratação! E ainda queriam que tirasse a mola que me prendia o cabelo, mas uma outra enfermeira condescendeu e deixaram-me passar com meu tráfico ilícito de bens pessoais: a minha mola de cabelo.
Quase vazia, só estava mais uma mãe com o seu marido na sala de dilatação, mas se calhar eu já tinha dado trabalho e feitas perguntas demais, nunca chamaram o André para vir para o pé de mim. E nunca me hei-de esquecer de ver um bando de cerca de dez enfermeiras a conversar despreocupadamente atrás de um balcão, mais parecia que estavam no café...
Até agora eu não tinha tido dor e, apesar de tudo, estava muito bem disposta. O pior foi quando vieram as bestas do médico e da
enfermeira-chefe.
Desculpem-me a linguagem, aqui tenho que explicar que isto é um desabafo, ainda hoje me vêm lágrimas aos olhos pela indignidade e humilhação que senti em tudo o que se seguiu e que passo a contar. Espero que o facto de vos contar isto ajude a aplacar a minha raiva, difícil de esquecer.
Mas ainda antes, já me esquecia da enfermeira que me obrigou a ficar de costas enquanto me punha os desnecessários instrumentos de monitorização das contracções e do coração do bebé. No resto do mundo já é sabido que além de nunca se dever deitar uma grávida de costas, estes instrumentos causam falsos alarmes e intervenções desnecessárias, pelo que só se devem usar em casos em que se sabe que a mãe ou o bebé estão em risco. E ainda queria que eu me mantivesse assim depois, claro que me virei de lado mal ela saiu.
Em seguida chegou outra enfermeira para me pôr o soro, coisa que eu nem sonhava que se tinha tornado moda e, delicadamente, pedi se podia não pôr, expliquei que os meus partos eram fáceis, que me sentia bem e que provavelmente não ia ser mecessário. A enfermeira disse que tinha que ser, ao que eu pedi se podia falar com o médico responsável. Ficou furiosa e saiu disparada.
Veio o médico ainda mais furioso. Entretanto, aquela que viria a ser o meu anjo da guarda naquele dia, tinha chegado, a enfermeira Teresa Leite e ouvia calada por detrás do médico. A enfermeira chefe ouvia também, de pé, com a perna flectida e o pé apoiado na parede, parecia mesmo que estava no café e a sua expressão era de puro divertimento.
Eu, que tinha ousado perguntar quando é que sabiam se eu ficava naquele hospital ou ia ser transferida, que tinha ousado entrar com uma garrafa de água (fora ela que ma tirara e eu amavelmente nem refilei e entreguei-lha espantada), continuava a causar problemas.
Já a sentir-me cercada e com medo de ser ainda mais maltratada, condescendi e deixei que me pusessem o soro. Mas tive ainda a coragem de dizer que não queria que me administrassem nada sem primeiro me avisarem. Aqui a enfermeira-chefe soltou uma gargalhada e disse em voz alta 'isto é demais, não estou para ouvir mais nada' e foi-se embora.
O médico disse que queria dar-me oxitocina para estimular as contracções e eu disse-lhe que preferia que não o fizesse. Ele olhou para o relógio e depois para mim e perguntou 'mas quanto tempo é que quer ficar aqui?' Voltei a insistir que não tinha pressa e queria esperar. Ele suspirou, ignorou-me, voltou-se para a enfermeira Teresa Leite e disse-lhe 'traga-me o instrumento para romper as águas', ao que eu ainda perguntei, 'mas tem mesmo que ser?'. Ao que ele respondeu furioso 'mas porque é que não têm os filhos em casa?!'.
Sem querer acreditar que aquilo me estava a acontecer, deixei que ele me rompesse as águas. Durante a conversa com o médico a Teresa Leite fazia-me sinais para acalmar, para não me preocupar, um olhar amoroso e preocupado que nunca hei-de esquecer. Quando aquele monstro se foi embora, as lágrimas correram livremente pela minha face e solucei como uma criança. A Teresa acalmou-me e teve que ir embora. Disse-me para puxar a campainha se precisasse de alguma coisa. A mãe ao lado
chorava, mas ao menos tinha o marido ali ao lado, a segurar-lhe na mão. Eu nem sabia onde estava o André.
As contracções da fase da transição começaram imediatamente e concentrei-me na respiração e em relaxar. Era muito seguidas e doíam um pouco. Passados cerca de dez minutos senti uma dor forte e agarrei-me à campainha com toda a força. A Teresa Leite veio a correr a toda a velocidade. Parecia que queria chegar lá primeiro que qualquer outra pessoa. E ainda hoje acho que foi isso mesmo. Antes que viesse um dos monstros encarregar-se de mim. Bendito anjo da guarda.
Tive que esperar que passasse esta primeira contracção da fase de expulsão antes de conseguir caminhar até à sala de partos. Era bastante dolorosa. Quando estava a subir para a marquesa veio a segunda. Na terceira contracção ainda não fiz a força como devia ser, mas nas duas seguintes concentrei-me e foram suficientes para expulsar a Carolina. Graças à Teresa Leite, não fui cortada, embora a enfermeira que estava a ajudar já estivesse com a tesoura pronta, mas a Teresa foi peremptória e não deixou. Não rasguei.
Entretanto, o André continuava na sala de espera sem saber o que se passava. A minha sogra, defensora das instituições, tentava fazer-lhe ver que era normal e que não devia irromper por ali a dentro e reinvidicar os seus direitos... Conseguiu convencê-lo.
Só uma hora depois da Carolina nascer, quando ele finalmente se decidiu a ir perguntar o que se passava, lhe disseram que o bebé tinha nascido mas nem lhe disseram se era menino ou menina. E só mais uma hora depois, quando passaram finalmente as duas horas de recobro no corredor de fora da sala de partos é que finalmente nos reunimos. A Carolina estava óptima, tinha estado o tempo todo a mamar! E o meu bom humor tinha voltado assim que se iniciou a fase de expulsão, que nestas alturas não há lugar para tristezas, está um bebé a nascer!
A parte da maternidade, nos dois dias seguintes, foi boa. A comida era muito razoável. Se bem que havia falta de papel higiénico, vá lá saber-se como... As enfermeiras diziam que o governo estava a poupar em tudo... Felizmente, os bebés hoje já ficam com as mães nos quartos e foi muito agradável estar com duas outras mães nos primeiros dias.
(relatos dos partos dos meus irmãos Simão e Maria)
Sofia Vaz Pinto
Caxias - Portugal
