Humpar

 
O Nascimento da Beatriz
16 de Julho de 2002






Os meus partos foram tão diferentes que nunca imaginei que uma mesma mulher pudesse sentir-se de forma tão diferente de um parto para outro. No pós-parto da Bi senti-me vulnerável, frágil, uma criança. No pós-parto do Miguel senti-me Mulher. Poderosa. Linda como qualquer mulher se devia sentir.

O parto da Bi foi traumático para mim. As contracções começaram no dia anterior ( dia 15 de Julho de 2002), com intervalos regulares. Fomos para a urgência do hospital de táxi, vomitei no caminho. Cheguei às urgências e depois de me fazerem o CTG mandaram-me para casa, disseram-me que se a bebé não nascesse nas próximas duas semanas, voltasse lá. O atendimento foi impessoal mas sem nada de concreto a apontar. Voltei para casa. As contracções continuaram pela tarde fora. Ao final da tarde abrandaram.

Consegui fazer a minha vida normal até às 22 horas, hora em que começaram novas contracções de dez em dez minutos. Esperei em casa, deitei-me e descansei um pouco entre contracções. Seguimos para o hospital às 2 horas de madrugada. As contracções já estavam com intervalo de 5 minutos. Enquanto esperava na sala de espera vomitei. As enfermeiras foram sarcásticas e muito pouco simpáticas. Uma das enfermeiras fez-me o "toque" e foi tão bruta que me magoou o colo do útero (ferida essa que só sarou 4 meses após o parto). Queixei-me e ainda me gozou dizendo " Não seja mariquinhas, vai passar por aqui uma cabeça de 10 cm!". Não sei o nome desta enfermeira. Estava com 3 cm de dilatação. Antes de se ir embora ainda me disse "Vem para aqui tão cedo, que vai para casa de certeza e é muito bem feita!". De seguida, fui atendida por uma doutora amável que viu que as minhas contracções já estavam muito fortes e internou-me. A partir daí, outra enfermeira mandou-me despir totalmente. Raparam-me os pelos púbicos e administraram um clister. Aqui senti muito medo. Senti-me muito sozinha. O meu marido não pode entrar comigo e eu senti-me muito indefesa. Tive que deixar todos os meus pertences inclusivé uma pulseira de grande valor sentimental para mim cá fora. Fui à casa de banho. Quando saí a equipa de enfermeiras estava a olhar para mim e riram-se muito, ainda hoje estou para saber porquê. Isto aumentou o meu sentimento de solidão.

Encaminharam-me para uma sala de dilatação com uma cama altissima e deixaram-me sozinha, antes mesmo de eu pedir para me ajudarem a subir. Fartei-me de chamar por ajuda. Ao fim de uns minutos outra enfermeira chegou e ralhou-me por não ter subido!!! Como se eu conseguisse! Deitei-me, ligaram-me à máquina e puseram-me a soro! Fiquei muito enjoada, chamei por ajuda porque queria vomitar. Ninguém apareceu! Não tive outra hipótese senão vomitar em cima de mim mesma! Quando uma auxiliar chegou ficou admirada como ninguém me veio ajudar. Mudou-me e deixou-me sozinha. Passados uns minutos ( não sei bem o tempo porque não tinha relógio) o enjoo voltou. Novamente chamei por ajuda e mais uma vez ninguém apareceu. Vomitei mais uma vez por cima de mim. Sentia-me indefesa e sem control nenhum sobre o que se passava. Estive sozinha até às 9 da manhã. Hora em que depois de muita insistência, deixaram o meu marido entrar. A partir daqui senti-me muito melhor. E a minha disposição melhorou muito. Passaram por mim vários turnos de enfermeiras e médicos. A dilatação não evoluia. Ainda estava com os 3 cm que estava às 3 da manhã. Por isso, puseram oxitocina. Esperei, esperei. As contracções eram cada vez mais intensas e insuportáveis. Mas a dilatação não evoluia. Aumentaram a dose de oxitocina. As contracções tornaram-se insuportáveis, mas mantinha a boa disposição. De repente, o trabalho de parto acelerou! Uma médica muito bruta e antipática (desculpem, mas não encontro outros termos para a descrever) e que também não sei o nome ( neste hospital tanto os médicos como os enfermeiros não têm identificação) rompeu-me a bolsa de águas. Fui para a sala de partos às 16 horas do dia 16 de Julho de 2002, depois de uma querela entre duas equipas de médicos. Na sala de partos, estava uma parteira e uma auxiliar, e no meio das dores eu segurei-me à mão dela, tendo ela retirado-a abruptamente. Fizeram-me episiotomia e a minha pele não resistiu e abriu-se toda! A Beatriz nasceu às 16:12! Não chorou, não respirava e teve que ser reanimada com oxigénio. Depois, peguei-lhe ao colo e o Jorge e a Beatriz sairam da sala. Fiquei eu a ser cosida. Perdi muito sangue. A parteira não estava a conseguir cozer-me, chamou uma médica que quando viu o estado da minha vagina e começou a coser-me disse-me que numa carreira de médica de 30 anos, nunca tinha apanhado um caso semelhante. Estive duas horas a ser cosida. Só passados quatro meses depois do parto é que consegui voltar a vestir umas calças.

Nessa mesma noite, eu e a Bi passamos a noite acordadas a olhar uma para outra e foi aí que nos apaixonamos perdidamente uma pela outra.
Susana Pinho

Sintra - Portugal
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