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O Meu Parto... ou seja, O Nascimento na MAC
07 de Setembro de 2006


Olá. Tenho acompanhado esta lista de discussão desde o início da minha gravidez (Janeiro deste ano). Entretanto, a minha filha nasceu no dia 7 de Setembro e, desde então, tenho estado em casa, onde não tenho acesso ao e-mail. Mas hoje, tirei parte da tarde para poder vir enviar um e-mail à lista em forma de reconhecimento por todo o carinho, amizade, informação e apoio que recebi ao longo destes meses. O que fez toda a diferença no meu parto.

Tenho imensa pena de não ter assistido ao Congresso da Humpar e espero poder vir a ler as actas ou uma publicação com as contribuições dos participantes e, a propósito do tema, acho que, em síntese, posso dizer que tive uma gravidez muito humanizada e um parto humanizado com muitas intervenções. Não foi o parto que idealizámos e que preparámos mas acho que correu muito bem. O que é irónico é pensar que alterar os principais procedimentos que tornariam um parto totalmente humanizado custaria zero. Fala-se tanto na racionalização de custos e no que isso implica em termos de escassez de meios mas neste caso parece que os meios não são nada escassos, nomeadamente os humanos, o que parece haver é medo de perda de afirmação e protagonismo num momento que não é de mais ninguém senão da própria mulher. É aí que as doulas fazem a diferença. É que estas profissionais sabem bem qual o seu papel, sabem bem que o protagonismo não é seu e, ao saberem estar no seu lugar e actuar quando faz sentido, ajudam a mulher que pare e a criança que nasce a confiar em quem têm à volta e na sua própria força e poder.

 

A decisão de descrever o meu parto prende-se com duas razões. Em primeiro lugar, devo ter lido mais de cem relatos de parto (que fui descobrindo em sites portugueses e brasileiros) durante toda a gravidez (ainda ninguém se lembrou de compilar essas experiências riquíssimas em livro ou é ignorância minha?) Foram de uma ajuda preciosíssima para o final da gravidez e para o parto em si porque fui encontrando semelhanças em muito do que fui vivendo com os muitos relatos que li e isso ajudou-me a relativizar ansiedades, inseguranças e preocupações. Deu-me muita tranquilidade e paz interior. Isso fez-me querer também deixar um pequeno testemunho da minha experiência.

 

Por outro lado, tinha que deixar um testemunho nesta lista que foi uma grande companheira na minha gravidez e onde eu aprendi imenso. A minha gravidez e o meu parto teriam sido totalmente diferentes se eu não tivesse acompanhado esta lista de discussão e, sobretudo, se não tivesse tido o acompanhamento de duas incríveis doulas: a Luísa Condeço e a Mariana Vilas. A Mariana, com quem fiz yoga para grávidas quase desde o início da gravidez (o que foi determinante para o trabalho de parto, para o período expulsivo e para a recuperação pós-parto) e com quem conversei sempre muito e a Luísa que foi uma amiga, uma companheira, uma confidente, um porto de abrigo, uma conselheira, uma dádiva de Deus. A Luísa marcou imenso a minha vida pela entrega total a esta causa, às mulheres que acompanha, pela forma como nos leva a reflectir sobre a gravidez, sobre a vida, sobre nós próprias e como nos ajuda a construir um caminho de evolução que nos prepara de uma forma incrivelmente serena e tranquila para uma nova vida que é a vida de mães e pais.

 

Há dias, olhava para o folheto de apresentação das doulas, onde se diz que as doulas prestam acompanhamento emocional e informativo ao longo da gravidez, parto e pós-parto. E ao ler essa frase pensei: “É incrível como esta frase encerra tanto conteúdo… o papel das doulas é tão forte que quase não cabe em palavras e frases. Por isso, é melhor escolher frases simples, como esta. A simplicidade diz, de facto, muito.”

 

O nascimento da minha filha decorreu mais ou menos assim:

Acho que tudo começou quando, um dia, eu e o meu marido decidimos pôr uns cortinados e eu decidi forrar as gavetas dos moveizinhos da Beatriz para começar a arrumar as roupinhas dela. Ainda faltava um mês para a data prevista do parto, por isso, podíamos fazer tudo com calma mas, naquele dia, apeteceu-nos. A certa altura comecei a ficar impaciente e decidi parar com tudo mas as gavetas ficaram forradas e a roupinha arrumada. Percebi que tinha um levíssimo corrimento gelatinoso e pensei: “E se fosse já?” Achei piada à ideia mas desliguei. Podia ser o rolhão mucoso, na verdade. Eu achava que não podia ser nada porque ainda faltavam quatro semanas! A ideia de ter a minha filha antes do final do tempo nunca me tinha ocorrido. Aliás, sempre pensei que pudesse até passar do limite das 40 semanas. E sempre que lia sobre gravidez, passava à frente os capítulos sobre partos prematuros.

 

No dia seguinte fiz a minha vida normal. Trabalhei e fui ao yoga. Depois do jantar, quando me levantava da mesa, senti que perdia líquido amniótico. Como se urinasse involuntariamente. O líquido cheirava a maresia (como a Luísa me tinha explicado) e era incolor. Não tive dúvidas do que era. Aí percebi que o parto podia estar bem mais perto do que imaginara e fiquei triste ou com pena. Isso implicaria alterar os nossos planos. Fomos gerindo a situação, tentando perceber se a perda era permanente. Como se confirmou que sim, acabei por ir às urgências da MAC, onde trabalha o meu médico que não estava em Portugal mas com quem troquei sms. Estive sempre em contacto com a Luísa e depois também com a Eilis (parteira). Ainda tinha a esperança de não ter rompido as membranas e de com uma ecografia se perceber que estava tudo bem, podendo, assim, vir para casa. Por isso, não levei roupinhas para a bebé, levando só umas camisas de dormir, escova de dentes e chinelos para mim. Fui com o meu marido para a MAC, avisámos os nossos pais e avisei também uma enfermeira amiga que lá trabalha e que me acompanhou o tempo todo até ao nascimento da bebé. Foi um anjo da guarda e fez-me sentir muito amparada durante todo o tempo que lá estive.

 

Assim que entrei na MAC, e de forma irracional, accionei um mecanismo de entrega total. Entrega, acho que à ideia de que faria tudo para estar tranquila para o nascimento da minha filha. Isso implicaria aceitar alguns procedimentos que tinha planeado evitar.

Confesso que me senti tão tranquila que os aceitei de bom grado e, para isso, toda a caminhada que fiz na gravidez foi determinante.

Assim que cheguei mandaram-me fazer um CTG (é bem desconfortável…). Com os meus sintomas, a enfermeira de serviço ralhou por eu não ter ido a correr para a maternidade assim que perdi líquido amniótico pela primeira vez e foi fazer-me um toque, o primeiro de dezenas que me fizeram não sei quantas pessoas. Ainda tentei contar as vezes que me fizeram o toque e a quantidade de pessoas pelas mãos de quem eu passei mas já não consigo fazer essa reconstituição. Foram dezenas, seguramente. Também não me incomodou. Estava muito concentrada na minha filha.

 

A enfermeira fez-me o toque e disse: “Não tem bolsa rota”. E eu respondi: “Pois, mas estou a perder líquido, isso eu sei”. Ela disse que devia ser urina mas com a minha insistência disse, então, que outra médica me veria. Mais um toque, o mesmo diagnóstico. Eu continuei a insistir e, à terceira, quando entrava noutro gabinete, de outra médica o líquido começou a escorrer-me pelas pernas. A médica observou-me e disse: “Tem bolsa rota. Fica internada”.

 

Fiquei, então, a pensar que o nascimento da minha filha aconteceria mais cedo do que eu imaginava. Avisámos o meu marido que foi a casa buscar os meus exames anteriores (até isso eu não tinha levado e ele depois também se voltou a esquecer!) e roupa para a bebé e que avisou os nossos pais. Assim que ele chegou foi ter comigo que já estava no quarto onde passaria por todo o trabalho de parto e onde decorreu o nascimento.

 

Eu tinha chegado às urgências por volta da hora do almoço e cheguei ao quarto (sala de partos) por volta das 15h. Depois da decisão de internamento (não me chegaram a fazer ecografia) fui para uma pequena sala, com um duche e uma casa de banho. A enfermeira disse-me para me despir que já vinha fazer a rapagem de pêlos púbicos. Eu disse que preferia não fazer mas não fui atendida… esperei nessa sala e ela não voltou a aparecer. Chegou uma auxiliar que trazia uma menina muito assustada também com ruptura de membranas e que tinha chegado à maternidade de ambulância. A auxiliar perguntou-me o que estava ali a fazer. Perguntou (sempre secamente e eu muito tranquila e descontraída) se já tinha feito o clister. Respondi que não. Disse-me para me deitar, rapou-me, deu-me o clister e foi-se embora. Falei um pouco com a menina assustada que me disse que perdeu líquido e sangue e me perguntou se comigo também foi assim. Tentei tranquilizá-la. Chegou uma enfermeira a quem disse que ia tomar um duche antes de sair. Não me respondeu. Depois levou-me para um gabinete para eu responder a um formulário. Fui, de seguida, para a sala de partos. As instalações eram óptimas, com um quarto para cada pessoa, com privacidade, música ambiente e temperatura regulável. Entretanto, chegou logo o P. Puseram-me a soro e ligaram-me ao CTG. Não tinha contracções.

 

Por voltas das 16h, continuava sem contracções e começaram a administrar-me occitocina. As contracções começaram de imediato. No início, achei piada. Mas em muito pouco tempo comecei a ter contracções de três em três minutos, quase sem tempo para respirar no intervalo. Pensei que conseguisse aguentar se a dilatação se fizesse depressa. Os toques sucediam-se e eu tinha sempre um centímetro, um centímetro, um centímetro… Não passava daí. O P ajudou-me imenso. Estive assim até cerca das 23h45 da noite, com um centímetro de dilatação. Às vezes, mordia a almofada. Não me apetecia falar, gritar, ouvir fosse o que fosse. Só me apetecia concentrar na minha princesa que estava quase a conhecer. E pensava que cada contracção representava mais um passo para o nascimento e para a vinda ao mundo da minha filha. Comunicava com ela e ela comigo. Estivemos sempre em sintonia, não tenho dúvidas disso. E ela portou-se divinalmente.

 

O P começou por tentar falar comigo, para eu me distrair. Disse-lhe que não me dissesse nada e ele percebeu de imediato. Eu nem permitia que ele me tocasse. Estava completamente entregue àquele momento, à minha dor, à vinda da nossa filha. Mas a presença dele era imprescindível. Eu nem o deixei ir comer… E ele ajudou-me imenso. Como eu estava a ser monitorizada ele acompanhava a intensidade e a frequência das contracções. E sempre que uma começava a abrandar ele dizia-me, a sussurrar: “Está a passar, está a passar, está a passar, …” E aí eu deixava a respiração ofegante e começava a respirar fundo. Por pouco tempo, porque a occitocina artificial não perdoa e, segundos depois, lá vinha outra. A vantagem do CTG foi mesmo essa, foi a de permitir que o Pedro me ajudasse tanto sem que eu tivesse que falar. Foi maravilhoso. Mas a minha vontade era desligar aquilo tudo e andar pelo quarto, praticar os exercícios que a Mariana tão bem me ensinou… Ainda pedi a uma médica para andar no quarto mas ela olhou para mim com ar compreensivo mas com o silêncio disse-me: “não, tens que estar assim”. Mas o seu olhar confortou-me… E depois disse-me para eu me sentar na cama. O problema é que eu tinha que estar sempre na mesma posição, super desconfortável, porque em qualquer outra posição perdia-se o sinal do batimento cardíaco da bebé. Era posição entre a posição de barriga para cima e a de virada para o lado esquerdo. Não me podia sequer sentar porque já tinha montada a estrutura para “pendurar” as pernas a meio da cama e isso também me impedia de tirar as pernas de cima da cama.

 

Enfim, a certa altura, eu, que não queria epidural, só pensava no alívio das dores e na minha princesa. Mas como não passava de um centímetro de dilatação e para a epidural diziam-me que tinha que esperar até aos três centímetros, nada a fazer. Eu não dei pelo tempo passar mas quando perguntei as horas já era quase meia-noite. Achei estranhíssimo. Às vezes tinha frio, outras calor e íamos pedindo para regularem a temperatura. Também nos deram cobertores. Então, perto da meia-noite, para apressar o processo, num dos muitos toques, uma médica literalmente abriu-me o colo do útero. Passei, nessa altura, de um centímetro para três. E foi o momento mais doloroso de todo o processo. Gemi profundamente e tive uma dor que julguei ser insuportável. Mas passou… Depois, prepararam-me para a epidural. A anestesista não foi simpática e fez questão que eu não tivesse ajuda para me sentar e me virar de lado na cama e ainda me ia dizendo que não tinha o dia todo. A certa altura, disse-lhe que teria que esperar porque eu estava a meio de uma contracção e não me conseguia mexer. Ela esperou. O Pedro diz que ela era brincalhona mas não foi o que senti na altura. A auxiliar que estava a ajudá-la confortou-me porque apesar de a médica não a deixar ajudar-me, pelo menos tentou.

 

Depois da epidural, o alívio foi imediato. Deve ter sido uma dose fraca porque sentia na mesma as contracções e não me lembro de perder muita sensibilidade. Uma hora depois, as dores fortíssimas estavam de volta. Deram-me um leve reforço. E, pouco depois, uma médica fez-me novo toque e disse: “Daqui a uma hora, está pronta!” Fiquei feliz. Continuava sempre em ligação com a minha filha e tinha total convicção de que ela estava tranquila como eu. Nessa altura, pensei que ninguém me tinha perguntado qual a sua posição nem tinham visto as ecos porque o Pedro voltou a esquecer-se de as trazer quando foi a casa buscar as coisas. Mas pensei que o que era importante é que nos estávamos a preparar para um parto vaginal que era o que eu tinha sonhado. E a bebé devia continuar bem posicionada como revelara a última ecografia que eu tinha feito, às 32 semanas. No dia em que eu cheguei à maternidade, eu estava exactamente com 36 semana de gestação.

 

Perto das três da manhã (devia faltar cerca de um quarto de hora) comecei a sentir uma contracção diferente, sentia vontade de fazer cocó. Pelas conversas com a Luísa e pelos relatos de parto que tinha lido, isso era sinal de que o parto estava eminente. Estávamos eu e o P, e o ambiente, fora do quarto, estava muito calmo. Parecia que todos dormiam. Tocámos a campainha e veio uma auxiliar, a quem eu disse que tinha vontade de fazer cocó. Perguntou se eu queria uma arrastadeira. E eu disse que não, que era mesmo o parto que devia estar próximo. Chamou uma enfermeira que me fez o toque e disse: “Vai parir!”. Veio outra enfermeira e um médico. Mas quem preparou tudo e assistiu o parto foi a primeira. Gostei muito dela. Chama-se Irene Cristina (perguntei-lhe, no fim). Começaram a preparar tudo e eu estava muito calma e lúcida. Sentia as contracções mas de uma forma não tão violenta como antes. Olhei para a enfermeira e pedi-lhe duas coisas. Em primeiro lugar, para endireitar as costas da cama, para não ficar tão deitada. Ela assentiu de imediato e eu fiquei mais sentada. Em segundo lugar pedi-lhe para não me fazer episiotomia. Ela disse que não o faz por princípio mas que não deixaria rasgar pelo que se visse que o períneo ia lacerar, então cortaria. Confiei nela. Valeu a pena.

 

Ela disse-me para colocar as pernas na estrutura que tinha de ambos os lados da cama e deu-me as seguintes indicações: “No início de uma contracção, inspire profundamente, retenha o ar, incline-se para a frente, encoste o queixo ao peito e faça toda a força que conseguir como se fosse fazer cocó”. Ouvi com toda a atenção. Da primeira vez, comecei de imediato a ouvir palavras de encorajamento, em que ambas as enfermeiras me diziam: “É isso mesmo, vai muito bem, força, é mesmo isso.” Repeti este procedimento três ou quatro vezes, com toda a intensidade e entrega que poderia concentrar em mim. Nada mais me interessava, só aquele momento, só a ideia de ajudar a minha filha a nascer. Depois, de repente, senti-me muito cansada e perguntei: “Falta muito?”. Várias vozes me responderam: “Está quase, já se vê a cabecinha!!”. Aquela frase deu-me uma ânimo e uma concentração enormes e, na contracção seguinte, a cabecinha da bebé saiu. Aí, a parteira disse-me para não fazer mais força e depois o resto do corpinho da bebé saiu muito naturalmente. O meu períneo ficou intacto.

 

Tenho pena de algumas coisas que aconteceram depois e que me esqueci de pedir para acontecerem de outra maneira… (não sei se seria atendida, mas não custava tentar… não tinha forças para exigir…). O cordão umbilical foi cortado de imediato e pareceu-me que a enfermeira ficou meio aflita por a bebé não respirar logo. Podiam ter deixado que parasse de pulsar.

Depois, pensei que a bebé viesse para o meu peito mas a outra enfermeira (que era meio eléctrica e que parecia meio incomodada por ainda não ter participado o suficiente) disse que a bebé tinha que ir fazer calor e mais não sei o quê e deu-ma para lhe dar um beijinho e depois levou-a de imediato. Fiquei como uma fêmea sem cria, totalmente desorientada e só dizia: “Mas para onde é que a levam? Tragam-na depressa, eu quero ter a minha filha perto de mim…”

 

A minha filha nasceu às 3h do dia 7 de Setembro e teve um índice de apgar 9/10. Nesse dia (noite) não dormi e fiquei a observá-la até amanhecer.

A imagem mais comovente e bonita que vi em toda a minha vida foi o seu olhar, depois do nascimento. O olhar de um recém-nascido é, sem dúvida, um olhar abençoado, puro, limpo e genuíno. Acabadinho de chegar do Céu…

 

S.
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