Nascimento da Beatriz
4 de Maio de 2004
A Beatriz foi muito desejada e planeada. Estava casada há 2 anos.
Engravidei rapidamente, em Setembro de 2003. A gravidez decorreu com alguns percalços: uma ameaça de aborto às 7 semanas e contracções a partir das 18 semanas. No meu local de trabalho, já 4 colegas tinham perdido os seus bebés desde o início do ano. Sou enfermeira e lidamos com doentes infectados e que exigem um esforço físico considerável. Por estes motivos, a ansiedade foi intensa desde o início e pior fiquei quando tive a ameaça de aborto! Pensava mesmo que ia perder o meu bebé. Foram 2 semanas de muito sofrimento psicológico, em repouso quase absoluto em casa, sempre a perder sangue. Não queria pensar no bebé, mas era inevitável e fartava-me de chorar. Às 9 semanas, tudo melhorou, parei de sangrar, o bebé estava bem, senti-me um pouco melhor e recomecei a trabalhar. Não foram propriamente atenciosos no meu serviço, ou melhor, os colegas foram todos impecáveis, mas a chefe... ou me atribuía doentes infectados ou muito pesados fisicamente (numa ocasião fiquei com uma doente que tinha mais de 100 Kg!). Tinha que reivindicar todos os dias os meus direitos, era muito cansativo e frustrante!
Às 18 semanas comecei a sentir algumas contracções. Embora indolores, eram muito frequentes e começaram a provocar o amolecimento do colo do útero. Por precaução, fiquei em casa a partir das 30 semanas. O resto da gravidez decorreu normalmente, sentia-me um pouco ansiosa, mas mantive-me ocupada com pequenas actividades.
No final da gravidez, a Beatriz ainda estava em apresentação pélvica. A médica propôs-me as soluções possíveis: fazer versão externa, esperar normalmente e fazer um parto vaginal, ou marcar a cesariana. Não me influenciou minimamente e informou-me claramente em que consistiam cada uma das opções.
Não quis fazer versão externa. Sabia que por vezes resultava, mas se a Beatriz se tinha colocado assim seria por alguma razão que só ela conhecia! Parecia-me uma violência, contrariá-la! Tinha também pouco líquido amniótico o que reduzia a possibilidade de sucesso.
O parto vaginal assustava-me. Por vários motivos: seria pouco provável ser a minha médica a fazer o parto. Sabia lá quem seria! Podia ser um mau profissional! Revi mentalmente as possíveis complicações de um parto pélvico: encravamento da cabeça ao sair do colo do útero, episiotomia alargada se fossem necessários fórceps... tive medo! Ia estar tão indefesa, sem poder valer-me ou à minha filha! Sem ninguém de confiança e com conhecimentos médicos para zelar por nós! Decidi-me pela cesariana. Assim até era menos ansiedade! Tinha o dia e a hora marcadas.
No dia 4 de Maio de 2004 lá fui eu para o Hospital Garcia de Orta. Fui internada, colocaram-me um soro (o que foi óptimo pois estava a morrer de fome e com tonturas), raparam-me parte dos pelos púbicos e fizeram-me um enema de limpeza do intestino com cerca de 1 litro de água morna! Este procedimento foi horrível! Tive umas cólicas tão, mas tão fortes que estive cerca de 1h na casa de banho! Se tivesse contracções não sei como teria aguentado! Felizmente soube há pouco tempo que já não fazem este procedimento. Quando fiquei melhor, pude vir cá para fora esperar que me chamassem, junto do meu marido. Entretanto chegaram os meus pais. Foi muito bom ter esta companhia!
Finalmente chamaram-me para o bloco operatório.
Deram-me dois papéis para assinar. Um era o consentimento informado. Li rapidamente e assinei. Por ser enfermeira, já tinha uma noção do que consistia. O outro papel era para eu concordar que o hospital se desresponsabilizava se não conseguissem recolher com sucesso o sangue do cordão umbilical, pois eu levara o Kit para fazerem a recolha. Não me deram grande opção senão assinar, não é? Ali naquela situação... mas não gostei!
A enfermeira do bloco algaliou-me. Mesmo sabendo que eu era colega, não foi nada simpática, não me olhava, não me dirigiu a palavra. Algaliou-me sem estar anestesiada, e com as pernas abertas para a porta. Por acaso estava fechada, mas para meu azar, entraram duas pessoas durante o procedimento. Claro que ninguém ligou, mas eu senti-me muito mal.
Deram-me anestesia epidural. Tive uma quebra de tensão arterial com este procedimento e dificuldade respiratória (o bloqueio anestésico tinha subido demais na coluna!). Estava quase a ver que ia ser anestesia geral... Aos poucos fiquei melhor e puderam continuar.
Tiraram-me as lentes de contacto, e eu, como fui burra, não levei os óculos! Fiquei sem ver quase nada! Pensei que como era anestesia epidural não haveria necessidade de as tirar. E para falar verdade acho que não havia mesmo!
Prenderam-me os braços em dois suportes. Deu-me uma ligeira sensação de claustrofobia, comichões no nariz... e nem percebi para quê! Até parece que ia fazer alguma coisa com os braços!
Tinha medo de sentir dor, mas não senti nada. Só uns leves puxões junto ao tórax. O colega da minha médica (e chefe dela) comentava com ela, com um tom indignado, que a empresa de colheita de sangue do cordão esperava que eles médicos fizessem a colheita sem qualquer contrapartida ou benefício... como se desse muito trabalho! Não gostei desta conversa ali comigo a ouvir, como se não estivesse presente! Achei uma falta de respeito!
Tentei ouvir a Beatriz a chorar. Não consegui! As conversas e os barulhos fizeram-me perder o primeiro choro débil dela! E ninguém me disse o momento exacto em que ela nasceu! Passado um minuto mostraram-ma ao lado, a cerca de 2 metros. Mal a vi! Levaram-na logo! Nem lhe pude tocar! Fiquei tão triste! Tinha sido assim o nascimento dela! Sem qualquer emoção, tudo tão frio!
Demoraram imenso tempo a suturar-me. Levaram-me para o corredor e fiquei ali à espera. Não me trouxeram a bebé, mas para falar verdade, até me esqueci dela! Estava tão concentrada nas sensações desagradáveis do meu corpo! Uma sede HORRÍVEL, tremia incontrolavelmente, tinha TANTO frio! Não conseguia mexer as pernas, mas sentia um calor desagradável. Gemia baixinho, sem conseguir calar-me! Deram-me água, mas acho que nem se bebesse um garrafão de 5 litros ficava satisfeita!
Continuava com aquela tristeza indefinível de clímax que passou e me deixou vazia... tocava a minha barriga e nem parecia minha! Tinha uma grande sensação de perda, tinha perdido o bebé "da minha barriga"! A médica trouxe-me a Beatriz e colocou-a ao meu lado. Deixou-nos sozinhas. Fiquei a olhar para ela. Não sentia nada! Culpei-me! Não reconhecia o meu próprio bebé! Que raio se passava comigo? Procurou a mama e eu pedi ajuda para a pôr a mamar. Era isso que esperavam de mim... Os olhos dela, muito escuros e muito abertos, fixavam-me, como se me lessem a alma! Não consegui desviar os meus! Era a minha bebé, apesar de eu não saber o que sentia por ela, talvez alguma ternura? Nem sabia bem!
Os dias seguintes foram confusos emocionalmente. Cuidava dela, como era suposto. Mas ainda bem que ninguém me perguntou o que sentia por ela, nem sabia o que responder! Por outro lado, bastou darem-lhe a BCG e a vacina anti-Hepatite B para eu ficar à beira das lágrimas! E sentir ímpetos de proteger aquele ser indefeso!
O meu amor por ela cresceu devagarinho. Nunca foi uma bebé fácil, tinha muitas cólicas e queria mamar a toda a hora. Quando sorriu a primeira vez, senti alívio. Finalmente, algum retorno de todo o meu esforço, do meu sacrifício constante... acho mesmo que comecei a amá-la nessa altura!
Sempre fiquei na dúvida, se o nascimento dela tivesse sido diferente, mais humano, com mais interacção imediata com ela, talvez tivéssemos começado de outra maneira? Talvez...
Sara Adegas
Oeiras - Portugal
4 de Maio de 2004
A Beatriz foi muito desejada e planeada. Estava casada há 2 anos.
Engravidei rapidamente, em Setembro de 2003. A gravidez decorreu com alguns percalços: uma ameaça de aborto às 7 semanas e contracções a partir das 18 semanas. No meu local de trabalho, já 4 colegas tinham perdido os seus bebés desde o início do ano. Sou enfermeira e lidamos com doentes infectados e que exigem um esforço físico considerável. Por estes motivos, a ansiedade foi intensa desde o início e pior fiquei quando tive a ameaça de aborto! Pensava mesmo que ia perder o meu bebé. Foram 2 semanas de muito sofrimento psicológico, em repouso quase absoluto em casa, sempre a perder sangue. Não queria pensar no bebé, mas era inevitável e fartava-me de chorar. Às 9 semanas, tudo melhorou, parei de sangrar, o bebé estava bem, senti-me um pouco melhor e recomecei a trabalhar. Não foram propriamente atenciosos no meu serviço, ou melhor, os colegas foram todos impecáveis, mas a chefe... ou me atribuía doentes infectados ou muito pesados fisicamente (numa ocasião fiquei com uma doente que tinha mais de 100 Kg!). Tinha que reivindicar todos os dias os meus direitos, era muito cansativo e frustrante!
Às 18 semanas comecei a sentir algumas contracções. Embora indolores, eram muito frequentes e começaram a provocar o amolecimento do colo do útero. Por precaução, fiquei em casa a partir das 30 semanas. O resto da gravidez decorreu normalmente, sentia-me um pouco ansiosa, mas mantive-me ocupada com pequenas actividades.
No final da gravidez, a Beatriz ainda estava em apresentação pélvica. A médica propôs-me as soluções possíveis: fazer versão externa, esperar normalmente e fazer um parto vaginal, ou marcar a cesariana. Não me influenciou minimamente e informou-me claramente em que consistiam cada uma das opções.
Não quis fazer versão externa. Sabia que por vezes resultava, mas se a Beatriz se tinha colocado assim seria por alguma razão que só ela conhecia! Parecia-me uma violência, contrariá-la! Tinha também pouco líquido amniótico o que reduzia a possibilidade de sucesso.
O parto vaginal assustava-me. Por vários motivos: seria pouco provável ser a minha médica a fazer o parto. Sabia lá quem seria! Podia ser um mau profissional! Revi mentalmente as possíveis complicações de um parto pélvico: encravamento da cabeça ao sair do colo do útero, episiotomia alargada se fossem necessários fórceps... tive medo! Ia estar tão indefesa, sem poder valer-me ou à minha filha! Sem ninguém de confiança e com conhecimentos médicos para zelar por nós! Decidi-me pela cesariana. Assim até era menos ansiedade! Tinha o dia e a hora marcadas.
No dia 4 de Maio de 2004 lá fui eu para o Hospital Garcia de Orta. Fui internada, colocaram-me um soro (o que foi óptimo pois estava a morrer de fome e com tonturas), raparam-me parte dos pelos púbicos e fizeram-me um enema de limpeza do intestino com cerca de 1 litro de água morna! Este procedimento foi horrível! Tive umas cólicas tão, mas tão fortes que estive cerca de 1h na casa de banho! Se tivesse contracções não sei como teria aguentado! Felizmente soube há pouco tempo que já não fazem este procedimento. Quando fiquei melhor, pude vir cá para fora esperar que me chamassem, junto do meu marido. Entretanto chegaram os meus pais. Foi muito bom ter esta companhia!
Finalmente chamaram-me para o bloco operatório.
Deram-me dois papéis para assinar. Um era o consentimento informado. Li rapidamente e assinei. Por ser enfermeira, já tinha uma noção do que consistia. O outro papel era para eu concordar que o hospital se desresponsabilizava se não conseguissem recolher com sucesso o sangue do cordão umbilical, pois eu levara o Kit para fazerem a recolha. Não me deram grande opção senão assinar, não é? Ali naquela situação... mas não gostei!
A enfermeira do bloco algaliou-me. Mesmo sabendo que eu era colega, não foi nada simpática, não me olhava, não me dirigiu a palavra. Algaliou-me sem estar anestesiada, e com as pernas abertas para a porta. Por acaso estava fechada, mas para meu azar, entraram duas pessoas durante o procedimento. Claro que ninguém ligou, mas eu senti-me muito mal.
Deram-me anestesia epidural. Tive uma quebra de tensão arterial com este procedimento e dificuldade respiratória (o bloqueio anestésico tinha subido demais na coluna!). Estava quase a ver que ia ser anestesia geral... Aos poucos fiquei melhor e puderam continuar.
Tiraram-me as lentes de contacto, e eu, como fui burra, não levei os óculos! Fiquei sem ver quase nada! Pensei que como era anestesia epidural não haveria necessidade de as tirar. E para falar verdade acho que não havia mesmo!
Prenderam-me os braços em dois suportes. Deu-me uma ligeira sensação de claustrofobia, comichões no nariz... e nem percebi para quê! Até parece que ia fazer alguma coisa com os braços!
Tinha medo de sentir dor, mas não senti nada. Só uns leves puxões junto ao tórax. O colega da minha médica (e chefe dela) comentava com ela, com um tom indignado, que a empresa de colheita de sangue do cordão esperava que eles médicos fizessem a colheita sem qualquer contrapartida ou benefício... como se desse muito trabalho! Não gostei desta conversa ali comigo a ouvir, como se não estivesse presente! Achei uma falta de respeito!
Tentei ouvir a Beatriz a chorar. Não consegui! As conversas e os barulhos fizeram-me perder o primeiro choro débil dela! E ninguém me disse o momento exacto em que ela nasceu! Passado um minuto mostraram-ma ao lado, a cerca de 2 metros. Mal a vi! Levaram-na logo! Nem lhe pude tocar! Fiquei tão triste! Tinha sido assim o nascimento dela! Sem qualquer emoção, tudo tão frio!
Demoraram imenso tempo a suturar-me. Levaram-me para o corredor e fiquei ali à espera. Não me trouxeram a bebé, mas para falar verdade, até me esqueci dela! Estava tão concentrada nas sensações desagradáveis do meu corpo! Uma sede HORRÍVEL, tremia incontrolavelmente, tinha TANTO frio! Não conseguia mexer as pernas, mas sentia um calor desagradável. Gemia baixinho, sem conseguir calar-me! Deram-me água, mas acho que nem se bebesse um garrafão de 5 litros ficava satisfeita!
Continuava com aquela tristeza indefinível de clímax que passou e me deixou vazia... tocava a minha barriga e nem parecia minha! Tinha uma grande sensação de perda, tinha perdido o bebé "da minha barriga"! A médica trouxe-me a Beatriz e colocou-a ao meu lado. Deixou-nos sozinhas. Fiquei a olhar para ela. Não sentia nada! Culpei-me! Não reconhecia o meu próprio bebé! Que raio se passava comigo? Procurou a mama e eu pedi ajuda para a pôr a mamar. Era isso que esperavam de mim... Os olhos dela, muito escuros e muito abertos, fixavam-me, como se me lessem a alma! Não consegui desviar os meus! Era a minha bebé, apesar de eu não saber o que sentia por ela, talvez alguma ternura? Nem sabia bem!
Os dias seguintes foram confusos emocionalmente. Cuidava dela, como era suposto. Mas ainda bem que ninguém me perguntou o que sentia por ela, nem sabia o que responder! Por outro lado, bastou darem-lhe a BCG e a vacina anti-Hepatite B para eu ficar à beira das lágrimas! E sentir ímpetos de proteger aquele ser indefeso!
O meu amor por ela cresceu devagarinho. Nunca foi uma bebé fácil, tinha muitas cólicas e queria mamar a toda a hora. Quando sorriu a primeira vez, senti alívio. Finalmente, algum retorno de todo o meu esforço, do meu sacrifício constante... acho mesmo que comecei a amá-la nessa altura!
Sempre fiquei na dúvida, se o nascimento dela tivesse sido diferente, mais humano, com mais interacção imediata com ela, talvez tivéssemos começado de outra maneira? Talvez...
Sara Adegas
Oeiras - Portugal
