Humpar

 
O Nascimento da Beatriz
18 de Fevereiro de 2006



Este relato contem a visão do pai e a da mãe separadamente. A HumPar agradece esta original forma de partilhar tão belo momento. Ao pai, o nosso especial obrigado por mostrar que os homens também têm sensibilidade para desfrutar o nascimento de um filho com toda essa intensidade. 

Pelo Pai

Dia 18 de Fevereiro foi o dia mais feliz da minha vida. Ver aquilo que sempre desejámos: Filhos. Sim é o meu primeiro filho, a Beatriz é linda e de certo o meu maior tesouro.

A barriga era linda e eu não me fartava nunca de lhe tocar para sentir a Beatriz, de a beijar e de as confortar, a ela e à mãe, pois este sonho não é só meu, mas também da Susana. Mais tarde já se conseguia sentir as suas costas e os seus pés e também os seus soluços. Nunca parei de imaginar como ela seria. Era uma princesa que estava prestes a vir ter connosco. Ouvimos muitas vezes a música da harpa por ser tão bonita e calmante, para nos sentirmos tranquilos, até que ela quis sair naquela noite. Eu pensei é hoje, é hoje que vou sentir a Beatriz cá fora, ela é linda. Depois da Susana se ter levantado várias vezes para ir à casa de banho, vesti-me, pois pensei que era hora de irmos para o Hospital. A Susana tinha começado a ter contracções. Chamei a minha sogra para vir presenciar as contracções dela.

Depois das minhas princesas terem subido e descido as escadas várias vezes, as contracções intensificaram-se. Telefonei à Doula, a nossa prima Carla. Disse-me para cronometrar as contracções, fazendo-se ao caminho para nossa casa. Telefonei à nossa médica que se prontificou a vir ter connosco para nos acompanhar da nossa casa para o hospital. Nos intervalos das informações dadas pela Carla e pela Médica fui controlando os tempos das contracções e apoiando a Susana. Foi linda, a Susana foi maravilhosa, nós dançámos, trocámos carinhos, estivemos os dois na sala, esperando a chegada da nossa princesa. Perguntei à Susana se queria ir embora, se estava na hora de irmos, mas ela queria fazer a dilatação em casa e na maior harmonia possível.  

A médica telefonou e depois de eu falar com ela e fazer o ponto da situação, disse-me que ela podia entrar na banheira, e a Susana logo se prontificou.

A minha sogra só me dizia que estava na hora, que todos os sinais diziam isso mesmo, a perca de alguma água, o sangue, as dores na barriga.

A médica chegou, entrou e observou-a dentro de água. Poucos minutos depois disse-nos:  “O parto vai ser em casa, ela tem a dilatação feita, já não há tempo de irmos para o hospital”. A minha sogra engoliu em seco sem denunciar a sua preocupação. Eu estava a viver uma grande experiência na minha vida, ser pai pela primeira vez.

Depois de algum tempo dentro de água e com o CD de harpa sempre a tocar, decidimos, a conselho da nossa médica, que era melhor passarmos para a nossa cama. A cabeça da Beatriz já se via, o seu cabelo grande, estava tão linda!

Entre nós estava formada a bolha, a energia era muita. Até o sol veio entrar pela janela para receber a minha princesa. Depois de algumas voltas e trocas de posições entre mim e a Carla, não esquecendo a minha sogra que nos prestou um grande auxílio em todos os materiais necessários, olhei para a cara de todas estas mulheres à minha volta e senti uma grande união, uma verdadeira equipa, dedicação e harmonia. A calma da Susana, inacreditável, ela estava a dançar em cima da cama para que a Beatriz se sentisse bem.

Depois de várias contracções de expulsão a Susana que já se sentia cansada, dizia: “Quero vê-la”. A mim só me apetecia meter lá a mão para a ajudar a sair mais depressa. Depois de umas massagens e de muitos miminhos que a médica lhe deu eis que metade da cabeça estava cá fora. E eu a pensar, “que cabeça tão pequenina”, mas não, era apenas a cabeça a moldar-se para poder sair. Na contracção seguinte a nossa princesa estava cá fora. Depois de ter gritado tanto, todas as dores desapareceram, a Susana ficou com uma cara felicíssima como se não tivesse tido nenhuma dor. Que felicidade, não consegui manter a minha emoção, eu que sou uma pessoa muito controlada nas minhas emoções, não consegui conter as minhas lágrimas. Estou tão feliz, és tão bonita Beatriz, com os teus dedos de pianista e na cabeça uma coroa, sim, trazias uma coroa porque afinal és mesmo uma princesa linda.

A expressão que a Susana fez quando olhou para mim disse-me tudo, estávamos mais unidos do que nunca. É delicioso pensar em tudo isto. Eu ali na minha cama com a Susana e a nossa filha linda acabada de nascer, cada vez que a olhava chorava de alegria e pensava que coisa tão bonita que nós fizemos.

No dia 18 ao contrário dos outros dias eu consegui deixar de pensar no que vinha a seguir. Eu vivi intensamente aquele início do dia, esquecendo tudo para me concentrar só na nossa filha.

Agora, mais tarde, quando penso nas pessoas que nos envolveram e nos ajudaram no nascimento da nossa Beatriz, e no modo como trabalhámos em equipa, não há palavras para descrever a felicidade que sinto.        

José Luís Cheis

E agora fala a Mãe ...

Naquele dia acordei cheia de energia, fui caminhar de manhã, comprei pão, cozinhei, arrumei, passei a ferro e ainda conduzi ao final do dia. Sentia-me bem, como sempre me senti durante toda a gravidez. 

De noite jantámos os dois, eu e o Zé, e ficámos na sala ao serão, no sofá, a comer chocolate e a ver um filme. Acendemos umas velas e ali ficámos abraçados. Só nós e a lua. Não me lembro do filme, porque daquele serão apenas recordo o calor, o carinho e a paz que senti por dentro. Adormeci.

Por volta da uma da manhã subimos para o quarto.  

Enquanto escovávamos os dentes na casa de banho senti umas cólicas fortes e enquanto esvaziava os intestinos percebi que perdia também alguma água. A rir disse ao Zé que estava a perder água e que provavelmente seria esta a grande noite, íamos conhecer a nossa Beatriz. Ele ficou com um ar estranho a olhar para mim assim a rir sem parar e perguntou-me se queria ir para o Hospital. Disse-lhe que não, ele sabia que eu queria ficar em casa durante toda a fase da dilatação. Fomos deitar-nos porque eu não sentia ainda contracções e pensei que seria importante dormirmos um pouco antes do tão esperado momento. Levantei-me cinco ou seis vezes de volta à sanita, não sei até hoje como foi possível esvaziar tantas vezes os intestinos!

Não consegui dormir. Acho que não queria mesmo dormir, queria estar atenta a tudo o que se estava a passar no meu corpo, não podia perder nada. Deitada, comecei a sentir umas moinhas na barriga, como quando está para aparecer o período. Começavam a intensificar-se, a subir pela barriga e depois paravam, e voltavam depois, mais fortes. Levantei-me, liguei o aquecimento e acendi umas velas. Fui caminhando pelo quarto, ajoelhei-me perto da cama, vim buscar um banquito baixo da cozinha para me sentar junto à cama, enfim, fui procurando as melhores posições sempre que vinham as contracções. Às quatro e tal da manhã acordei o Zé. Senti que as contracções estavam a ficar mais intensas e pedi-lhe para cronometrar. Colocámos o cd de harpa a tocar. Durante as contracções apoiava-me nele, com ele era mais fácil. Recordo-me de me apoiar de pé no cabide de madeira e dele se colocar atrás de mim com os joelhos atrás dos meus a suportar o peso do meu corpo. Foi bom assim. Pedi-lhe para acordar a minha mãe, que vive connosco e perguntei-lhe o que achava de ligar à Carla, a Doula, e à Médica. Ambas tinham ficado de vir ter connosco a casa antes de irmos para o hospital. Parecia-me ainda um pouco cedo de mais para lhes ligar. Talvez fosse melhor deixá-las dormir mais um pouco, porque eu ainda me estava a sentir muito bem. Aguardava que algo mais difícil viesse depois, porque até aqui tudo bem. Ligámos na mesma para lhes dar o ponto da situação e elas meteram-se ao caminho.     

Subi e desci as escadas, acendi as velas da sala novamente, apaguei todas as luzes e fui caminhando perto da janela da sala, de onde conseguia ver a Lua. Só a sua luz já iluminava tudo à minha volta. Dancei com o Zé, fui recebendo abraços, carinhos e beijos.

Perdi depois o rolhão, sangue, muito sangue e de vez em quando um pouco mais de água. O Zé e a minha mãe foram falando com a Doula e com a Médica. Foram cronometrando as contracções e andando comigo pela casa. Entrei na banheira quando a médica, pelo telefone me sugeriu que o fizesse. Achei que talvez fosse cedo demais ainda, mas a vontade de entrar na água era muito mais forte e assim que o fiz foi um prazer e um conforto muito grande.

Não sei quanto tempo passou mas tenho ideia que talvez uns 15 ou 20 minutos no máximo até eu ter vontade de fazer força. O Zé tinha ido buscar a médica no caminho e eu estava nessa altura sozinha com a minha mãe, que ficou apavorada quando percebeu que eu já estava a fazer força e que provavelmente a bebé queria sair ali mesmo e naquela hora. Estava sozinha comigo e sentiu medo que algo pudesse não correr bem. Pedi-lhe para não falar e ela ficou comigo até a médica e o Zé chegarem. Foi tudo muito rápido. A médica chegou, descalçou os ténis que trazia e deu-me um beijo e uma mão para segurar, enquanto o Zé me apoiava a cabeça. Ela ficou uns minutos a olhar-me, depois escutou os batimentos cardíacos da Beatriz, e depois de alguns minutos viu a dilatação e disse-nos: “O parto vai ser aqui, não vamos ter tempo de ir para o hospital.” Fiquei feliz, senti-me segura, confiante, aliviada talvez... Fechei os olhos mais uma vez, e concentrei-me no meu corpo… na Beatriz… na sua cabeça a descer dentro de mim, na sua felicidade e no prazer que eu estava a sentir em estar ali, no meu espaço, dentro da minha banheira tão saborosa, com as minhas velas e a minha música, e com estas pessoas que eu amava à minha volta a cobrirem-me de beijos e de abraços quentes, como os panos que me cobriam e a água quente que deitavam sobre mim.

Recordo-me de abrir por momentos os olhos e ver a claridade a entrar pela janela. O dia ia nascer e ia trazer consigo a minha Beatriz. Foi nisto que pensei. Por volta das 8 horas passámos para o quarto, para a nossa cama. Estava a ser difícil para a médica observar a saída da Beatriz e controlar os batimentos dentro de água. Chegou a Carla, a Doula, que bom…agora estávamos todos. O seu sorriso quando entrou, as suas mãos que seguraram as minhas e a sua voz serena no meu ouvido, trouxeram mais luz àquela manhã.    

Depois de uma longa fase de expulsão, às 10:35 a Beatriz nasceu com 39 semanas de gestação. Segundo a médica, pesava aproximadamente 3,500 kg. As contracções eram curtas e espaçadas no tempo, o que permitiu que eu descansasse nos intervalos. Mudei várias vezes de posição, dancei em cima da cama, balancei-me e pendurei-me no Zé e na Carla. Tudo com muita calma e muita harmonia. Era assim que eu tinha desejado.

A cabeça dela já estava a aparecer, mas passaram várias contracções até que ela saísse. Entre as massagens e os beijos, a médica dizia-me “Tu consegues… ela tem espaço… ela está aqui… na próxima contracção ela vai nascer”. Na última contracção fiz toda a minha força, gritei o mais alto que pude, a Beatriz deu o seu último pontapé na minha costela e senti depois o grande anel de fogo e a dor e o prazer a misturarem-se no meu corpo. Recordo a voz da Carla no meu ouvido a dizer-me “ela está a nascer, ela está a nascer!” E ela nasceu, calma e serena, ficou no meu peito as horas que se seguiram. O cordão, foi o Zé quem cortou, só depois de deixar de pulsar. A placenta saiu depois, rosada e tão macia. O meu períneo ficou intacto, talvez pelas massagens durante a gravidez, talvez pelas massagens da médica no momento, talvez pela posição, talvez por tudo isto.

E ficámos depois os três, sozinhos, no nosso quarto, na nossa cama, entre os nossos lençóis, que tantas vezes assistiram ao nosso amor, agora a adormecerem a nossa Princesa. A música ainda tocava, algumas velas ainda estavam acesas e depois do sol ao nascer do dia, agora caía a chuva lá fora.

O Pediatra, contactado pela médica, veio de tarde ver a Beatriz e confirmar que tudo estava bem.    

Às vezes no meu quarto, ainda sinto o cheiro daquela manhã… o cheiro do parto, o cheiro da felicidade. Quanto ao perfume da Beatriz, esse eu tenho a certeza que vou senti-lo sempre, está gravado no meu cérebro e no meu coração e não vou esquecer nunca o prazer daquela primeira vez que o senti. 

Obrigado Zé, Obrigado Mãe, Obrigado Carla, Obrigado à minha Médica. Obrigado pelo vosso Amor, pela confiança, pela entrega e por terem acreditado em mim e no meu corpo, e ao meu lado permitido que eu e a Beatriz tivéssemos vivido esta grande experiência que é o Nascimento… a Vida!

Susana Cheis

18 de Fevereiro de 2006 – Sintra - Portugal
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