Humpar

 
Nascimento do João Paulo
20 de Abril de 2006
 



Foi uma grande surpresa quando soubemos que eu estava grávida. Não esperávamos essa gravidez e a vivemos com grande alegria desde o primeiro dia que soubemos.

Não foi uma gravidez muito tranquila, eu com 35 anos, primeiro filho, tive alguns problemas como tensão alta e diabetes gestacional. Fui devidamente seguida pelo centro de saúde e pela Maternidade Dr. Alfredo da Costa.

Eu e meu marido vivemos intensamente cada ecografia e cada mês… Comprei livros, revistas, me informei ao máximo. Também cuidei muito da alimentação, procurando comer somente aquilo que poderia fazer bem ao bebe.

Confesso, que apesar de ser Psicóloga Hospitalar, mas, primeiramente sou HUMANA, senti muito medo e muita angústia em vários momentos. Medos perfeitamente normais para uma mulher grávida, medos que dizem respeito a constituição física do bebe e ao Parto. Eu não pensava muito no depois do bebe nascer, e sim no dia do seu nascimento.

Li muitos artigos sobre partos e amamentação, resolvi que queria ter de parto normal e que iria amamentar.

O parto normal é um ato fisiológico e perfeitamente natural, tive muita vontade de ter meu bebe em casa. Mas, as pessoas ao meu redor se mostravam completamente contra, e diziam: - E se dá uma complicação??? E se o bebe nasce com algum problema??? No hospital é tudo mais esterilizado, é mais seguro, etc , etc e tal... Bom, diante de tantas complicações, e como eu estava sendo seguida na maternidade em Consultas de Alto Risco, resolvi não tentar.

Quando trabalhei em Hospital, meu trabalho enquanto Psicóloga era de Humanizar o atendimento as pessoas que estavam ali precisando de tratamento. Não vi ainda nenhum hospital que tivesse um bom atendimento, e principalmente por parte da equipa de enfermagem, não quero generalizar, mas, a grande maioria nos atende como se estivessem fazendo-nos um grande favor. Acho que devem se esquecer que são pagas para isso, e se estão ali, é porque gostam da profissão que escolheram (pelo menos deveriam gostar!!!).

E durante minhas consultas já pude perceber a dinâmica da Maternidade e como as grávidas são mal atendidas.

Sou totalmente contra a episiotomia, conversei com minha medica de família sobre isso, e ela me disse: Na hora se tiver que cortar eles cortam, não dói nada!

Bom, assim, fui indo, com todas essas questões na cabeça.

Meu parto estava previsto para 17 de Abril de 2006. Eu já estava bastante ansiosa.

No dia 19 de Abril, fui ao supermercado e vim caminhando bem devagar… Senti uma dor bem forte na barriga e logo passou. Durante a gravidez eu tinha medo de não saber quando seria a hora certa… Bobagem, todas na hora acabamos por saber quando está na hora certa, fiquem tranquilas!!!!

Cheguei a casa, e fui fazer o jantar mais cedo… As contracções  ficaram cada vez mais fortes e pouco espaçadas, liguei para meu marido e ele saiu do trabalho e veio me buscar para irmos para a Maternidade. Eu sentia muita dor, muita mesmo.

Chegando na Urgência, sentamo-nos e ficamos um bom tempo até eu ser chamada, e com cada contracção que eu já não sabia mais o que fazer….

Fui vista pela enfermeira, e fui directamente fazer o CTG, a enfermeira me disse: - Não sei porque está tão chorosa, nem contracções deve ter. Eu lhe respondi: Tenho sim, e estou com muito dor, muito me admira a senhora duvidar de uma pessoa nesta hora. Fiquei muito irritada e indignada com isso.

Lá fiquei, “presa” ao CTG, e via os picos das contracções altíssimos, e disse a enfermeira: A senhora sabe ver um CTG? Pois, ainda acha que não tenho contracções???? A enfermeira ficou sem jeito e até mesmo se retirou da sala.

Porém, nem tudo neste mundo está perdido, entra na sala uma Parteira que disse trabalhar há mais de 30 anos na MAC, a filha dela estava grávida e foi fazer o CTG.

Me vendo com muitas dores, essa senhora me ensinou a respirar e confesso que o tempo que ela ficou ali, fiquei muito melhor e fui respirando com ela. Naquele momento ela parecia um anjo para mim. Cada vez mais dou vital importância à Humanização e ao carinho nesta hora….

Fui então examinada pela médica e fiquei por lá: Chegou a hora!!!! Ao mesmo tempo eu estava calma, e com muita vontade de ver meu filho!!!

Fui levada para a sala de partos, onde tocava uma musica irritante, já me colocaram soro e ocitocina, mas, elas não dizem nada, eu que perguntei se estavam me dando ocitocina e a enfermeira confirmou. Chamei meu marido e ele entrou.

Ficamos ali, acho que isso já era 20:00 da noite, as contracções cada vez piores, e nada dele nascer. Me mandavam fazer forças, eu fazia, já não aguentava mais de dor, até que pedi para tomar a Epidural…

Confesso que foi maravilhoso, melhorei muito, mas, perdi um pouco o controle muscular para fazer força.

Entra na sala uma médica, nem boa noite, nada! Coloca uma arrastadeira em mim e vejo ela abrir um saco e retirar um instrumento curvo cirúrgico e ai eu pergunto: O que vai fazer? Ela responde: Não é nada com você! E me rompe a bolsa, sinto aquela água toda quentinha saindo de dentro de mim… Ela faz o procedimento e sai da sala. Mais uma vez, um erro absurdo na forma de se tratar uma grávida!

A partir dai eu sofria cada vez mais, e nada dele nascer. Às 05:30 da manhã, eu implorei, pedi socorro, que já não aguentava mais, eu estava mesmo sem forças nenhumas. Entram duas médicas e avaliaram-me, e dizem: vamos fazer fórceps.

Meu mundo caiu nesse momento, o meu e o do meu marido, que estava ansioso para ver o filho nascer. Pediram para ele sair da sala e esperar lá fora, me colocaram na maca e lá fui eu ao Centro Cirúrgico.

Pedi mais epidural, me deram, e pedi para não me cortarem. Impossível, diz a médica, e lá me cortaram e muito, eu não queria acreditar, eu gritava de dor, e neste momento doloroso, uma enfermeira se coloca ao meu lado e diz: Pare de gritar!!! Mas irritada eu fiquei e ai mais eu gritei, me colocaram os ferros e lá “arrancaram” meu filho de dentro de mim.

Não pude vê-lo, levaram-no de imediato para a sala anexa e eu fiquei ali, sendo suturada.

Somente depois de uns minutos é que pude vê-lo e perguntei se era perfeito e estava bem. Estava tudo bem com ele, só isso me valia.

Depois de suturada e preparada, sai da sala com o meu João Paulo nos meus pés, lá estava meu marido, preocupado e emocionado. Deixaram ele ver uns 2 minutos e já me levaram para um lugar de recuperação, onde fiquei sozinha. Meu bebe foi para outra sala.

Fiquei 2 horas ali, parada , pensando em como meu parto não tinha sido nada daquilo que eu queria e tinha idealizado, foi muito traumatizante para mim, para meu marido e para meu bebe. Mas, acabei me conformando, porque no final deu tudo certo.

Mas, esse conformismo não apaga a “crueldade “ de como tudo aconteceu. Um momento mágico que é parir um filho, e o meu momento foi muito sofrido. Como todos dizem: já passou!

Depois fomos para o quarto e ai passou o efeito da anestesia e sinto verdadeiramente uma dor como nunca senti na vida, a dor dos pontos, levei por fora uns 7 ou 8 pontos.

Eu não conseguia mexer-me e muito menos cuidar do bebe, e as enfermeiras passavam e não ajudavam em nada! No quarto eram mais simpáticas, mas, pouco eficientes. Foi outro sofrimento, querer cuidar do bebe e não conseguir. A sorte é que o horário de visitas é bom, e ai meu marido me ajudava. Fiquei 2 dias completos e tive alta.

As orientações que tive na Maternidade em relação aos cuidados com o bebe foram nulas.

Cheguei em casa e disse: e agora? Mas, o instinto maternal e o amor falam mais alto, cuidei e hoje cuido do João Paulo (que tem 2 meses) com muito amor e não tive muitas dificuldades. Posso dizer que ter um filho é mesmo a melhor coisa desse mundo, é uma dádiva uma maravilha.

Deixo aqui meu protesto em relação a Maternidade Dr. Alfredo da Costa em Lisboa, pode ser a melhor do País, como é mencionada, pode ser em matéria de experiência e equipamentos, mas,  em matéria de ATENDIMENTO HUMANO, MINHA NOTA É 1(UM), UM PORQUE UMA ENFERMEIRA OU DUAS FORAM DIGNAS DA POSIÇÃO QUE OCUPAM, AS RESTANTES DEVERIAM ESTAR A TRABALHAR COM MAQUINAS OU PAPEIS, MENOS COM SERES HUMANOS.

AGORA MAIS DO QUE NUNCA DEFENDO O PARTO HUMANIZADO, O AMOR E CARINHO NESTA HORA SÃO FUNDAMENTAIS.

Não quero deixar as futuras mamãs com medo após lerem meu relato, e sim deixar aqui uma mensagem realista e alertar para que possam procurar a melhor forma para ter seu bebe.



Rosana Sodré Milhomens
35 anos
Psicóloga Hospitalar
20 de Abril
de 2006 – Lisboa - Portugal
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