Da fisiologia à prática - relação mãe/recém-nascido
A fisiologia (ramo da biologia que estuda as funções mecânicas, físicas e bioquímicas dos seres vivos) é uma linguagem científica, rigorosa, universal e trans-cultural.
Daí a importância de observar e estudar os mecanismos de parto a partir de uma visão fisiológica.
Mas além de adquirir conceitos fisiológicos, é fundamental assimilá-los e compreendê-los numa dinâmica de parto.
Mais importante ainda, não é adquirir mais conhecimentos, mas sim assimilar as noções fisiológicas já existentes na biologia, de forma a ultrapassar paradigmas culturais.
A tecnologia e os avanços da medicina, ao trazerem bastantes melhorias para as condições patológicas da gravidez, trouxeram também uma separação da mãe e do recém-nascido. Os cuidados diferenciados que são administrados a uma e a outro imediatamente após o parto, prestados por diferentes técnicos de saúde, tornam essa separação ainda mais evidente.
Poder-se-á dizer, que a primeira interrupção da filosofia de cuidados de saúde continuados se dá imediatamente após o nascimento.
De certa forma, podemos constatar neste padrão uma repetição de modelos arcaicos, uma vez que as tradições culturais primitivas sempre tentaram interferir a relação mãe/recém-nascido. Um recém-nascido sempre foi algo de muito valioso, e continua a sê-lo hoje nas sociedades modernas ocidentais e industrializadas, onde a diminuição de nascimentos está a colocar em causa a substituição de gerações. Daí a necessidade da sociedade, enquanto todo, tentar ocupar-se do bebé em vez da mãe.
Mas graças aos vários estudos comportamentais levados a cabo, sabemos hoje, sem qualquer dúvida, que todos os recém-nascidos continuam a precisar das suas mães para se desenvolverem de forma saudável e harmoniosa, como um todo.
Os primeiros estudos do género foram feitos com símios e outros mamíferos. As conclusões foram as de que um recém-nascido que não recebesse a atenção imediata da sua mãe, e não se vinculasse com ela, acabava por ser preterido e por morrer, ou ficar com graves sequelas no seu desenvolvimento psico-emocional.
Posteriormente, estudos efectuados através da observação directa de puérperas e recém-nascidos, mostram que quando uma mulher é deixada a sós com o seu bebé, sem se sentir observada nem condicionada nas suas acções e movimentos, que o bebé inicia de imediato a amamentação de forma espontânea. Não se sabia isso anteriormente, por nunca terem sido feitos estudos de observação nos quais as mulheres fossem deixadas sozinhas com os seus bebés.
Michel Odent
(Intervenção proferida durante a Conferência "Birth is a Human Rights Issue", da Midwifery Today, em Setembro/Outubro de 2010, em Estrasburgo, subordinada ao tema "Natural Approaches in Birth and Parenting - From Physiology to Practice")
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