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Da fisiologia à prática - a presença dos homens no parto

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Passámos directamente de uma geração que não reconhecia nem privilegiava a relação mãe/recém-nascido, bem como todos os mecanismos fisiológicos de um parto, para uma geração que “impingiu” os homens nas salas de parto.

A questão da participação dos homens no trabalho de parto, e a sua entrada no cenário de parto, introduzida em larga escala no início dos anos 70, é muito complexa, está longe de ser consensual, e tem diversos efeitos a longo prazo, tanto para a relação do casal, como para a visão que o mundo tem do parto.
A presença do homem no parto é uma adaptação decorrente da industrialização do parto e da medicalização da sua assistência: a concentração dos partos no hospital é consentânea com a presença dos homens na sala de partos. Ao transferir o parto para o hospital, local hostil à grávida que se sente sem referências de proximidade, a presença do companheiro foi pensada como benéfica para atenuar o constrangimento de estar num sítio estranho com pessoas estranhas. Foram também as mulheres a exigir esse direito de ter alguém junto com elas num parto hospitalar.

A complexidade da participação do homem no parto nunca foi devidamente avaliada e estudada. A evidência disponível mostra-nos que os casais que partilham o trabalho de parto de forma participativa e fortalecem a sua relação, são infelizmente uma minoria. Para todos os outros há efeitos profundos, possíveis de abalar uma relação. Os efeitos da presença do homem na atracção sexual do casal não foram ainda estudados de forma intensiva. As observações efectuadas neste aspecto são contraditórias e não conclusivas. Ao contrário do que é normalmente assumido, a resposta ao desejo sexual é mais de origem química do que emocional, quando observada de uma perspectiva fisiológica.

A questão da produção de adrenalina durante o trabalho de parto, por parte dos homens, não é necessariamente um factor de stress, e muito menos será sinónimo de falta de amor. Aliás, quanto mais amor há entre um casal, mais evidente será um instinto protector/agressivo, gerador de adrenalina, por parte do homem. Por outro lado ainda, quanto mais próxima é a relação do casal, mais avassalador e assustador pode ser um parto para o elemento masculino.

A principal questão que os homens têm a aprender em relação ao parto, é acreditar nas capacidades inatas e fisiológicas da mulher para parir. Aprenderem a ser espectadores participativos, mas secundários e silenciosos (quem ocupa o papel central de um trabalho de parto é sempre a mulher).
A maior compreensão que um homem pode adquirir do parto é que este é avassalador e que o transcende. Quando se diz que o parto “é uma coisa de mulheres” não se quer dizer que os homens não sejam bem-vindos. Quer apenas dizer que é uma dimensão vivida no feminino.
Podemos observar várias sociedades primitivas que apresentam vários rituais simbólicos, destinados exclusivamente a manter os homens ocupados durante o trabalho de parto, de forma a sentirem-se úteis sem interferir no processo fisiológico.

A sacralização do parto é de certa forma perdida quando o homem está presente. O mistério associado ao parto é uma parte necessária para esta sacralização, que já está comprometida com os actuais modelos de assistência ao parto, e com a migração deste para o hospital. A presença do homem banaliza o acto simbólico e sagrado de dar à luz.

A presença dos homens tornou-se hoje bastante banal e chega até a ser um dogma: o “normal”, expectável e aceitável socialmente é que um homem assista ao nascimento do seu filho, e que a mulher deseje a sua presença como acompanhante de parto privilegiado. No entanto, as relações entre homens e mulheres já são demasiado complexas para adicionar ainda mais um factor externo de pressão.
Todas estas questões podem ser observadas de forma transversal, em várias faixas etárias, origens geográficas e culturais.

Parece então prudente analisar caso a caso a presença do homem na sala de partos, e esta não ser a única opção que a mulher tenha à sua disposição para se sentir acompanhada e protegida num ambiente de parto mais hostil, como é o caso do hospital.
Esta é uma questão que deve ser discutida no seio do casal, de acordo com as suas convicções próprias. Não há evidência que demonstre conclusivamente que a presença do pai é benéfica durante o trabalho de parto, mas sim que a presença de uma figura de apoio emocional traz à mulher benefícios ao desenrolar do trabalho de parto.
A escolha dessa figura de apoio deve sempre partir da mulher, e deve preferencialmente ser alguém que compreenda a fisiologia do parto.

Michel Odent
(Intervenção proferida durante a Conferência "Birth is a Human Rights Issue", da Midwifery Today, em Setembro/Outubro de 2010, em Estrasburgo, subordinada ao tema "Natural Approaches in Birth and Parenting  - From Physiology to Practice")

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